Um pássaro, uma pimenta e uma voz negra

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

 

Ah! As mulheres! Há um livro com minibiografias chamado Corpos Frágeis, Mulheres Poderosas, de Maria Martoccia e Javiera Gutierez, que descreve a vida incrível de algumas artistas do passado. Lembro Maria Callas, Billie Holiday, Edith Piaf, Judy Garland. Acrescentaria com prazer algumas brasileiras: Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Carmem Miranda, Maysa. Quantos obstáculos são necessários vencer para traçar uma trajetória de sucesso desde que se seja mulher? Por trás de todo aquele glamour dos palcos há uma vida de luta contra o preconceito, incompreensão, machismo, empresários exploradores e maridos gananciosos. Há que ter muita força naqueles corpos e mentes aparentemente frágeis.    

Esse mês de janeiro que passou foi, com certeza, de realce para as mulheres, ou ao menos de suas lembranças. No dia do aniversário de 40 anos da morte da ‘pimenta’ Elis Regina, 19/01/1982, com apenas 36 aninhos, data a ser lembrada com toda a reverência que ela merece, morreu também Elza Soares, mulher de história admirável, repleta de exemplos de luta, denodo, coragem e talento.

E está na mídia, mais precisamente na Globoplay, o documentário o “Canto Livre”, de Nara Leão, a revolucionária musa da bossa nova, nascida nessa data (19/01/1942), mulher aparentemente doce e frágil, mas de uma força e resistência invejáveis. Foram as três, sobretudo, vozes que não se deixaram calar. Em tempos de arbitrariedades o silêncio é cúmplice do arbítrio. 

Vi Nara duas vezes. A primeira, junto com Jair Rodrigues, na esteira do sucesso da Banda e de Disparada. Foi no Palácio dos Esportes. Nara se apresentou com o mesmo figurino que usou no Festival da Canção, uma minissaia que deixava a mostra um pouco de suas belas pernas e uma blusa de mangas compridas. Anos depois voltei a vê-la no Projeto Seis e Meia, no Teatro Alberto Marahão (TAM), em 1983, dessa vez dividindo o palco com a Camerata Carioca. Rolou de tudo. Desde Ary Barroso e Renato Teixeira até Zé Kétti e Tom Jobim.

Não vacilo em afirmar que foi um dos melhores espetáculos que vi. Mas Nara foi muito mais que apenas uma cantora. Foi uma voz ativa e destemida em anos especialmente difíceis. Peitou a ditadura em várias ocasiões. Ameaçada de prisão teve a solidariedade de Carlos Drummond de Andrade: “Nara é pássaro, sabia?/E nem adianta prisão/para a voz que, pelos ares,/espalha sua canção (…). Meu ilustre marechal/dirigente da nação,/não deixe, nem de brinquedo,/que prendam Nara Leão”. Encantou-se aos 47 anos, depois de uma vida intensa e marcante.

Elis Regina acompanhada pelo Zimbo Trio

Elis Regina eu tive a sorte de ver pela primeira vez no TAM, acompanhada pelo Zimbo Trio em sua formação original: Luís Chaves, Rubinho e Amilton Godói. Sentei nas primeiras filas, como fã incondicional que era. Nara e Elza me perdoem, mas Elis foi a maior. De todos os tempos. Acompanhei sua carreira e comprei seus discos. Acho até que curtia certa paixonite pela pimentinha. Fiquei revoltado com Henfil quando ele a enterrou no cemitério dos mortos-vivos. Essa briga durou até que Elis gravasse o Bêbado e o Equilibrista, falando de Betinho (Que sonha/com a volta do irmão do Henfil/com tanta gente que partiu/num rabo de foguete) na época exilado no Canadá, e ambos fizessem as pazes. Emocionei-me com a sua morte precoce e culpei todos os homens que dela se aproximaram. Um grande momento (foram tantos) foi quando cantou na TV a canção Atrás da Porta, de Chico Buarque, tomada pela emoção.

Minha história com Elza Soares tem alguns complementos. Ouvia no rádio e era fã da sua voz rouca, nem sei se era natural ou fruto de apurada técnica. E da sua história de preta pobre vinda do planeta fome que enfrentou e venceu as dificuldades. Aí veio Garrincha, o Anjo Torto, e se meteu em nossas vidas. Garrincha tinha uma família enorme, mulher e oito filhos, lá em Pau Grande/RJ. De repente seu caso com Elza se tornou público e todos nós ficamos do lado de sua esposa Nair e da criançada, a imagem do abandono que a imprensa explorou. E, claro, culpávamos Elza, seu feitiço, sua sensualidade. Mané era o ingênuo explorado pela artista.

Elza Soares e Garrincha – Foto: Lendas do passado

E quando da derrocada de Garrincha, quem, aos nossos olhos, era a culpada? A vilã, claro, que havia desviado Mané, só podia ser aquela desalmada sambista de pernas grossas e voz maravilhosa. Apenas anos depois, pela biografia “Estrela Solitária”, de Ruy Castro, vim conhecer a verdade: longe de ser a exploradora, foi Elza quem segurou a barra da bebida, ciúmes e até violência física de Mané, inclusive garantindo o pão de cada dia com o seu trabalho.

Acho que fica, para todos, a imagem de Elza cantando presa a uma cadeira, até os limites da sua resistência; de Elis vestindo uma camiseta com a bandeira do Brasil cantando Águas de Março, de Jobim; e de Nara junto com Chico Buarque defendendo a marchinha A Banda e se fazendo conhecer pelo Brasil inteiro. No dia da sua morte a neta conta que Elza disse “eles estão chegando”. Não tenho dúvidas disso. Devia estar vendo os artistas de todos os tempos que vieram, em cortejo, acompanhá-la na jornada de volta.

NATAL/RN

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