De inimigo e inimizades…

                              

Gutenbeg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Todo mundo sabe que já estou cansado de escrever sobre minhas boas e poucas amizades. Os meus conhecidos são aos milhares. Desafetos, até Jesus Cristo teve. Dizem que os ocultos são os piores inimigos. Os canalhas independem de seus credos e religiões. Os amigos kardecistas e budistas priorizam o perdão aos inimigos, acima de tudo. Mas, na história da religião, as intrigas e inimizades se tornaram clássicas, principalmente na disputa por cargos e poderes. É só ler o saudoso estudioso Umberto Eco, um pouco. Na Bíblia católica, vemos um irmão virar inimigo do outro, como o assassino Caim. Um ex-prefeito de São Paulo, quando esteve nas barras da justiça, sua principal acusadora foi sua esposa, com a qual dormia há décadas sob o mesmo teto. Por essas e outras, é bom ser precavido e viver desconfiado como também nunca dizer que não se tem inimigos. Ninguém nunca sabe…

Comentam que o diabo começa como amigo até tomar uma cachaça grande e esquentar a cabeça. Foi o que me aconteceu com um falso amigo, o qual ao ficar embriagado em um bar lá de Natal, criou coragem e ‘estrebuchou’ me chamando para uma briga e se declarando meu maior inimigo então. Agradeço até hoje a ‘santa cachaça’ que, dizem, deixa pobre rico, medroso, valente e falso amigo vira em inimigo. Sabe-se que é no mundo intelectual e artístico onde se concentram a maior quantidade de invejosos que se fazem de amigos. Só ficam esperando a hora do ataque sórdido e traiçoeiro.

Aqui na minha desorganizada biblioteca, que tem quase de tudo e um pouco mais, achei um ‘Almanaque Biotônico’, de 1951, que era distribuído na minha infância pelas farmácias de Sebastião Coelho e de Celso Dutra, no meu Alecrim, com a seguinte advertência aos seus leitores: “Devem-se acautelar com os inimigos mais do que com as moléstias: são os inimigos que tramam às escondidas”. Também no antigo livro de São Cipriano, há as orações fortes contra os desafetos. Toda rezadeira nos orienta, aconselhando, a não pisar em seus rastros, isso com aqueles que desconfiamos. Muito cuidado com aqueles elogios do tipo que um falso amigo me fazia lá por Natal: “Você só anda muito elegante! Só você quem aparece nos jornais e na televisão; Só quem tem dinheiro e fama é você!. Eu tinha um amigo que, a cada lançamento de livro meu, ligava logo cedo no dia seguinte para minha casa com duas curiosas perguntas: “Vendeu muito livro? Será que agora vai dar pra você comprar um fusquinha?

Gutenberg Costa em dia de lançamento de seu livro – Foto: Canindé Soares

Os velhos sábios já diziam que mil vezes um conselho crítico do que um elogio falso e maldoso… Existem variados tipos de inimigos. Conheci um desses no finado Café São Luiz, no centro de Natal, o qual me disse que seu inimigo tinha sido um antigo professor que, ao morrer, teve o túmulo no cemitério do Alecrim todo mijado pelo dito aluno. Já vi em solenidades culturais um inimigo chegar pela porta da frente e o outro desafeto sair pelos fundos. Em bares e até igrejas também é frequente essa situação. Uma vez, compareci a um velório de uma mãe idosa e ajudei a apaziguar dois irmãos inimigos, que quase botavam o caixão da defunta aos pedaços no chão.

Enterro termina em pancadaria entre familiares

Comentam nas esquinas os leitores do Nelson Rodrigues que nas famílias estão as maiores inimizades, principalmente quando envolvem herança grande. A missa de sétimo dia de um grande amigo ainda reuniu todos os seus filhos, já a de mês foi celebrada em igrejas bem distantes uma da outra. Os irmãos haviam se tornado ferozes inimigos. Eu por precaução, nem vou deixar dinheiro e muito menos quero missa!

Em minhas andanças pelos sertões nordestinos, ouvi e anotei muitas histórias infelizes de brigas intensas de famílias inimigas. Até cemitérios teriam sido construídos separados. Casamentos só fugindo. Tudo na tentativa de se livrarem das vinganças inimigas. Ouvi uma dessas histórias de que um velho inimigo se perfumara e vestira o seu paletó para ir ver o seu desafeto em caminho ao cemitério. Ao sair de casa, é advertido pela esposa e filhos: “O que o senhor vai fazer no enterro de seu maior e declarado inimigo?”. Esse, tranquilamente, responde aos seus: “Vou e ninguém vai me empatar de ir ver se aquele cachorro morreu de verdade!”. Inimigos ou inimigas podem até frequentar a mesma igreja, mas nunca se perdoam ou se abraçam. Nem que o Papa peça e a vaca tussa!

Uma saudosa amiga minha era inimiga da outra e, se encontrando numa festa, segundo ela que me contou dando risadas, pegou a sua inimiga de surpresa e deu-lhe uma dentada tão grande que a vítima teria parado no hospital Walfredo Gurgel. Em uma cidade de Pernambuco, soube que, nas antigas, dois inimigos decidiram acabar na faca de uma vez por todo desafeto de décadas. Cada um com uma peixeira amarrada na camisa. Facada vai e facada vem. Um caiu logo e o outro, poucos minutos depois.

Quando entrevistei com gravador e minha máquina simples fotográfica Yachica, a ex cangaceira Dadá, em Salvador/BA, em 1993, contou-me que perdoara seu maior inimigo, assassino de seu amado marido Corisco: “Fui lá só para perdoar aquele miserável do tenente José Rufino, que já estava acamado a beira da morte, mas nunca esqueço que foi ele que matou covardemente meu marido e me atirou num pé. Por causa desse cabra ruim, eu amputei uma perna e passei a criar meus filhos, costurando dia e noite em uma máquina velha. Só Deus sabe o que sofri por causa daquele condenado dos diabos!”. A destemida Dadá, a qual me recebeu muito bem em sua casa por três vezes, era católica extremada e fiel devota de Nossa Senhora da Conceição!

Dada, viúva do cangaceiro Corisco Foto: Pinterest

Nordestino é assim mesmo, perdoa, mas não esquece o feito do inimigo. Um olho sempre aberto no peixe e outro no gato. Fica escaldado como gato molhado com água quente. Desconfiado pelo resto da vida, feito cachorro com vacinador da raiva. Lembrei agora de uma vizinha de minha mãe que não falava com ela, nem na calçada pisava. Essa, depois de certa idade, entra na casa de dona Estela. Recebe seu abraço e sai depois de tomar café com tapioca. Eu, menino e assombrado com as ditas pazes, ouvi minha mãe dizer baixinho: “Não quero morrer com inimizades. Dessa vida nada se leva, a não ser o bem que se faz!”.

Bem, eu só não sei se a reza e proteção da dita rezadeira me fortaleceu. Fechou o corpo, como dizem, os Pais e Mães de Santo. Já viajei de carro de boi, caminhão de romeiro, trem, barco, carona de todo tipo de automóvel e avião. Nada de ruim me aconteceu, mesmo com as pragas inimigas, até agora. Só coisas boas e mil histórias para contar.

E não deixo de trazer na mala, em minhas voltas, as saudades e amizades conquistadas…

                  Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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