ROCAS-QUINTAS

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, Natal ainda era, como a chamava João Cláudio Machado, uma fazenda iluminada, ou seja, uma quase província de hábitos conservadores apesar dos arroubos dos mais ousados. Cidade dos assustados, dos namoros no portão, do corso na Av. Deodoro, das primeiras motos Honda, do Hippie Drive-in, do SCBEU, das poucas linhas de ônibus. A principal era a que fazia o trajeto do bairro das Rocas até as Quintas, com limites ali onde era o Matadouro e o Posto Fiscal, ou corrente, como era chamado. Nada de zona norte, apenas poucas casas e a Casa de Detenção. Onde hoje é o supermercado Nordestão era o local chamado Gancho, ermo e escuro. A Redinha era uma praia distante, mais facilmente acessível pelos barcos de Luís Romão que cruzavam o rio Potengi.

Foto: Cacá Medeiros

Havia por esses anos uma mulher que era vista em todos os locais, exercendo seu ofício e oferecendo, a troco de pagamento, os seus serviços de ordem sexual. Profissão milenar e dizem que antecedente de todas as outras. Era uma freelancer na sua atividade, ou seja, não estava vinculada a nenhuma casa do ramo. Conheci-a em plena atividade, ainda com traços de juventude que se esvaía. Pele acobreada do sol, cabelos curtos, pernas grossas, bunda larga, desprovida de beleza. Abordava os homens oferendo seus préstimos a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Na Ribeira, Rocas, Cidade Alta. “- Faço tudo!” E se punha a descrever o cardápio de seus serviços como se fosse um currículo. Oferta aceita conduzia os seus clientes às casas de recurso (precursores dos motéis) da Ribeira ou das Rocas, subúrbio da cidade. Os meninos que jogavam bola paravam para gritar: – Rocas Quintas! Já vai? Todo dia pega trinta! Os homens, envergonhados, caminhavam atrás, fazendo cara de paisagem e seguindo os passos da profissional impassível.

Algum tempo depois, já um taludo adolescente, fui abordado por Rocas-Quintas em plena tarde, ali na Esplanada Silva Jardim. Fez o seu discurso de apresentação, descrevendo em detalhes suas habilidades. Confesso que me vi tentado e os hormônios ficaram em ebulição. Ao baixar a vista, ela empolgou-se ainda mais. Não fossem a ojeriza pelo tal do sexo pago, os princípios aprendidos no Colégio Salesiano e certa piedade pela mulher, eu hoje poderia contar essa história com maior riqueza e minúcias.

Mais tarde, no meu livro de estreia “Aconteceu na 5ª Delegacia”, ganhador do Concurso Literário da Fundação José Augusto em 1980 e publicado em 1982, escrevi de forma ficcional sobre a personagem que marcou a minha imaginação.

Essa história poderia acabar bem, fosse inventada. Gostaria de escrevê-la assim. Apareceria um príncipe, um antigo amor, uma paixão arrebatadora e Rocas-Quintas seria resgatada das ruas. Mas a realidade é dura e está mais para os tangos de Gardel, para Dolores Sierra (Wilson Batista e Jorge De Castro) na voz de Nelson Gonçalves ou as sofrências de Lupicínio Rodrigues.

E assim, muitos anos depois, voltei a encontrar Rocas-Quintas. Mais uma vez fui abordado, agora em frente ao antigo ITORN, noitinha. Desta feita ao invés de oferecer serviços pediu ajuda. Pois é. Rocas-Quintas mendigava. Uma sombra da sombra que foi. Como terá sido a vida dessa criatura? Que caminhos, que desvios, que penas? Terá tido um dia marido, família, filhos, sobrinhos? De onde viria? Quando terá começado a se embrutecer? E, mais importante, o que seria do resto dos seus dias?

Ao receber a ajuda agradeceu da única maneira que sabia. Desejou-me muitas mulheres (não nestes termos. Referiu-se, na verdade, a uma parte da anatomia das mulheres) e disse que em sua vida havia transado com uma quantidade incalculável de homens (mais uma vez em termos chulos. Agora a parte da anatomia masculina). Se fosse medir, disse ela, daria para cobrir a distância da terra até a lua mais de uma vez.

Foi a última vez que os nossos caminhos cruzaram. Não soube mais dela. O pesquisador e escritor Gutenberg Costa, meu amigo, sempre interessado nesses tipos que fazem a história subterrânea das cidades, conversou com ela algumas vezes, descobrindo seu nome de batismo – Maria Edite. Descreve-a desdentada e doente. Não conseguiu fotografá-la, uma pena.

Pesquisador e escritor Gutenberg Costa, fala da personagem Rocas-Quintas
em seu livro “Natal – Personagens & Populares

Anos atrás tomei conhecimento da expressão “invisibilidade social”, que é o que atinge os que estão à margem da sociedade ou exercem profissões sem reconhecimento social: mendigos, moradores de rua, garis, faxineiros, seguranças, frentistas, barraqueiros, ambulantes, prostitutas. O nosso preconceito e indiferença fazem desses personagens um pouco mais que objetos nas ruas da cidade. Maria Edite foi isso em certo tempo. Parte da paisagem urbana de Natal. Uma parte ignorada e triste.

NATAL/2021

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1 comentário

  • Alberto da Hora disse:

    Essa foto é de “Rocas-Quintas”? Como também a conheci, fico na dúvida. Se for a mesma, é lamentável que tenha chegado assim ao fim da vida.

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