Santidades do pau oco…

   

                              

 Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Eu estou enjoado de ver muita santidade no já enfadado facebook. E no tal do infernal zap zap, nem se fala. É oração que não acaba mais. Todo dia digo que não tenho tempo, mas mesmo assim me mandam até correntes. Pode? Coisas de amigos, dizem que os inimigos só nos perturbam as escondidas. A Argentina perde feio em religiosidade para o nosso Brasil. O Papa Francisco, nem sonha, que aqui as mensagens bíblicas são espalhadas, queremos ou não, aos montes, de fazer inveja aos budistas e kardecistas do mundo todo. Quase todo mundo é um santinho ou santinha na internet, só que do pau oco…

Outro dia, soube de um amigo, que um sujeito do zap zap, grande divulgador de mensagens bíblicas, havia batido no pai e o trágico caso teria até parado em delegacia. Hoje, vejo muita santidade humana exposta e divulgada nas mídias. Quase todas as religiões com seus marketings e promessas de um céu para o futuro e o Pix para o presente. Muita santidade me faz lembrar da história que minha mãe me contava. Dona Estela era uma católica fervorosa, mas não fanática e agressiva com outras crenças. A história da santinha do pau oco era a de uma mulher que mais frequentava as missas na Igreja de São João Batista, em Pendências/RN, comungando várias vezes ao dia. Não perdia uma missa. Corria ao primeiro toque do velho sino, tocado pelo velho ‘seu’ Serinho. A dita confessava-se de abusar o então saudoso padre Zé Luiz. Só que quando a mesma chegava em casa e notava que uma das galinhas de suas vizinhas estava em seu terreiro, diabolicamente as despenava feito uma diaba chupando manga. As pobres das galinhas, sangrando à beira da morte, eram jogadas com brutalidade de retorno as suas casas, com palavras não tão santificadas: “Taí de volta suas galinhas do diabo, suas raparigas. Façam galinheiros para essas desgraças que se eu pegar elas aqui eu faço pior ainda”.

Segundo minha genitora, a qual pouco estudara e não entendia patavina de Teologia, não adiantava parecer ser santo do tipo ‘pau oco’, como eram conhecidas as antigas imagens de madeiras furadas, as quais acobertavam por dentro os furtos dos minérios preciosos em seu interior. Eram os santos por fora e os roubos por dentro! É óbvio que existe muito santo do pau oco na atualidade. Nem querem saber meu nome e logo me perguntam de qual religião eu pertenço. Ficam espantados quando digo que, graças a Deus, não tenho nenhuma. Não sigo nada e meus santos vão de Chico Xavier ao Padre João Maria.

Atualmente, ninguém quer desagradar a mãe do bispo. Quase todos os automóveis são propriedades de Jesus, segundo os adesivos colados em seus vidros. Carona é coisa rara entre os autodenominados ‘santos’, os quais irão para o céu segundo suas vontades. Querem entrar no paraíso a todo custo e associado a qualquer seita da moda… Santos e Santas surgiram graças a mídia: João de Deus; Pastora Flordelis; Padre Sicrano; Pai de Santo Beltrano e fulano de tal da Igreja arrecadadora de dinheiro fácil…

Eu, particularmente e raramente, entro nos templos religiosos durante o ano. Centenas de vezes, vou as feiras e mercados. Ouvir e conversar com o povo bom, honesto, inocente e diga-se, afastados das maldades praticadas por aqueles que tanto estudaram e se locupletaram de conceitos filosóficos e religiosos. Leio de tudo, mas nem tudo me influencia fácil. Sou do tempo ainda de reler os meus santos literários: Herman Hesse, Luther King, Chico Xavier e Bezerra de Menezes, entre outros já devidamente santificados em minha biblioteca. Essa abriga com parcimônia e alegria o santo Buda ao lado do santo Lutero, sem correr perigo do fogo da famigerada Inquisição passada e presente.

