Meu pequeno álbum de família…

Foto Ilustrativa

                            

 Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Acho que já disse, que não tenho paciência para duas coisas: pescar e pesquisar sobre árvores genealógicas. Comprei todo equipamento de pesca e, ao praticar, desisti no mesmo dia. Eu que adoro peixes cozidos e fritos, fiquei os esperando para o resto de minha vida, no prato. Assisti certa feita uma entrevista televisiva com uma pesquisadora que passou mais de três décadas em busca de informações de sua família. Ela viajou quase uma dezena de Estados brasileiros e foi até a Espanha e Portugal em busca de dados e informações familiares. No meu caso, tenho muito o que fazer no cotidiano e não tenho dinheiro para aventuras e nem paciência demasiada para tais pesquisas genealógicas.

Sobre as famílias, o teatrólogo e cronista pernambucano Nelson Rodrigues já nos mostrou em teatro, novelas e crônicas muitas de suas mazelas. Dizem que só se reúnem mesmo para bater a chapa (‘fotografia’) tipo sorrisos, ou retratos da harmonia, em noite de Natal e Ano Novo. Geralmente, é vista em velórios e, logo depois, para as brigas de heranças. O escritor e romancista português, Eça de Queirós, foi cruel e realista quando disse, em sua obra ‘Migalhas’, sobre a questão referida: “É onde se encontram as piores víboras, é no nosso próprio sangue!”. Para encerrar as citações, eu os lembraria a do humorista americano Kim Hubbard: “Os parentes distantes são os melhores. E quanto mais distantes, melhores”.

Sem querer, vim morar o resto de minha vida aqui na pacata cidade de Nísia Floresta. Nenhum parente ou aderente por perto. Confesso que pouco visito os familiares e por esses também sou pouco visitado. Em minha casa sempre chegam os amigos e amigas, com tempo de amizade de carteirinha, de várias décadas. Muitos vem de muitíssimo longe, outros Estados, além das fronteiras do RN e sem desculpas para deixarem de virem. Enquanto isso, tenho certos parentes que passam por mim e fazem de conta que não me conhecem. Melhor para mim e acho que para os tais…

Residência de Gutenberg Costa, na comunidade rural de Morrinhos, em Nísia Floresta

O saudoso intelectual e amigo sergipano, que vivia em Salvador/BA, José Calasans, em um dos almoços em que costumava me convidar como generoso anfitrião, me fez uma embaraçosa pergunta:” O amigo Gutenberg Costa conhece alguma família unida depois de alguma grande herança? Na realidade, mesmo sem gostar, já fui a algumas missas de sétimos dias de alguns ricos. Já na missa de ano, geralmente os filhos já estão brigando na justiça, como ferozes inimigos…

Papai só deixou uma casa para os sete filhos. Dizia ele que era para não dar muita briga. O sonho de minha mãe era deixar uma casa para cada um de seus rebentos. Eu vou deixar duas casas e uma biblioteca. Espero que não haja briga, pois minha neta já se diz “dona de tudo”. Minha mãe repetia quase todos os dias o seu mantra: “Dessa vida, nada se leva!”.

Neta de Gutenberg se diz “dona de tudo” da Biblioteca Dona Estela

Voltemos a prosa. O compositor e cantor carioca Chico Buarque, em uma de suas músicas, conta-nos que seu pai, o historiador Sérgio Buarque, era pernambucano e seu avô, baiano. É a sua genealogia musical. Como não fiz a minha e não vou fazer, apenas guardei na minha memória algumas informações.

Maria Estela Fernandes de Medeiros Costa e Geraldo Pereira da Costa., pais de Gutenberg Costa

