Quando acabar, o maluco sou eu!

                       

 Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

O título dessa minha prosa vem de uma frase musical do filósofo, cantor e compositor Raul Seixas, do qual sou fã roxo. Ele era chamado de ‘maluco beleza’. Um doido genial da nossa música popular brasileira. Só os doidos são criativos e impacientes. Os de juízo, como dizia meu pai, Geraldo Costa, procuram ganhar dinheiro na vida, diferentemente de mim e outros. Nesse sentido paterno, noventa e nove por cento de minha família me considera um doido. Meu sobrinho Jobson Costa, ao ver minha biblioteca aqui na minha casa de Nísia Floresta, comentou-me sem segredo o seguinte: “Tio, se eu tivesse lido a metade desses livros, eu já teria ficado louco!”. Jobson é um homem alegre, feliz e empresário. Só puxou ao tio no gostar de bares, restaurantes e festas.

Meu saudoso e querido primo materno de Pendências/RN, Hermógenes Medeiros, ao me ver comprar um quadro pintado por um artista daquela região, não se aguentou e deu sua opinião na bucha: “Meu primo, agora estou vendo que você é doido mesmo. Quem já se viu gastar dinheiro com quadros pra paredes e livros. Primo, crie juízo e faça como seus irmãos, vá juntar dinheiro pra sua velhice, homem de Deus!”. E esse meu primo se foi bem moço. Deixou muitos bens e nenhum quadro na parede ou biblioteca. A vida é assim mesmo, todo mundo achando que os doidos são os outros, como diziam Sigmund Freud e Nelson Rodrigues…

O grandioso mestre Ariano Suassuna, com quem conversei bastante em nossos encontros, certa feita lucidamente cunhou uma belíssima frase opinião: “Eu gosto dos doidos porque eles são iguais aos escritores: veem as coisas além das aparências!”. Ariano também dizia que, na sua família, quem não era doido juntava pedra para dar aos ditos. Eu, além de gostar dos doidos e doidas, nunca tive medo deles e delas. O primeiro que vi na minha infância foi o ‘Batista Doido’ lá em Pendências, na casa de minha avó materna. Ele, já muito crescido, ainda brincava nas ruas de areia com seu caminhãozinho de lata. Não tomava banho e andava cheirando feito bode velho. Minha mãe explicava-me a sua doidice: – “Ele tomou banho frio quando criança ao acordar com o corpinho quente e ficou assim”. Eu não tinha medo do pobre, ele é que tinha medo de que eu jogasse um caneco d’água das jarras de minha vó. Doido confia e desconfia de outro doido!

Ariano Suassuna

Já contei algumas histórias de meus doidos queridos do bairro do Alecrim, em meu livro de personagens, em 1999. O mais famoso deles era o ‘Lambretinha’, o qual corria seguindo os carros, feito as rápidas Lambretas dos anos 60/70. Comia de sobras de lixos e rasgava até dinheiro. Defecava inocentemente no pé do grande relógio em frente ao velho bar Quitandinha. Eu não tinha medo dele, mas minha mãe não me deixava chegar perto do pobre. Procuro feito doido uma fotografia do famoso Lambretinha. Havia outro doido por aquela região: o ‘Cuíca’. Era um tipo branco e forte, pedia esmola e quando não era atendido em seus pedidos, corria em direção a parede mais próxima para bater com sua cabeça até sangrar. Minha mãe, dona Estela, protetora dos doidos, dava comida e água sempre ao vê-lo em sua porta. Ela morria de pena do coitado do Cuíca, que como o Lambretinha, já está no céu, conversando com São Francisco. O santo dos doidos!

A loucura do primeiro santo católico canonizado Francisco foi renunciar a herança e a riqueza dos pais. Correr nu pelas ruas, abraçar os pobres, doentes e conversar com os pássaros. Hoje, dificilmente seria canonizado pelo rico Vaticano, cheio de escanda-los. O nosso Padre João Maria, era um doido, doava a sua rede e dormia no chão. E assim fazia com todos os bens ao seu redor. O amigo Monsenhor Expedito Medeiros, foi chamado de doido, quando renunciou sua herança paterna e preferiu viver na pobreza e na bondade. Nenhum dos dois potiguares, ainda foi canonizado. Enquanto minha mãe chamava de pobres de juízos fracos, papai, Geraldo Costa, tinha apenas duas classificações: “A maioria são safados e poucos são os loucos!”. Para seu Geraldo, doido tinha que ser ‘varrido’ e verdadeiro. Ou seja, rasgar dinheiro e comer bosta! Existem os doidos e os sabidos…

