Repassemos nossas memórias…

Eduardo Varela de Góis (BUÁ)

Quem viveu sua infância/adolescência nos anos 60/70, em Natal muito tem o que recordar.

Natal, nesse período, era quase uma província. Poucos habitantes (200 mil?), pouca coisa a fazer. Mas a vida tranquila fluía a mil… E a brisa sempre a soprar…

Haviam pés de fícus na Avenida Deodoro, em seus canteiros centrais. Quem não os subiu a brincar?… Quem não sentiu o ardor dos lacerdinhas nos olhos?…

As ruas eram calçadas com paralelepípedos, fora às muitas ainda em areia… Os colégios mais chiques eram o CIC, o Marista, Salesiano e a Escola Doméstica… Mais popular: O Atheneu… Ainda existiam o Sete de Setembro, Colégio Batista, Instituto Brasil, (de Dona Carmem Pedrosa, que ficava na rua José Pinto que creio ser a rua mais curta de Natal). Os colégios públicos eram bons. Além do Atheneu, havia o Padre Miguelinho, a Escola Municipal, o Churchill etc…

Quem não se lembra das Jogos Estudantis no “Sílvio Pedrosa”, com “guerras” de bagaços de laranjas, jogados de um lado ao outro da quadra, interrompendo o jogo. E as torcidas gritando alto: “e é o Sete, e é o Sete, e é o Sete”… “Atheneu, Atheneu, Atheneu”… “Marista, Marista, Marista”… O pessoal, de tão lotado, participavam dos jogos, pendurado nas estruturas metálicas da quadra. As disputas finais, quase sempre entre o Marista e Atheneu.

Depois veio o “Palácio dos Esportes”, hoje “Djalma Maranhão” (homenagem justa!). Muita gente ia lá apenas para “paquerar”. Ficava circulando, na passagem superior, ou parado assistindo as garotas a desfilar.

Quem teve amigos Carica, Tico, Caboré, Piúba, Macaxeira, Olho-de-boi, Lampião, Vovô, Lula Cagada, Ivo Cabeção, Ruy Cuscuz, entre outros?

Quem saia à noite para olhar as vitrines no comércio do centro da cidade? E o “footing”, também no centro, no período das festas natalinas, quando o comércio abria à noite. As lojas como a , Formosa Síria, Nações Unidas, Seta, Casa Rio, Tic-Tac, Galeria Olímpio, Cantina Lettieri, Casa Rubi, que ficavam, quase todas, na Avenida Rio Branco.

Quem não assistiu filmes nos cinemas Rio Grande, Rex, Nordeste, Poti, São Luiz, São Pedro, Olde, Panorama. As matinês nos domingos à tarde, no Rio Grande, enorme fila! Filmes com Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Cyl Farney, Eliana, Ankito, José Lewgoy, Wilson Grey (o eterno bandido) e tantos outros. E a estreia de “Roberto Carlos em ritmo de aventura”? E os seriados do cinema Rex, todos os domingo, pela manhã, das 9 às 11 horas, além de filmes, sempre velhos, cujas fitas quase sempre se partiam interrompendo a projeção: “Quero meu dinheiro, quero meu dinheiro, quero meu dinheiro”, gritavam os espectadores. Quando o mocinho vinha cavalgando para libertar a mocinha, se ouvia o barulho estrondoso do bater dos pés, no chão.

E as vendas e trocas de revistas usadas, selos, figurinhas de jogador em frente ao cinema Rex, durante esses seriados? Buck Rogers, Hopalong Cassidy, Capitão Marvel, Zorro, Búfalo Bill, Rin-Tin-Tin, Kid Colt, Tarzan. Os trailers – “Esse eu venho”, “De besta” “Traz a mãe”, além da Sessão Coruja às 22h, no cinema Rio Grande, todas às sextas.

Nas férias, praia todos os dias, manhã e tarde, até o sol se pôr. Final de férias, todos praticamente “negros”, pelo bronzeado do sol escaldante. Havia os cavaletes com prancha de madeira, parecendo tábua de passar roupas. Os mais afortunados, desfilavam em em prancha de isopor. Tinha que se usar camiseta para não queimar a barriga. Pegar marola, onda, sem prancha.

Points da época: praia dos Artistas e Areia Preta. Pegar siri na praia do Forte, caranguejo no mangue da Redinha, latas de querosene cheias do crustáceo. Comer siri preparado por dona Maria. Roubar galinha no sábado de aleluia, depois comê-la, guisada, à espreita do dono da “penada”.

Micaremes, no América, no sábado de aleluia. E, também, Reveillons na passagem do ano. Tentar atravessar o rio Potengi, a nado. Alugar um barco para atravessar o mesmo, até a Redinha e voltar para casa, à tardinha, já escurecendo. Deixar o barco à deriva sem devolver ao dono. Mergulhar do Cais da Tavares de Lira.

Festas da padroeira, de Santos Reis e de fim de ano, tendo como animação o Parque São Luiz, “Diversões Imperador”, na Praça André de Albuquerque, com o passeio e paqueras pela calçada. O locutor do parque abre o vozeirão na ‘boca de ferro’ na difusora do parque: “De Chiquinho para Maria, com muito amor, segue esta linda página musical”. Dedadas nas ‘piniqueiras’, recebendo tapas e carreiras das mesmas. Galeria de Artes e Biblioteca Pública na Praça André de Albuquerque.

