Uma questão de vocação

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Graduanda em Filosofia pela Fahs

Uma segunda-feira com ares de domingo – Foi esta a sensação com a qual acordei na manhã da segunda-feira, no dia 02 de fevereiro de 2015, enquanto me preparava para assistir a uma celebração na Província de Nossa Senhora das Neves, atendendo ao gentil convite de Irmã Aurélia Sotero Angelo, minha querida professora no Curso de Filosofia. A celebração, na qual ela atuou como cerimonialista, tinha o objetivo de comemorar a Festa da Apresentação do Senhor – ocasião de grande importância para a vida dos católicos, porque relembra o dia em que Jesus foi apresentado ao templo, por Maria e José, respeitando a uma tradição daqueles tempos.

A celebração, que também é conhecida como Festa da Purificação de Nossa Senhora, ainda teve o fito de comemorar os anos de dedicação à vida religiosa de algumas freiras da Congregação Filhas do Amor Divino. Assim, o evento comemorou Jubileu de Prata, Jubileu de Ouro, Jubileu de Diamante e a Comunidade Católica ainda pode assistir à primeira Profissão e Renovação de Votos de algumas freiras. A cerimônia foi celebrada pelo bispo de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, que também fez aniversário por 40 anos de vida religiosa e pelos arcebispos Eméritos, Dom Heitor de Araújo Sales e Dom Matias Patrício de Macêdo, contando com a presença de diversos padres, entre os quais, Valquimar Nogueira do Nascimento, diretor da Fahs.

A cerimônia iniciou-se com a entrada dos celebrantes, ocasião em que a atenção de todos é voltada para a indumentária usada pelo bispo, composta por uma casula bege, a mitra – simbolizando o poder espiritual e o báculo, espécie de cajado, com o qual o pastor diocesano conduz suas ovelhas. Em seguida entram as freiras, cada uma trazendo uma vela acesa, indicando que seus corações buscam de forma incessante, “Aquele que é a Luz do Mundo”. A vela acesa é um símbolo forte na cerimônia: exprime a fé e o ardor da nossa alma e atesta a adoração que os fiéis prestam a Deus.

Arcebispo Metropolitano de Natal, Dom Jaime Vieira Câmara

Duas religiosas, em particular, foram responsáveis pela comoção que tomou conta de todos os presentes: Irmã Daniely Sandra de Lima e Irmã Joana Darque Vieira Dias, que confessaram sua fé cristã de forma solene e pública. O choro das Irmãs, quase as impedia de falar e a emoção se espalhou pelo recinto tomando conta de todos, de forma que poucos conseguiram segurar as lágrimas diante da beleza daquele momento. Eu, pelo menos, não consegui segurar as minhas, que correram pelo meu rosto sem medo, culpa ou vergonha.

Outro momento que considerei especial durante a celebração foi quando o bispo entregou às Irmãs, a Constituição, o anel com o símbolo da Congregação e as regras de Santo Agostinho – espécie de estatuto criado por Agostinho de Hipona, no século V e que dá algumas indicações de como o indivíduo deve se conduzir na vida comunitária. Segundo estas normas, as pessoas escolhidas para a vida religiosa, fazem os votos de pobreza, castidade e obediência. Também devem ter atenção especial à repartição do trabalho, desapego às coisas mundanas, respeitar o silêncio, a oração e viver em fraternidade, entre outros princípios.

Depois da solenidade, partimos para Emaús, onde se localiza o convento e onde nos aguardava um almoço deliciosamente preparado para a ocasião. Percebi com surpresa, que as freiras, em sua maioria, incluindo a minha querida professora, usavam véu preto e indaguei o motivo. Ela então explicou: “o véu preto é usado para as ocasiões festivas e especiais como a de hoje”. “O véu branco, que uso cotidianamente, é o símbolo da obediência”. Observei ainda que algumas delas não usavam véu. Ao que ela de forma jocosa, respondeu: “essas são as rebeldes”.

Convento da Congregação Filhas do Amor Divino, em Emaús (Parnamirim/RN)

O dia para mim foi realmente diferente e especial. Mas, duas coisas em particular chamaram a minha atenção: a primeira delas diz respeito à alegria das freiras. Elas sorriem o tempo todo e o sorriso irradia por todo o corpo e aquela alegria acaba contagiando aos que estão ao seu redor .Os olhos das freiras brilham de maneira forte; intensa e elas parecem ser muito felizes, levando-nos a comprovar que para ser feliz não é necessário muita coisa. A outra coisa é o carinho e o cuidado dispensado às freiras idosas, para as quais uma ala do convento é destinada. Uma freira chega à velhice desfrutando de respeito; com dignidade e recebendo muito carinho.

Estar protegida pelos muros do Convento de Emaús é estar em um mundo diferente, onde reinam a paz, a tranquilidade e o silêncio; é saber que embora esteja separada da sua família, ganhou-se outra família unida no amor, na fé e na caridade, sabendo que qualquer que seja a dificuldade a ser enfrentada, a pessoa não estará só. Nem mesmo no mais assustador momento da vida: a velhice. Viver entre aqueles muros é uma questão de ser escolhida. É uma questão de vocação.

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