Por uma militância política para além da bolha

Cefas Carvalho – Jornalista e escritor

Não que eu esteja reclamando de gente querida e bem intencionada, não é minha intenção, mas sempre que eu recebo textos, imagens, links ou memes de motivação política eu imagino que essa pessoa mandou para dezenas de pessoas que, como eu, pensam politicamente igual a ela e vai votar nos mesmos candidatos. Existe até uma frase bem humorada e bem exata sobre isso: o pregador está falando para convertidos.

Eu mesmo por vezes caio nessa armadilha e envio mensagens para pessoas que não precisam delas, posto que pensam igual a mim do enunciado da mensagem. Na verdade, faríamos bem melhor, tanto eu como as pessoas que enviam material para pessoas do mesmo alinhamento político, se conversássemos justamente com pessoas que pensam diferente. Como se diz, sair da bolha.

Mas, alto lá. Não proponho dialogar com bolsonaristas raivosos, com militantes de extrema-direita ou com aquele tio chato que acha que ditadura militar matou poucos comunista. Estes estão em um espectro ideológico-comportamental que não permite mais possibilidade de diálogo e acho equivocado tentarmos.

Falo de dialogar com quem está em uma espécie de limbo, um meio termo. Sim, isso ainda existe no Brasil polarizado de hoje, e as pesquisas mostram isso de forma bem evidente, principalmente se observarmos o contingente de pessoas que não sabe em quem vai votar ou pensa em se abster no dia da eleição.

Esse manancial de brasileiras e brasileiros não é um “grupo” definido. Encontramos aí desde donas de casa insatisfeitas com o preço da cesta básica até ambulantes que se julgam empreendedores. Desde a ´moça da padaria` de quem tanto escrevi neste espaço durante a campanha de 2018 até o adolescente desencantado com tudo e que está com a cabeça na balada do sábado.

Cabe à militância progressista, portanto, cuidar mais em dialogar com estas pessoas. Quantos de nós que achamos fácil e agradável debater com amigos de esquerda Geraldo Alckmin como vice e as contradições de Ciro ou mandar vídeos uns para ou outros com Lula tocando bateria (recebi esse vídeo 23 vezes, inclusive) conversamos com o porteiro do prédio onde moramos sobre em quem ele vai votar? Quando falo conversar me refiro a entender as razões e motivações dele, não em impor intelectualmente um voto. Erro, aliás, que a militância progressista comete com frequência.

Não é pecado viver em bolhas e muitas vezes elas nos protegem de coisas que não queremos ver ou vivenciar. Mas as bolhas impedem que tenhamos uma visão mais ampla da nossa realidade e do mundo. Para derrotar o fascismo e vencer uma eleição, é necessário termos essa compreensão da realidade para poder agir. Eleição também se ganha com ação. Esse texto, por exemplo, será lido justamente pela minha bolha ideológica. Porém, “virar voto” eu consigo mesmo é numa fila de lotérica ou enquanto assisto a uma partida de futebol em um bar.

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