Quero um cafezinho com mais Dulces e Edvaldos

Por João Ricardo Correia – Jornalista

Como é bom ter acesso a conteúdos de qualidade, muitos surgidos de repente, a partir de uma nova descoberta, de uma pessoa que acabamos de conhecer. Foi assim com Dona Dulce, potiguar igual a mim, também com raízes interioranas, falando num linguajar parecido, cabelos branquinhos, compartilhando lembranças até de conhecidos comuns, que povoam nossa existência, apesar da diferença de idade que nos separa apenas cronologicamente em cenários tão representativos e vivos.

Maravilhoso poder conversar com alguém desprovida de ostentação, sem necessidade de falar sobre marcas das roupas, modelos de celulares, do preço de um tal copo que mantém a cerveja gelada por mais tempo. Gente autêntica, que não força a barra. Excelente bater um papo com quem sabe ouvir e não fala o tempo todo, todo tempo, quase sem pausa, numa nítida insegurança de manter-se em evidência muito mais pelo que aparenta ser, do que realmente é.

Na lida com o tempo, essa figura cativante que conheci estava despida de todas as superficialidades. Algumas vezes sorria e mostrava, pelo olhar, que concordava ou não com algumas situações. E seguia a vida, tocava o barco.

Da mesma forma, recordo-me de “Seu Edvaldo”, um antigo vizinho do meu querido bairro do Alecrim, na zona Leste de Natal. Ele havia sido colega de farda do meu pai, na Marinha do Brasil. Ainda criança e adolescente, quantas vezes conversei com ele na esquina de sua casa, sentados lado a lado, num batente da calçada. Invariavelmente, os assuntos giravam entre futebol e as suas histórias de marinheiro. Se bem que, vez por outra, ele, para desespero dos filhos, me “escalava” para ser seu adversário no videogame que tinha comprado há poucas semanas.

Neste fim de 2021, enquanto conhecia Dona Dulce, pertinho do mar, queria saber notícias de Seu Edvaldo, internado em um hospital com problemas cardíacos. Uma mulher e um homem mais vividos que eu, que certamente enfrentaram momentos distintos, mas que seus conteúdos me fazem ter, ainda mais, a certeza do quanto gosto de me aproximar e beber na fonte dessas criaturas que oferecem suas almas em forma de palavras e atitudes, pelo prazer de ensinar e aprender o tempo todo. Seus diplomas são suas histórias, seus currículos estão talhados nas faces, suas riquezas estão no testemunho que dão da vida.

Cultivo esse tipo de gente e não faço a mínima questão nem de conhecer e muito menos me aprofundar em mares onde imperam a materialidade, a hipocrisia, a arrogância, a soberba e as conversas infrutíferas. Não tolero blablablá. E, acredite, sou bem mais chato que os chatos que ousam se aproximar de mim.

Preciso tomar meu cafezinho. Deitar com meu radinho de pilha colado no ouvido direito. Espero ter o privilégio de encontrar outras Dulces, outros Edvaldos. Conteúdo me faz bem, embalagem não me serve nem para reciclar.

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