Meu pai, Geraldo Pereira da Costa, nasceu na cidade de Macaíba/RN e meu avô paterno, João Pereira, em Acari. Minha avó paterna, Maria Tavares, era de cor negra da cidade de Ipanguaçu, com familiares na região do Assú. Família misturada de negros e índios. Da parte de minha mãe, Maria Estela Fernandes de Medeiros Costa, a família é de Pendências, Macau e Assú. Vinda dos chamados ‘troncos’ da Paraíba, da cidade de Itabaiana. Todos brancos de olhos azuis ou claros. Os homens ficando de cabeça branca logo cedo. A dona Estela fugiu com seu pretendente, sem conhecê-lo, ainda brincando de bonecas. Com seus inocentes 14 anos de idade. Papai, um negro pobre e dono de caminhão velho, aos 24 anos. Ainda por cima, fumando, bebendo cervejas e cachaças. E o casal de jovens na sua fuga aventurosa se livrou milagrosamente de alguns perseguidores, do seu Hermógenes Medeiros, meu avô materno. Meus genitores chegaram em Natal em um caminhão Chevrolet velho, casaram e viveram 54 anos juntos, entre Macaíba e Natal, na rua da feira do Alecrim.   

Francisca Fernandes de Medeiros e Francisco Hermógenes de Medeiros. – Arquivo: Gutenberg Costa

Os citados Medeiros de Pendências, da parte materna, vieram da Paraíba e tudo começou com o jovem Manoel Alves Barbosa, o qual trabalhava como pessoa de confiança do português, ‘seu’ Medeiros, e deste em gratidão, adotou o sobrenome para seus descendentes. Meu avô materno era o industrial salineiro Francisco Hermógenes de Medeiros, nascido em Pendências. Minha avó era dona de casa, de nome Francisca Fernandes de Medeiros, nascida na cidade de Touros. Essa seria adotada como filha única pelo casal Coronel João Alves Fernandes e Ana Fernandes. Coronel Joca Alves e sua esposa, viviam com muita riqueza e prestígio e foram sepultados na igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macau, cidade em que viviam.


Coronel Joca Alves  Fernandes e Ana Fernandes – Arquivo Gutenberg Costa

Sei de outros pormenores. Guardo fotos da maioria dos familiares falecidos, algumas emolduradas em minha sala. Retratos antigos e até rejeitados, dos quais vou cuidar para que pelo menos alguém no futuro queira aproveitar para uma história familiar. Só resta dizer que arquivo bem organizado mesmo tem meu primo materno, Neto de Dagmar, residente em Pendências. Além de muita coisa sobre a referida cidade, tem anotado datas de nascimentos e falecimentos de todo mundo da nossa família Medeiros, de Pendências e região.

Quando comecei a publicar artigos em jornais de Natal, ainda nos anos 70, com tantos literatos famosos com sobrenome de Medeiros, como: Tarcísio Medeiros, Olavo Medeiros, Bianor Medeiros e Manoel Medeiros, entre outros, decidi escapar desse meio intelectual usando o sobrenome de meu pai, Costa. Expliquei a minha mãe, a qual entendeu. Só a ela devia essa explicação. Nasci no bairro do Alecrim, em Natal, há quase 63 anos. Sétimo e último filho. Em 1998, fui agraciado com a cidadania de Pendências, por trama de meu primo, vereador na ocasião, Medeiros Neto, filho de meu tio materno Dagmar Medeiros. O citado tio, antes de sua partida, no hospital em Natal, pediu-me que eu fosse até a cidade paraibana de Itabaiana, puxar o fio da meada de nossa família.

Fui lá com o meu primo já referido e vi que todos os ‘Alves Barbosa’ que lá ainda viviam, eram brancos de olhos azuis, como os antigos Medeiros os quais conheci quando criança em Pendências. Nem precisava de teste de DNA. ‘Cara de um, focinho de outro’, como me dizem nas feiras nas quais ando todos os sábados. Somos opiniosos, ranzinzas e falantes, feito quem bebeu água de chocalho. Mulheres bonitas, inteligentes. Os homens geralmente obesos e cardíacos. Os Costas ainda não fizeram um encontro geral. Os Medeiros já realizaram seu primeiro encontro em Pendências, em 2016, com almoço, camisetas, música e congraçamento de quase duas centenas de descendentes. Ao que parece, fui o primeiro a publicar livros da família…

Hoje, brindando o 2022, me despeço por aqui, esperando que tudo escrito sobre minha família tenha sido explicado tim tim por tim tim! E você? Já fez um estudo de sua árvore genealógica? E se não o fez, procure amar os seus e seu torrão. Queiramos ou não, são a nossa herança cultural e tradicional.

                       Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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