Prefácio e natalício

Woden Madruga – Da Academia Norte-Riograndense de Letras

Valério Mesquita era ainda menino quando o seu pai, Alfredo Mesquita Filho, já se afirmara como um dos mais importantes líderes de sua terra, chefe político curtido na oposição e no governo. Foi naquela campanha eleitoral de 1945, que eu ouvi falar no seu nome pela primeira vez. No ano seguinte, se elegeria deputado estadual, Deputado da Constituinte. Tempos adiante – veja como são as veredas da vida – o menino de ontem, agora repórter noviço, iria vê-lo e ouvi-lo entre as escaramuças da Assembleia Legislativa, dividida entre pessedistas (ele era do PSD), udenistas, getulistas e cafeístas. Foi deputado estadual em três mandatos, prefeito de Macaíba, outros tantos.

Por trinta anos seguidos manteve-se no poder e sua liderança transpunha as divisas do município para alcançar toda a ribeira do Potengi e se alongar até os sertões do Trairi. Sua casa, na Rua da Cruz, era o plenário de todas as decisões. Para lá convergiam os poderosos – governadores, senadores, deputados, prefeitos, os fazendeiros, os comerciantes, o vigário, o delegado, o juiz e o promotor – e os mais humildes filhos de sua terra. Decidia-se de tudo, da briga de vizinhos às altas demandas da política, os projetos em favor do progresso do município e do bem-estar do seu povo. Foi um líder, um governante, um benfeitor.

Valério Mesquita seguiu, na política, os passos do pai. Adolescente, já subia nos palanques fazendo discursos. Bacharel em Direito, já era político de carteirinha. Prefeito e deputado, sucedendo na medida exata o velho Alfredo Mesquita, passou a ser o novo líder de sua gente. Entre um mandato e outro – e foram vários – exerce a vida pública, ocupando cargos importantes como o de presidente da Fundação José Augusto.

Aí um homem já identificado com a vida cultural do Estado, revelando o seu gosto pelas artes, trabalhando pela preservação do patrimônio histórico e artístico, um apaixonado pela cultura popular e pelas letras. Surge o editor e o escritor, o cronista de estilo elegante, o analista dos fatos políticos, o observador atento e sensível do cotidiano de sua terra e do seu povo. Em seguida, como consequência, natural, foram surgindo seus livros. Neles, o talento e a argúcia do escritor, o hábil contador de histórias e estórias, o cronista do seu tempo, fiel ao seu povo e aos seus costumes, sua cultura.

Foto: Tecnologia do Blogguer

Gosto de lê-lo nos retratos que sabe traçar dos tipos populares de Macaíba, das pessoas simples, anônimos, donas de casa, do feirante, do vendedor ambulante, do boêmio, do modesto funcionário público, do poeta inédito, do professor primário, da parteira, do locutor da amplificadora, do pescador de siri, do palhaço do pastoril, do tocador de saxofone, do jogador de baralho, da cartomante, do marceneiro-inventor, do xeleléu de vereador, peça importante e imprescindível no emaranhado humano de qualquer lugar. Câmara Cascudo fez isso com maestria em suas Actas Diurnas depois transformadas no “O livro das velhas figuras”.

Valério Mesquita com Câmara Cascudo _ Foto: Tribuna do Norte

Nas figuras cascudianas que povoaram – e povoam Natal – há esse cheiro do povo simples, abelhas operárias da grande colméia. Nomes que certamente seriam varridos da memória da História da terra que ajudaram a construir, não fosse o registro amoroso do cronista.

Assim tem feito Valério, cronista de sua terra e de sua gente, montando, peça por peça, a história do seu povo e do seu lugar. Neste livro que ele reedita agora, Macaíba de Seu Mesquita, que é um canto de amor e de admiração ao seu pai, mesmo que tenha sido facetado pelo lado do pitoresco e até do “folclore político”, é, sim, uma crônica que segura a história de um certo tempo de Macaíba e do Rio Grande do Norte.(*)

Compartilhar em:

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.