Sou professora, muito prazer!

NADJA LIRA Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Quando eu estava pronta para encarar o mundo, Deus, meu pai, chamou-me para dizer que eu viria à Terra para ser uma professora de Ensino Fundamental:

– “Você vai trabalhar muito, lidar com crianças pobres, oriundas de famílias problemáticas. Vai trabalhar em escolas pouco equipadas para o trabalho a ser desenvolvido, terá problemas com pais de alunos e vai ganhar pouco. A parte boa é que você será uma professora apaixonada pelo seu trabalho e se dará muito bem com seus alunos. O melhor é que além de ensinar-lhes a ler, escrever e contar, você vai formar cidadãos para vida. É um trabalho de muita responsabilidade, mas você dará conta e sentir-se-á feliz e realizada”.


Eu, na minha santa ignorância, respondi teimosamente e valendo-me do meu livre arbítrio:

“Não, pai. Não quero ser professora! Eu vou ser uma jornalista! Quero exercer essa profissão que muito admiro, porque o mundo não pode viver sem notícias. O jornalista também é um transformador da sociedade. Ele é o profissional que observa os acontecimentos, pesquisa, coleta informações para transformá-las em notícias de interesse da população mundial. Além disso, o jornalista, assim como um professor é um idealizador, que acredita mudar o mundo a partir do seu trabalho. Tenho certeza de que serei uma boa jornalista, já que gosto de garimpar letras“.

Diante de argumentos tão fortes e também para não desestimular uma futura profissional prestes a fazer parte do mundo do trabalho, meu Pai deu-me sua bênção e disse:

“Vai ser aquilo que quiseres. Apenas faça bem qualquer que seja a sua escolha e seja feliz!”

Eu, portanto, vim para o mundo com a certeza de que encontraria na profissão de jornalista, o prazer máximo da profissão e a realização que todo profissional busca dentro daquilo que se propõe a fazer no mundo do trabalho. E graças as bênçãos do meu Pai eu consegui. Considero-me uma jornalista realizada com o trabalho desempenhado. Cada uma das pautas que cumpri, ensinou-me uma grande lição e cada prêmio que conquistei com o meu trabalho é a coroação do esforço empenhado na sua execução.

Mas, um belo dia, decidi retornar aos bancos escolares para retomar meus estudos e assim, matriculei-me justamente em um curso de Magistério. Não pretendia estudar mais do que seis meses. Porém, para minha surpresa, encantei-me com os conteúdos programáticos e tão logo conclui o Magistério prestei vestibular para Pedagogia, curso no qual fui a aluna laureada.

Concluído o curso de Pedagogia submeti-me a um concurso no âmbito municipal, para concorrer a uma vaga de professora no Ensino Fundamental. Fui aprovada e encaminhada para uma escola na Zona Norte da capital, onde me deparei com alunos de 4º ano, que mal sabiam ler ou escrever, uma vez que estes hábitos não faziam parte de suas vidas em família.

Transformar aquelas crianças em leitores e escritores foi o desafio ao qual me propus ao conhecê-los. Desafio este, que se transformou na razão de eu me empenhar cada vez mais nos estudos, a fim de descobrir como atingir meu objetivo. Fui fazendo meu trabalho obedecendo ao planejamento pedagógico realizado na escola, mas de forma intuitiva fui também descobrindo como despertar o interesse das crianças pela leitura e pela escrita.

Como resultado desta insistência, a turma acabou produzindo um livro de poesias e eu descobri que é possível formar crianças do Ensino Fundamental em leitores e escritores – o que venho fazendo desde o ano de 2004, quando ingressei na rede municipal de ensino.

Não deixei de praticar o jornalismo, que me dá muito prazer pessoal, mas descobri, que no momento em que o meu Pai do Céu permitiu que eu escolhesse o caminho do jornalismo, Ele estava apenas contribuindo para que eu me tornasse uma professora melhor. O caminho profissional que escolhi trilhar contrariando a preferência Dele, tinha uma razão: preparar-me para ser a professora que sou.

Muitas pessoas dizem que não entendem como posso apreciar um trabalho desvalorizado, onde se trabalha muito e ganha-se pouco, quando eu poderia ter escolhido outro caminho profissional, como a área judicial, por exemplo, uma das que pagam os melhores salários do país.

Reconheço que o salário de uma professora não é lá grande coisa, mas eu vivo bem com aquilo que ganho. Especialmente porque o meu salário é ganho com muita honestidade. Não tenho porque me envergonhar dos meus proventos. Envergonho-me profundamente dos políticos do meu país, responsáveis pelo pagamento e pela desvalorização a que submetem os profissionais da Educação Nacional.

A eles rendo o meu mais profundo desprezo, porque, como muito bem disse Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Pena que nossos políticos não entendem as palavras de Lobato. Também, uma boa parte deles não teve o privilégio de ter uma professora como eu, que além de estimular meus alunos à leitura e à escrita, estimula-os também ao estudo da Filosofia, seguindo os passos da minha mestra, Irmã Aurélia Angelo, idealizadora do Projeto de Educação Filosófica para Crianças, que tem produzido resultados esplêndidos nas salas onde ensino.

Dizer que professor é um coitado, que come mal, que se veste mal, que não compra livros e não estuda porque o salário é insuficiente, não se aplica a mim. Como já frisei, reconheço que o salário do professor poderia e deveria ser melhor. É claro que não sou satisfeita com aquilo que ganho. Porém, o meu salário não me faz sentir uma pobre miserável, que precisa receber uma cesta básica de alguém.

Eu frequento os melhores restaurantes da minha cidade, visto-me bem, vou ao cinema regularmente, estudo idiomas, faço os cursos do meu interesse, leio jornais e revistas para manter-me informada, viajo tantas vezes quantas for do meu interesse ao longo do ano, desde que não prejudique o meu trabalho, compro livros mais do que posso ler e não me comporto como uma coitadinha.

Sou consciente da importância do trabalho que realizo e tomo emprestada as palavras da Santa Madre Teresa de Calcutá, para explicar como me sinto em relação ao meu trabalho. Ela dizia o seguinte; “Sei que meu trabalho é uma pequena gota d´água no oceano, mas sem ele o oceano seria bem menor”.

Portanto, sou professora com muito orgulho e sou muito feliz com meu trabalho, afinal, foi Deus quem me escolheu para tal.

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