Um homem raro


Roberto Patriota Jornalista e escritor


Ele era um homem calmo, falava baixo e não tinha medo de alma. Possuía um charme pessoal incrível, e consequentemente despertava fascínio no universo feminino de um modo geral. Tinha uma elegância comportamental invejável.

Foi jornalista, escritor, acadêmico, deputado estadual, secretário de imprensa dos governos Lavoisier e Agripino, Funcionário do Fisco estadual, presidente da Companhia Editora do RN, hoje Departamento estadual de imprensa, secretário executivo da Academia Norte Rio-grandense de Letras, presidente do Conselho de Cultura do Estado e de tantas outras instituições. Era um homem essencialmente eclético. Foi um empreendedor arrojado e um tourense apaixonado. Amava sua terra natal com fervor. Refiro-me a Antônio Nilson Patriota, meu pai. 

Filho de Nelson Ferreira Patriota e Maria Segunda Patriota, Nilson Patriota, nasceu na então Vila de Touros – RN, no dia 16 de dezembro de 1930. O pai, Nelson Ferreira Patriota era comerciante, adorava uma boa leitura, tinha espírito boêmio, tocava violão e cantava modinhas, poesias de Castro Alves, Ferreira Itajubá, Auta de Souza, Lourival Açucena e muitos outros poetas do passado.

A mãe, Maria Segunda Patriota exercia afazeres do lar como a grande maioria das mulheres de sua geração. No mesmo ano do nascimento do meu pai, meu avô Nelson Ferreira Patriota perdeu no mar uma grande embarcação carregada de mercadorias adquiridas em Natal para o seu armazém, inclusive bastante querosene. Como a mercadoria não estava segurada, e sendo o prejuízo muito grande, ele ficou sem capital. Conseguiu, porém, salvar a casa de morada e a fazenda Jurema, localizada perto da Serra Verde, na região do Mato Grande.

Quando criança, ouvi a narrativa desse acidente ocorrido com meu avô em detalhes. Na fazenda Jurema, meu pai viveu algum tempo, dali saindo para a companhia da irmã mais velha, Waldemira, já então casada com seu tio, o poeta Luís Patriota, na época, residente em Santa Cruz do Inharé na região do Trairí, onde advogava como rábula em todo o sertão. Era também era guarda-livros (contador), da família Ferreira de Souza. Papai cursou o ensino primário no Grupo Escolar Quintino Bocaiúva, de Santa Cruz, sempre sob os cuidados da irmã mais velha, em vista das dificuldades financeiras por que passavam seus pais. 


MUDANÇA PARA NATAL 


Em 1940, com apenas 9 anos, acompanhando de sua irmã Waldemira, que foi residir em Natal, ele fez o curso técnico da Escola de Aprendizes Artífices (atual Escola Técnica Federal) e buscou meios de vida, empregando-se na iniciativa privada, ocupando pequenos empregos, até que em 1949, ingressou no Exército, como soldado, para cumprir o serviço militar, tendo ali passado onze meses. Concluindo seu tempo de serviço militar, voltou à iniciativa privada, onde permaneceu trabalhando até 1951. Ele costumava lembrar que o ano de 1952 assinalou dois fatos de importância em sua vida: começou a publicar, no suplemento literário do jornal Diário de Natal, os seus primeiros trabalhos, ensaios e contos, e por indicação do jornalista Rivaldo Pinheiro, foi nomeado correspondente da agência jornalística Asapress, com sede em Santiago, Chile. 


NA IMPRENSA OFICIAL 


No mesmo ano, devido aos contatos quase diários que era obrigado a manter com o Governador do Estado, Sylvio Piza Pedroza, ganhou a simpatia deste, sendo por ele nomeado para o cargo de redator do jornal oficial A República, em que permaneceu até 1958, quando foi nomeado pelo governador Dinarte de Medeiros Mariz para o Fisco Estadual, como fiscal de rendas. Com Dinarte Mariz já trabalhava desde 1954, ocupando uma função na Diretoria da Rádio Nordeste de Natal. 


