SONHOS DE UMA NOITE DE OUTONO-INVERNO

Cefas Carvalho – Jornalista e escritor

Sim, esta é uma carta de amor para você, escrita primeiramente à mão, com uma caneta bic de cor azul, e depois digitada em word e exaustivamente revisada, para enfim, ser impressa em papel amarelo (fiz questão de usar uma cor que não o branco usual), dobrada com extremo cuidado e colocada em um envelope azul marinho, de tonalidade parecida com os céus de Van Gogh. Nada de e-mails, mensagens por aplicativos ou ferramentas assemelhadas. A carta lhe será entregue em mãos ainda hoje, dia em que termina o nosso confinamento e que poderemos, enfim, nos conhecer pessoalmente, no encontro marcado na orla.

Foram quantos dias de isolamento social? 532? Três meses? Cinco dias? Ou tudo não passou de um sonho de uma noite de verão? De verão, primavera, outono e inverno?

Outono: 20 de março de 2020, às 00h50. Inverno: 20 de junho de 2020, às 18h44.

Números. E só. Que diferença faz a mudança das estações quando se está confinado, preso em casa para que um vírus mortal e desconhecido não nos espreite?

Por mais de uma vez você me disse, ou melhor, me escreveu, que não conseguia sonhar durante este isolamento. Penso o contrário: e se tudo isso não passou de um sonho? Nosso confinamento sem mim, as mortes, os sepultamentos solitários, as máscaras, as proteções, o álcool em gel… Talvez tudo isso não tenha sido mais que nossa imaginação e hoje, quando você abrir o envelope azul e ler o conteúdo desta carta, me pergunte de onde tirei tudo isso, de que ficção científica reproduzi a ideia de bilhões de pessoas trancadas em suas casas por causa de um vírus sem cura?

E se esse confinamento foi necessário para que o Mundo se ajustasse em sua dor e suas contradições? E se foi necessária essa conjuração para que nos conhecêssemos? Porventura teríamos nos conhecido não fosse essa pandemia, esse confinamento, esse caos? Mas como mensurar as perdas, as dores? Como gerir as alegrias pessoais – como termos nos conhecido – com as tragédias coletivas?

De qualquer maneira esta é uma carta de amor para você, escrita em papel – amarelo em tonalidade de Gauguin – que antecede o que tenho para dizer pessoalmente. Se é que tudo isto não é um sonho, o encontro, o papel, a carta. Você realmente não conseguiu sonhar durante o confinamento? Talvez tudo isso, nós, o mundo, o mar, não passe de um sonho. Dormir. Talvez sonhar, então.

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