Sabores da Memória

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Meu amigo, o folclorista Gutenberg Costa, profundo conhecedor das atividades profanas da cidade do Natal, sejam locais ou pessoas, eventos e acontecidos, escreveu uma obra que já é referência: ‘Breviário Etílico, Gastronômico e Sentimental da Cidade do Natal’. Nele há o registro dos locais frequentados pela boemia nos últimos anos..

Inspirado por isso e dentro dos limites do meu conhecimento resolvi fazer algumas anotações a respeito das lanchonetes, das populares às sofisticadas na Natal da minha juventude. Pra quem torce o nariz advirto: umas são complementos das outras, sendo às vezes esses locais – alguns até chamados de morre-em-pé, o final das farras dos notívagos ou a parada dos jovens que saiam do trabalho para assistir aulas no colégio Atheneu.

Sem obedecer à ordem nem cronologia começo pelo Caldo de Cana Orós, ali no Beco da antiga Casa Rio, da Avenida Rio Branco. Caldo de cana delicioso, com bauru feito na própria torradeira, de modo que o ovo frito já saia quadradinho, no formato do pão do sanduíche. Local de fim de noite, de parada na volta pra casa.

No mesmo beco, próximo da esquina, instalou-se o ‘Cachorro-Quente do Souza’, de Impressionante frequência. O cachorro-quente vinha acrescido de azeite, mostarda, queijo ralado, ervilhas. Souza vendia um suco artificial de laranja chamado, salvo engano, Tanja. Nas sextas-feiras rolava um vinho de festa, em garrafões. Com o sucesso ele foi se sofisticando, acrescentando fatias de pernil de porco aos sandubas. Seu irmão, Hermínio, também vendia cachorros-quentes no Alecrim.

Para mim é Inesquecível a Espaguetelândia, ali na subida da Avenida Rio Branco. Não lembro macarronada tão gostosa. Ou talvez fosse a fome. O dia amanhecendo – outros tempos, com certeza – e a gente parando na volta do Hippie Drive In para reabastecer as energias.

O Dia e Noite não pode ficar de fora, absolutamente. Na rua João Pessoa, ponto de encontro dos rapazes que voltavam das festas. O garçom era Gasolina, esperto que só, conhecia a todos. Grandes espelhos nas paredes, quebrados durante uma briga na manhã de quarta-feira de cinzas de um desses carnavais. As brigas desse tempo não envolviam armas, a não ser os punhos e os pontapés.

Rua João Pessoa Foto: Genealogia e História

Praticamente em frente ao Cinema Rex, abriram uma lanchonete estreita chamada o ‘Bom Lanche‘. Foi a primeira vez que comi uma torrada e, com certeza, a primeira torrada a gente nunca esquece. Antes os sanduíches eram de pão francês com queijo do sertão ou um bife, aquecido na chapa. E cartola. E vitamina de banana. Ou ainda uma mistura de frutas que chamavam miscelânea. O Bom Lanche foi uma mudança de padrões. Depois veio o Bob’s. O Ki-show foi uma proposta avançada de casa de lanches, ambos na rua João pessoa, com uma grande variedade de opções.

O Chapinha era ali por trás da parada metropolitana, no centro da cidade. O seu proprietário chamava a todos de chapinha, daí o nome. Tão popular quanto frequentado. Eu vinha do meu trabalho e ia lanchar para dali ir para o curso noturno. Chapinha preparava o que pediam, ou seja, quase qualquer coisa. Bolacha cream-craque com pedaços de mortadela e ovos. Abacatada. Pão com manteiga. Leite batido com Nescau e gelo. Tapiocas com ovo frito. Enfim, o que não tivesse no cardápio, Chapinha inventava.

Meio marginal nisso tudo havia o homem da passarinha, na rua Almino Afonso, no bairro da Ribeira, região da zona do meretrício. Seu cardápio era limitado: pedaços de passarinha fritos ali mesmo, colocados dentro de um pão francês. Pra quem vinha daqueles cabarés e havia sobrevivido, o prato era um manjar. Muitos anos depois entrei em um colégio ali na Avenida 9, no bairro do Alecrim, e achei familiar a cara do porteiro. Disse a ele que achava que o conhecia. Ao sair, ele me chamou de lado e perguntou baixinho: “- o senhor ia à zona?”  Sim, respondi. ‘Há muito tempo”. Ele confirmou, olhando para os lados: “- Eu vendia passarinha…

Depois a coisa virou legião. As calçadas ocupadas por uma variedade enorme de opções. Churrasquinho de gato em espetos de arame. Churros. Crepes. Sei não, mas sou mais as coisas de antanho (essa palavra é de antanho). Pitombas, roletes de cana, laranjas descascadas numa maquininha, doce de coco, que o vendedor anunciava: “geléééé de coco…”! O homem do cuscuz não fazia por menos e gritava esticando ao máximo a primeira sílaba: “cúúúúúúús-cuz!”

O munguzá também tinha seu pregão: “tem coco e tá quente!” Algodão doce (sem cor e sem sacos plásticos), arroz doce, e uma mistura espetacular: garrafas cheias de líquidos coloridos que o vendedor misturava em um copo repleto de gelo raspado de uma barra. Isso sem falar nos cachorros quentes vendidos a retalho. Explico para os não iniciados: o pão francês era partido em vários pedaços de vários preços. O pão inteiro, meio pão, um quarto de pão, o bico. Isso cortado com uma faca amoladíssima. O nosso poder aquisitivo determinava o pedaço de cachorro quente a que faríamos jus. Acreditem: era uma delícia.

Toda bodega vendia algum tipo de refresco, em garrafinhas ou em um litro que o bodegueiro servia em um copo. Uma ocasião, vindo da maternidade, parei em uma mercearia e vi o homem vendendo refresco de maracujá. Não resisti e pedi um copo. Foi triste, como diz meu neto. Depois de encher o copo o homem levou o litro à boca e tomou a sobra em belas goladas.

Acho que voltarei ao assunto. Muita gente tá ficando de fora. O chá mate com limão, os sorvetes artesanais, os sacolés, Kanapu, Din-din, picolés Big Milk, pirulitos, puxa-puxa, tapiocas e ginga na Redinha, cocadas, os barcos coloridos da Festa de Santos Reis, um trequinho de goma chamado pecado maneiro, maravilhoso com café de bode, sequilho, alfenins, grude.

Eita, coisa boa, esse cheirinho gostoso de saudade…

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