Crônica de um exame de próstata anunciado

Cefas Carvalho – É jornalista e escritor

Bem, não vou mentir: Há pelo menos dez anos imaginava um texto com este título, quando chegasse a hora de fazer meu exame. E também não vou mentir: Ao longo destes anos ouvi e falei com amigos, seja de forma bem humorada, seja com um indisfarçável tom de preconceito, todas as piadas possíveis sobre o assunto (e homens sabem que são muitas).

“Na minha vez vou escolher um médico que tenha o dedo pequeno”. “Pelo contrário, quero um médico com o dedo bem grande, deus me livre de ele enfiar e eu não sentir”. “Ah, mas antes da consulta vou marcar com o médico um vinho e um jantar, não é assim a seco, não”. “Existe urologista mulher? Se sim, aí posso até pensar em fazer”. “Fulano vai adorar o exame, ele gosta de fio terra”. “Beltrano fez o exame mas quer uma segunda opinião e uma terceira”. São tantas que ocupariam esse espaço inteiro.

Mas também havia o velho preconceito sem disfarces. “No meu ninguém coloca o dedo, muito menos homem”. “Aqui só é saída, entrada jamais”. “Morrer todo mundo vai mesmo, no meu ninguém toca”.

E nesse diapasão de piadas idiotas (que passei décadas reproduzindo, mea culpa, mea maxima culpa) e masculinidade frágil e tóxica, acabei vendo pais e tios de amigos meus morrendo por câncer de próstata, por não terem feito o exame que diagnosticaria a doença a tempo de tratá-la. Outra dúzia de amigos meus já chegou a mesma idade que eu – 50 anos – e não pensa em fazer ou adia o exame de maneira que a situação se arraste e que ele não seja mais necessário. Ou que venha a morrer. Morrer por se recusar a fazer um exame. Por causa de um preconceito.

Chegando aos 50 anos e em pleno Novembro Azul, tomei coragem e marquei meu exame. Falo coragem não pelo tabu do toque retal em si, mas, por ser público e notório que tenho horror a médicos de qualquer espécie. Sou dos que preferem lixar o dente em casa a ir a um odontólogo. Ou tentar curar uma dor nas costas com chá de camomila e gengibre a procurar um especialista. Claro que essa posição tacanha e indefensável já me causou dissabores e problemas com pessoas queridas, mas em linhas gerais eu me fiava que no balanço geral a lataria estava bem conservada e em ordem com meio século de vida.

Mas, como se sabe, o câncer de próstata não tem sintomas. Decidi parar de brincar de macho alfa duro na queda que se acha imortal e, repetindo, marquei o exame.

Jornalista e curioso que sou, fui investigar: O câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens brasileiros (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma). Em valores absolutos e considerando ambos os sexos, é o segundo tipo mais comum. Os números mais atualizados, Em 2020, segundo o INCA, registrados 65.840 novos casos confirmados, correspondendo a 29,2% dos tumores incidentes no sexo masculino. Número de mortes em 2019: 15.983 (Dados do Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM). Números altos. Lembrando que os casos confirmados certamente são subnotificados.

Com a proximidade do exame, o conhecimento de dados e a própria dinâmica destes tempos (conversei com os filhos e irmã que faria o exame, todos me deram força e nenhum soltou nenhuma das velhas piadas que ouviria se falasse do tema com amigos da minha idade) esqueci totalmente dos tabus, estigmas e preconceitos que cercam o tema.

O que não te contam é que antes dos exames (muitas vezes o de abdome é realizado junto com o próstata) é necessário jejum, especificações alimentares, claro, como o de quase qualquer exame. O que não te contam também, afinal os homens estão ocupados demais fazendo piadas sobre o assunto do que relatar suas próprias experiências, é que o exame principal na verdade é uma ultrassonografia da próstata, e que dependendo do que o médico detectar dispensa o toque retal, medo maior da fragilíssima masculinidade de nossa geração.

Fiz, faria e farei os exames de próstata quantas vezes forem necessários ao longo dos anos. Assim como o câncer, preconceito mata e não só aos outros, mas a própria pessoa. Novembro Azul, mês de conscientização para se fazer o exame de diagnóstico precoce, passou, mas em dezembro, em 2022, seja quando for, vale a pena homens acima de 50 anos fazerem. Deixem de lado as idiotices de nossa geração e os preconceitos e invistam na saúde!

PS: Resultado do exame de próstata mostrou que está tudo bem. Idem em relação a fígado, baço, pâncreas e rins. Vamos que vamos com cuidados e mais exercícios e alimentação regrada para mais meio século de sonho e de sangue, como cantaria Belchior!

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