PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

A traição, é, segundo o Aurélio, uma palavra originada do latim tr aditione, que significa entrega. É o ato ou efeito de trair (se). Crime de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo. Perfídia, deslealdade, fingimento de amizade. Infidelidade no amor. O tema tem servido de inspiração a vários escritores tais como o célebre Madame Bovary, de Gustave Flaubert, no qual o autor teria se inspirado no romance que viveu com Louise Collet, casada e mãe de uma adolescente.


A história se passa na época em que as mulheres eram proibidas de externar seus sentimentos e desconheciam seu potencial para a participação na política, assim como eram criadas e educadas para serem apenas esposas, mães e donas-de-casa. Ema Bovary, porém, decidiu contrariar estas regras e seguir na contramão. Infeliz no casamento passa a viver num mundo irreal no qual adentra por meio da leitura de romances.


O enredo chega ao seu ápice quando a dona-de-casa trai o marido buscando a própria felicidade, situação inadmissível para os rígidos padrões do século XIX. A publicação do livro causou grandes problemas ao autor. Alguns trechos considerados “picantes” foram censurados e o escritor foi processado já que sua obra foi considerada imoral.


Traição é um tema bastante utilizado como enredo para filmes, programas humorísticos e músicas bregas. Existe, inclusive, uma peça de teatro que faz muito sucesso Brasil à fora, cujo título é: Trair e coçar é só começar. Fica claro, através da comédia, que quem trai uma vez, fica freguês. Para repetir o ato de trair, basta encontrar a ocasião oportuna.

Trair e coçar é só começar (Brasil, 2006), de Moacyr Góes, com Adriana Esteves e Ailton Graça

O traidor, o desleal, o falso, e o ladrão – aquele usurpador de algo que não lhe pertence, são, no meu entendimento, pessoas da mesma estirpe. O traidor vale-se da sua confiança para tirar-lhe algo imensurável: a confiança.  O reles ladrão, rouba-lhe bens materiais de valor palpável. Mas estes podem ser recuperados. A confiança, uma vez perdida, jamais será recuperada.

O fato é que, a dor provocada por uma traição é insuportável. É pior do que uma topada quando a unha do pé está encravada, ou uma dor de dente que só passa de manhã. É pior do que dor de ouvido; pedra nos rins ou ainda ter um filho por meio de parto normal. Nem mesmo a dor pela perda por morte de um ente querido, pode ser comparada a dor da traição. Afinal, a traição dói no corpo e na alma e somente o tempo – senhor da razão – é capaz de curá-la.

A certeza de ter sido traído por uma pessoa a quem amamos e em quem confiamos, provoca uma estranha sensação de vazio, tristeza, desespero, solidão e desejo de vingança. É como ter uma faca enterrada no meio das costas e por mais que se tente, não existem meios para retirá-la dali. A dor da traição demora a passar. É uma dor que não se esquece e que faz a pessoa perder o rumo, os objetivos, o sono, o apetite, o brilho do olhar e até mesmo a alegria de viver.

A dor se torna ainda mais profunda, quando a pessoa traída procura explicação, sem encontrar justificativas para “a quebra do trato de sinceridade e confiança firmado entre as pessoas”. Afinal, o que é amar? E o que é confiar? É escolher uma pessoa entre milhões que estão disponíveis no mundo e elegê-la como seu amor, amigo, amado, amante e confidente, de forma exclusiva e incondicional para viver e ser feliz a seu lado.

Se for para ficar com alguém e ter que dividi-la com o resto do mundo, então, é preferível viver só. A situação do traidor é bem mais confortável. Ele parece nem se importar com a dor causada no outro. Afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

2 Pessoas comentaram
Terezinha Tomaz

É verdade!

Maria Denize de Souza

Realmente a traição dói até a alma

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