Redações, como qualquer outro ambiente

Por PAULO NOGUEIRA

Redações sempre tiveram de tudo: heróis e covardes, religiosos e ateus, nobres e canalhas, trabalhadores e preguiçosos, e toda a vasta gama que existe entre os opostos em tudo aquilo. Hoje, no entanto, há com certeza menos alcoólatras, por força da modernização da mídia como negócio, em parte, mas também pela lembrança dolorosa de gente que se matou pela bebida, como Tarso de Castro e tantos outros. A fumaça nervosa, oriunda de múltiplos cigarros nas bocas de homens e (poucas) mulheres, era outra marca sagrada do apogeu da Era do Papel.

Hoje é possível dizer que a Era Digital chegou, quase despercebida, às redações em meados dos anos 80, quando os computadores substituíram as máquinas de escrever. Não foi uma transição fácil para mim, lembro, mesmo não tendo ainda 30 anos. Era editor, e estava acostumado a mexer nos textos das laudas com a caneta.

O quanto esse mundo é antigo me foi lembrado outro dia numa conversa com Pedro, meu filho, 22 anos. Falei em lauda e ele perguntou o que era. Transições sempre são difíceis. Durante anos ouvi dizer que alguns editorialistas do Estadão escreviam à mão, as costas convictamente voltadas para as Olivettis que chegaram e partiram das redações. Nunca soube se era verdade ou não. Se era verdade, talvez este conservadorismo pétreo explique parte dos primorosos editoriais que marcaram o Estadão, uma defesa inteligente e determinada do capitalismo. A imagem definitiva que tenho destes tempos é uma foto em branco e preto de meu pai, Continental sem filtro na boca, gravata afrouxada e sem paletó, escrevendo em sua Underwood na redação.

Toda mudança dá e tira. O computador tirou, nas redações, o emprego dos valorosos datilógrafos, os mestres do teclado que passavam a limpo os textos alterados com caneta antes que estes baixassem à gráfica. O trabalho deles era duro, sob intensa pressão, em horários avançados na madrugada quando se tratava de revista semanal de informações.

Presenciei um episódio que jamais esqueceria. Um datilógrafo, no afã de entregar antes que fosse tarde demais um texto, escreveu “homen”, no título de uma nota sobre o prêmio de “Homem do Ano”, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Ele era o último reduto antes da gráfica, onde o processo industrial era automático demais para que se fizesse qualquer nova revisão. Quem fora premiado era o dono da empresa, Victor Civita, e previsivelmente para aquele bom datilógrafo não haveria fechamento seguinte. Chega a ser injusto que, entre tantas cenas de abnegação nas madrugadas de homens e mulheres datilografando nossos textos editados, seja exatamente aquela a que mais me tenha marcado.

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