E os palcos em vários pontos da cidade, durante as festas de Natal e Ano Novo, com apresentações de Pastoris, Fandangos, Cheganças, Bumbas-meu-Boi, todas às noites. O prefeito era Djalma Maranhão.

Bares diversos: Briza del Mare, Palhoça, Kixou, Escondidinho, Delícia, Iara Bar, Tenda do Cigano, O Jangadeiro, Chapéu Virado, Castelinho, Pitombeira, Tamarineira, Braseiro, Rei do Caldo, Confeitaria Atheneu (ainda firme!), Castanhola, Cascalhinho, Stop, Beer house, Granada Bar e tantos outros…

Restaurantes: Xique-Xique, Carne de Sol do Marinho, Carne Assada do Lira, Galinha da Mãe, Peixada da Comadre (até hoje!). Lanchonetes: Casa da Maçã, Bob’s (o bom lanche, onde tinha até sanduíche de ostra!), Orós, Caldo de cana do Guaracy Picado, O Dia e Noite. Os cabarés de Maria Boa, Arpege. Quem não lembra de Zefinha, empregada do coronel Osvaldo Monte que fazia a festa da garotada?

Chupar poli, rolete de cana, Bigmilk. Garçons como Gasolina, Perneta, Bem-te-vi e outros. Carnaval no América, Aero Club, Assen, ABC. Bailes no Alecrim Clube, Quintas Clube, Racing, Palmeiras, Camana, Albatroz. Festa do Caju, no Redinha Clube. Matinês, aos domingo à tarde, no ABC (atualmente é o CCAB, em Petrópolis.) Depois no Aero Club, festas com os conjuntos musicais, Impacto 5, The Jetson’s (o empresário era Carlos Alberto, que chegou a ser senador da República), The Phuntos, Os Vândalos, entre outros.

Festivais de Música, no Teatro Alberto Maranhão, no Palácio dos Esportes. “Ah deixa a rosa aparecer, não maltrates o botão”, Mirabô e Oldaires. As serenatas ou serestas nos finais de semana.

Roberto “Vovô”, no final de uma dessas, indo para casa, com um tambor de lixo, feito de pneu de caminhão, no banco traseiro de seu fusca.“Cuscus da Mata!”. Guerra de cuscus após as serenatas. A discoteca do América. “The Saturday Night Fevers”.

Boates das faculdades de Medicina, Direito, Odontologia, Engenharia, ao som da música francesa, “Je t’aime, moi non plus”.

O Feijão Verde na avenida 15, nos finais de noite. Os ‘assustados’, coma bebida Cuba Libre (Montilla, Coca-Cola e limão). Entrar de penetra nos nessas festinhas familiares. Andar pelas ruas da cidade à noite, não importando em que bairro e a que hora.

E as brincadeiras? Caçar calango pelas ruas de Tirol, jogar pelada no meio das ruas; fazer e usar baladeira; brincar de biloca, cabra-cega, bondinho, esconde-esconde. Guerra de carrapateira nos morros do Tirol atravessando até a Orla Costeira.

Fazer e andar de carro de cocão, rolimã, soltar coruja, pião. Percorrer a rua 2 de Novembro, na companhia de Silvia (Nenê), Beta, Betinha, Helena, Lourdinha. ”Que triste serenata foi aquela, que eu perdi meu violão”.

O bar de Seu Geraldo, antes da matinê do carnaval, no América. Os shows e quermesses na Lagoa Manoel Felipe, concurso para quem dançasse melhor o “Rela-bucho”. Gozações e brincadeiras de Petit e Homem Mau. Os porres nos carnavais, no bar de dona Ana, com meiota de cana (era a lisura!).

Sorvete enrolado em papel da Sorveteria Big Bom e Sorveteria Oásis, ao lado do Cinema Nordeste.

Programas de Rádios AM, como Bar da Noite (com Carlos Alberto, antes empresário do conjunto The Jetson’s), o programa de Big Terto (não lembro o nome). Parada de sucessos da semana (primeiro lugar: ‘Quero que vá tudo pro inferno ou Help’).

Programas de auditório nos cinemas Poti, Rio Grande e Rex. Os “recursos”, os “coqueiros”, MPG (primeiro motel a se entrar de carro), ‘boate calango’, a “Transamazônica”, na praia do Forte.

O boliche na praia do Meio. Os desfile na praia dos Artistas nos finais de semana, à tarde. Galeria do Povo, de Dunga, na Praia dos Artistas. O Caravela Bar (saudades!).

E o surgimento das boates: Hippie Drive-In (a primeira), em seguida, vieram, as boates Ele/Ela, Piri-Piri, todas na estrada para Ponta Negra (hoje, avenida Roberto Freire). Outras no centro: La Prison, Papillon, Libertée.

Arquivo: Curiozzzo.com

Quem não frequentou o Cinema de Artes? Primeiro no cinema Rio Grande, nos domingos pela manhã e, depois, no Centro de Turismo?

”A noite do espantalho”, com Alceu Valença. Blocos de “elite”: Sambakí, Lunik, Jardim da Infância, Kings, Apaches, Bakulejo, Puxa-Saco, Meninões, Ressaka, Saca-Rolhas, kalifas, Mundiça. Carnavais no América. “E aquela máscara negra que esconde o seu rosto”…E a vida se esvaindo e se indo… E a gente resistindo; enquanto pode…

Quantas saudades que me invade.

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