NA RÁDIO NORDESTE E POLÍTICA 


Fazendo parte da equipe fundadora da Rádio Nordeste de Natal, meu pai destacou-se por sua inteligência, dinamismo e alto espírito público e empreendedor. Na emissora de radiodifusão fez de tudo, de produtor a diretor, de publicitário a repórter. Terminou por assumir a direção da rádio, aonde trabalhou durante dez anos. Sua atuação na Rádio Nordeste, e em seguida no Correio do Povo, jornal pertencente ao Senador Dinarte Mariz, terminou conduzindo-o a política. Em 1962, com apenas um programa radiofônico de cinco minutos (A Crônica da Tarde), levado ao ar, de segunda a sábado, ao meio dia, tornou-se uma espécie de celebridade radiofônica em todo o Estado.

Em 1963 chegaria à Assembleia Legislativa, onde passou a se destacar na condição de parlamentar combativo e bastante festejado pelos órgãos de imprensa, que o consideravam um deputado sério e atuante, bastante promissor para os tempos ásperos de então, quando a política esteve radicalizada por Dinarte de Medeiros Mariz e Aluízio Alves.

No ano de 1966, atendendo a apelo de Dinarte Mariz, que não pretendia ver a legenda do MDB passar às mãos de seus adversários políticos no Estado, ele, juntamente com Odilon Ribeiro Coutinho, o Deputado Estadual Carvalho Neto, o jornalista Eugênio Neto e outros, disputaram as eleições de 1966 pelo referido partido. Grande parte dos seus eleitores, não aceitando a sua nova posição política, que parecia contrária aos interesses da corrente liderada pelo Senador Dinarte Mariz, omitiu-se de acompanhá-lo em sua luta. O resultado é que o deputado combativo, que parecia ser favorito entre os que disputavam as eleições pela legenda do MDB, não conseguiu se eleger por pequena margem de votos. Ficando na segunda suplência de Deputado Estadual, num partido que havia elegido uma pequena bancada, perdendo sua cadeira como parlamentar ativo. 


NA GRANDE IMPRENSA E COMÉRCIO 


Em 1967, o jornalista e empresário Rômulo Maiorana, amigo de juventude do meu pai e por essas horas chefe de um império de comunicação no Norte do país, diretor e proprietário do grupo de comunicação que edita o jornal O Liberal, importante órgão de imprensa de Belém do Pará, fez convite para ele fazer parte de sua equipe. Em Belém do Pará, ele destacou-se por seu eficiente trabalho como publicitário e jornalista. Em fins de 1968, ele já estava residindo em Belém, integrado à vida do jornal e da cidade, quando um grave acidente automobilístico, envolvendo minha mãe, Violeta Carvalho Patriota, obrigou-o a fazer mudanças em seus planos.

Diante da gravidade do estado de saúde de minha mãe, seriamente prejudicada pelo acidente, o jornalista regressou a Natal onde, através da ajuda do irmão João Patriota, de quem se tornaria sócio, instalou uma firma comercial e passou a negociar com medicamentos. A empresa, fundada no início de 1969 com a denominação de Drogaria Globo, ficou em suas mãos até 1978, quando o jornalismo o chamou de volta. Meu tio João Patriota, no entanto, prosseguiu no comércio por várias décadas e transformou o grupo farmacêutico Droguistas Potiguares e Drogaria Globo na maior rede de farmácias e distribuição de medicamentos do Rio Grande do Norte por várias décadas.  


DE VOLTA A VELHA CASA 


No início de 1978, por indicação do amigo Júlio Rosado, foi convidado pelo Governador Tarcísio Maia para dirigir o jornal A República, substituindo o jornalista Marcos Aurélio de Sá, o qual se empenhava a fundo, juntamente com outro jornalista, Marcelo Fernandes, em desenvolver a revista RN Econômico. No mesmo ano, Nilson Patriota assume a direção da Companhia Editora do Rio Grande do Norte – CERN, ali efetuando uma série de modificações. Acumula também o cargo de Secretário de Imprensa do Governo do Estado. Em 1982, ainda no Governo Lavoisier Maia, uma série de intrigas políticas, supostamente articuladas nas redações dos jornais concorrentes, mas orientadas, efetivamente, por elementos de dentro do próprio sistema governamental, provoca sua saída do jornal A República e da CERN. 


