Saudade: a saga do veranista potiguar


Por Haroldo Varela


A coisa mudou.  Nosso  veraneio era  bem mais simples (e mais barato). A casa era mobiliada com móveis  de       segunda mão,  geladeira, fogão, panela, talheres, copos ….era uma verdadeira colcha de retalhos, e o   enxoval ? Tudo roupa usada. Nem se falava em perigo, caco de vidro no muro nos garantia a segurança. 

Os dias começavam cedo,  e as farras não  passavam do fim da tarde.  Papos na varanda, jogo de baralho….e cama. Café da manhã  farto, queijos regionais, tapioca, cuscuz, ovo, bolo… banana, laranja, manga,  abacaxi, as frutas faziam parte da dieta na hora do lanche.

Muito banho de mar, e Hipoglós  era a nossa proteção  contra o sol. Bicho de pé era sinônimo de um veraneio de sucesso. 

Foto: Acervo Alexandre Gurgel

Na hora  da farra, menino não podia encostar no tira gosto. Era só para quem tava bebendo.  Vinho Sangue de Boi com gelo, Pitú, cerveja em  garrafa (só havia duas marcas: Antactica e Brahma), Rum Monttila, faziam  a alegria dos bebuns. Vez por outra alguém esnobava com uma garrafa de Whisky Balantines. Refrigerante só  nos dias de festa e nos finais de semana. O negócio  era refresco.

Nada de tecnologia. A imagem da tela da TV era péssima, e acompanhar alguma novela era um martírio. Para falar ao telefone,  tínhamos que depender do Posto Telefônico da Telern local,  bem como do horário de funcionamento e do humor da telefonista e tamanho da fila.

Ah!…como faltava energia. Gelo era uma raridade, não  podia desperdiçar. A música era de boa qualidade,  sempre tinha alguém  que arranhava um violão, e o coral de desafinados estava sempre presente, tinha até  a back voice quando as músicas eram de Vinicius, mas Andança  era a campeã. Todos sabiam um pedaço  da música. 

Chuveiro com água  fria, em um único banheiro da casa. Nem lembro como as portas aguentavam tantas batidas…  toc ,toc, toc…Tá  fazendo o quê, abra logo essa porta, tá  demorando muito…

“Eita, a água  acabou e a bomba está  quebrada”, ouvia-se um grito quase de terror.

Redes, lençóis, toalhas eram quase comunitária. Rolos de filmes eram gastos para registrar as melhores cenas. Nada de retoques ou fotoshop. A ansiedade  para ver as fotos era grande, pois só  revelava quando todo o filme estava  usado, isso quando um desavisado não  abria a câmera. antes de rebobinar o filme, e perdia todas as fotos. 

Quem não viveu tudo isso, estranha e pergunta: “se éramos felizes?”

Claro que sim. Éramos simples.

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