Tenho que concordar plenamente com o que disse o poeta gaúcho Mário Quintana (1906-1994): “Nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”. Não me chegou ainda a hora de inventar histórias, por enquanto. Tenho muita coisa ainda anotada e rascunhada que é sempre retirada dos meus velhos cadernos. Tempos vividos que sempre irei relatar, embora sei que cause espanto em minhas duas filhas e grande dúvida em minha neta, Maria Estela, a qual é muito curiosa e esperta para seus oito anos: “Vô, isso tudo que o senhor está digitando é verdade ou mentirinha?”.

Existem até lugares místicos da moda. Principalmente, na Europa. Só eu mesmo para ir à cidade santa do Juazeiro do Norte, no Ceará, para ver um povo ‘feio’, queimado do sol, pobre e nordestino, como eu. Povo santo e solidário que me oferece até o que está comendo. Prefiro ver minha cara no meu povo, com todo respeito aos europeus. Deixei de ir a Santiago de Compostela e fui a Canudos na Bahia e ao Caldeirão no Ceará. Fui a Monte Santo, na Bahia e ao Monte do Galo, aqui no RN. Primeiro o meu pirão, depois vou comer os dos outros. Sou bairrista e tradicionalista ao extremo. Quem não conhece o que é seu para que diabo vai gastar dinheiro para ver coisa longe e fora de nossa realidade? Às vezes, só para postar no facebook e Instagram, não é?

Santuário do Lima, em Patu/RN – Foto: Mossoró Hoje

Também já visitei o santuário do Lima, em Patu/RN e do Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás. Em Pernambuco, espiei a antiguíssima Pedra Bonita, tão recomendada pelo santo Ariano Suassuna. Santo dos tradicionalistas nordestinos que não são bestas para irem a Disneylândia. Nossa cultura é o nosso Brasil que é muito místico e santo, como já me dizia o santo europeu naturalizado brasileiro, saudoso Dom Pedro Casaldáliga. O que existe entre nós é preconceito com o que é nosso. A Umbanda e o Candomblé cada dia mais atacado em pleno tempos de mídia e intolerância de todos os tipos. E a santidade do pau oco, que vem desde a traficância antiga do ouro, ainda imperando.

Nosso turismo religioso, em parte, é muito culpado em não divulgar e incentivar nossos turistas a conhecerem nossa rica religiosidade popular. Meu roteiro é sempre feito por mim mesmo, sem guia, quando viajo. Antes dessa desgraceira da pandemia, fui percorrer as cidades antigas do Estado de Sergipe. Região de Laranjeiras. Cada local pisado era um santuário, de igrejas, casarões, ruas em pedras, mercados e feiras. Os grupos folclóricos, com seus mestres e mestras. Observei que o sincretismo religioso é respeitado em sua essência. Além de seus artesanatos afros belíssimos. Lembrei de minhas andanças pela Bahia e o Maranhão.

Região de Laranjeira s em Sergipe

Semana passada, vieram em minha casa um grupo de senhoras, aquelas tiradeiras de terços e ladainhas católicas, para rezarem a novena de Nossa Senhora do Ó, padroeira de nossa Nísia Floresta. Foram bem recebidas. Espero também receber um grupo kardecista para a leitura dos livros de Alan Kardec. Que bom se viesse os budistas, com suas prédicas da paz e do amor. Aqui recebo tudo que lute pela paz e pela vida! A paz acima de tudo!

Acredito, que esse tal inferno dantesco é aqui na terra das maldades e que no céu que pintam nos livros, têm um espaço reservado para os ‘’ateus, pois todos que conheci, foram os maiores solidários e amigos que vi até hoje. De causar inveja nos que iam todos os domingos as missas do padre Eymard L’ Erastre Monteiro, da igrejinha da Policlínica, do bairro do Alecrim. E louvado seja, aquele que defende e respeita a sua terra, os costumes e os rituais religiosos diferentes dos nossos. Aquele que ama as tradições de seu povo! Louvado seja, quem conhece seu chão e dele se orgulha. Também que sejam louvados, vocês, que me aturam com paciência e amizade todos os domingos. Dia abençoado que não pede cachimbo, só pede respeito e paz!

                       Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

  

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