O POLÍTICO DEDICADO À SUA TERRA 


Durante o período em que foi Secretário do Governo Lavoisier Maia, Nilson Patriota conseguiu concretizar um sonho dos tempos de deputado. Em plena inauguração da então agência do Banco do Estado do Rio Grande do Norte – Bandern, em Touros o então governador Lavoisier Maia anunciou em seu discurso que estaria iniciando o asfaltamento da estrada RN – 064, ligando Natal a Touros, via Ceará-Mirim por insistência do secretário Nilson Patriota. Lavoisier falou assim: “Ou eu faço essa estrada, ou não tenho mais sossego, todo santo dia Nilson Patriota bate na porta do meu gabinete pedindo essa obra”. A RN-064, foi a primeira via asfáltica do município de Touros, devidamente inaugurada em dezembro 1982. Foi durante quase vinte anos a única ligação asfáltica entre Touros e a capital do Estado.

 Além do asfaltamento dessa importante estrada, Natal – Touros, que gerou muito desenvolvimento, Nilson Patriota conseguiu através do Governo do Estado, vários outros benefícios para seu município. Dezenas de distritos que ainda não tinham energia elétrica foram beneficiados pela eletrificação, através do seu empenho junto ao Governo do Estado, contando com a colaboração de Josemar França, então jovem e promissor líder político do município de então. Entre as instituições que ajudou a trazer para Touros, uma em particular muito lhe orgulhava. A Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE. Foi um trabalho que realizou junto com Celina Tinoco Cabral. Essa corporação ainda hoje, continua atendendo centenas de crianças carentes e deficientes daquele município. 


Junto com o então juiz da Comarca de Touros, Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres e o ex-prefeito José Joaquim do Nascimento, Nilson Patriota muito se empenhou pela inclusão do ensino de segundo grau no município de Touros, assim como diversas outras iniciativas na área rural, como perfurações de poços, cortes terras nos distritos agrícolas e tantos outros benefícios que ajudou a transformar o município de Touros nas décadas de 70/80. Durante esse período que esteve de volta a vida pública estadual, conseguiu fazer por sua terra natal tudo que foi possível. 


O ESCRITOR ACADÊMICO 


Entre os anos de 1978 e 1982, Nilson Patriota publicou duas obras literárias com repercussão no Estado e fora dele: o livro de crônicas Voo de Pássaro (impresso pela Companhia Editora do Rio Grande do Norte) e a obra Itajubá Esquecido editado pela Fundação José Augusto, com apoio do MEC-FUNARTE), escrita em 1977, como homenagem ao centenário do poeta. Em 1983, candidata-se à Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, visando eleger-se para a cadeira nº 7 (cuja patrona é a historiadora Isabel Gondim), vaga naquela ocasião com o súbito falecimento do jornalista e escritor Walter Wanderley. Foi eleito por unanimidade.


ATIVIDADE ACADÊMICA 


Durante longos anos exerceu o cargo de Primeiro Secretário da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, membro da Academia de História do Amazonas e da Academia de Letras e Artes do Nordeste, com sede no Recife – PE. Ele não tinha o tempo desejado para se dedicar, como gostaria, a atividade literária. Mesmo assim continuou colaborando na imprensa, embora esporadicamente, tendo concluído mais quatro livros. Um deles é uma homenagem à sua cidade ou mais propriamente à sua região – o litoral norte do Estado – e tem o título de Touros, Uma Cidade do Brasil.

Nesta obra o escritor aborda os quase quinhentos anos de história da região de Touros, abordando cada fase do seu desenvolvimento. A obra, de 400 páginas, acha-se prefaciada pelo historiador Olavo de Medeiros Filho, tem orelhas do historiador Enélio de Lima Petrovich, e foi publicada, no ano 2000. “Touros, uma Cidade do Brasil” é considerado pela crítica literária como uma das mais completas obras do Estado sobre a vida sócio, econômica e cultural de uma região, é na verdade um amplo tratado cultural de imensa importância não só para o município de Touros, mas para toda a região do Mato Grande ali historiada.

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