Monsenhor Expedito Sobral

Antigamente, apareciam os doidos de ‘lua cheia’, como o brabo ‘Relâmpago’. Falando nele, eu procurava desesperadamente uma foto sua, então soube de um senhor no Sebo de Jácio Torres que já tinha em meus arquivos e não sabia: “O amigo escritor não tem o disco vinil da campanha de Aluízio Alves? Aquele sujeito que está agarrado na frente do caminhão é o Relâmpago que você tanto procura em fotografia. Engraçado é que até os líderes políticos de meu tempo tinham os seus eleitores considerados doidos. Temos o velho Dinarte Mariz com uma fã incondicional na figura de ‘Maria Mula Manca’. Já o jovem Aluízio Alves, tinha o doido cabeceiro da feira do Alecrim, o Relâmpago. Como seu fiel eleitor, em épocas de passeatas, carregava bananeiras ou até coqueiros nas costas da praça Gentil Ferreira, no Alecrim, até o centro de Macaíba. Outro aluizista doente era o doido ‘Corisco’, o qual andava trajando verde dos pés à cabeça e soltando os maiores palavrões do mundo aos dinartistas e meninos provocadores, como eu…

Admiro muito o já citado Ariano Suassuna, o qual deixou de ganhar dinheiro com fazendas, empresas e se encantou velho, feliz, viajando, dando risadas com os doidos que encontrava, e escrevendo belíssimas histórias. Uma vez fui advertido por um garçom em um restaurante em Mossoró/RN: “O senhor tenha muito cuidado com aquele sujeito ali que está lhe olhando que ele é doido!”. Pouco tempo depois, o tal do doido estava sentado ao meu lado, lanchando, matando a sua fome e falando sobre geografia e história, como poucos catedráticos que já vi em minha vida nos cursos superiores que fiz. O popular ‘Zé Doido’, o qual me foi apresentado na cidade de Patu/RN, era e é nada mais do que o homem mais criativo e inteligente do mundo. Em nossas conversas e encontros, ensinou-me muitas regras que ainda uso para meu bem viver. E ai daquele ou daquela que não se fizer doido para viver bem nessa vida tão complexa e tecnologicamente avançada…

Conheci uma doida famosa em São Paulo do Potengi, a qual, ao chegar na mesa do amigo monsenhor Expedito Medeiros, virava uma santa de tão calma. Na saída da dita doida, o amigo, dono da casa, me comentava o seguinte: “Amigo Gutenberg, fique sabendo que a miserável da fome gera muita loucura nesse mundo de muita fartura e pouca solidariedade!”. Por onde viajo, tenho total respeito e atenção aos considerados loucos. Só fico mesmo desconfiado com aqueles políticos ajuizados, os quais vivem dentro das igrejas e se dizem ricos e inteligentes. Aí, feito gato escaldado, dou pouca ou nenhuma atenção. Os políticos, geralmente, mentem. Os ricos e inteligentes são de fachadas. Só casca de pão, miolo mesmo nada.

Quando o saudoso amigo padre e escritor cearense Antônio Vieira, encontrou um doido em suas viagens sertanejas, e atentou-lhe explicar o que de bom faria a recém criada ‘SUDENE’, para acabar com a seca do nordestino, esse matuto e doido, lucidamente, lhe deu como resposta a seguinte filosofia: “Padre Vieira, essa tal de SURDENE é como peito de homem. Só vai servir de enfeite mesmo”.

E o maior apanhador ou pesquisador de histórias de doidos da Paraíba que eu conheci foi o folclorista Zé Cavalcanti, o qual em vida contou-me centenas delas, quase todas de sua região de Patos/PB. Dizia-me o mestre paraibano em minhas visitas a sua casa em João Pessoa/PB, entre outras lições de vida, esta: “Amigo Gutenberg, pode confiar em doido ou doida. Eles e elas são honestos e sinceros. Amigos ao extremo, como seu cachorro de estimação. Agora fique de orelha em pé com os sabidos e sonsinhos metidos a santos!”.

Folclorista paraibano, Zé Cavalcanti

Eu vou terminar por hoje, repetindo o inesquecível doido Raul Seixas – que inclusive é nome de meu fiel cachorro – ‘quando acabar, o maluco sou eu!’.

                              Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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