Pessoas que adoram doenças e outras, que as escondem…

         

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Quem gosta de visitar muito as farmácias e escolher doenças na internet é até chamado pelo pomposo nome de ‘hipocondríaco’. Conheci um tipo popular do bairro do Alecrim, o ‘seu’ Zé Galego, que trabalhava e morava na Hospedaria Central, na rua Machado de Assis, que pertencia ao meu saudoso tio materno, Aldo Medeiros.

Zé Galego ia muito a farmácia de Celso Dutra, na rua Amaro Barreto, em busca de novidades em medicamentos. Quando o mesmo estava com muita insônia ia na referida farmácia atrás de cachetés para chegar o sono e quando estava dormindo muito, ia também, só que dessa vez, em busca de novidades para espantar o seu sono. O melhor era ele contando ao seu modo, como chegava no balcão e ia explicar seus pedidos já antigos, aos novos balconistas: Tem cachéte pra derrubar cavalo velho? Tem cachéte pra acordar gato em biqueira? 

Dizem que cada doido tem a sua mania bem peculiar. Uns escondem suas doenças, como segredos a sete chaves, principalmente para os desafetos não tomarem conhecimentos. Em Pendências/RN, tinha um senhor que ao saber que um amigo estava doente, corria para visita-lo e ao se despedir o pobre doente esticava a perna, ou batia as botas, na mesma hora. Só escapou do agourento miserável, meu velho tio materno, Maneco Medeiros, que estando com uma forte gripe, ao ouvir a voz do tipo coveiro, gritou pra todo mundo da casa, para não deixar o tal adentrar o seu quarto:

“Minha gente não deixe esse infeliz das costas oca me ver não. Vá matar outro doente, olho de sapo cururu, dos quintos dos infernos”.

E tio Maneco morreu já bem velhinho para mostrar a todo mundo sua esperteza de vida. Esconder, só dinheiro aos amigos e as misérias, aos inimigos…

Na minha repartição, trabalhava um amigo muito espirituoso, o finado Rose Júnior, que tinha resposta certa para qualquer pergunta dos curiosos. Quando lhe indagam como ia a sua saúde, este esbravejava tranquilamente cortando de imediato a conversa, dizendo sempre o seguinte:

“Ela está bem instalada no mesmo prédio da Avenida Junqueira Aires, bem ali na descida, entre a cidade Alta para a Ribeira”.

Já outro colega de trabalho, o velho Inácio, quebrando um braço, de tanto ouvir perguntas sobre o ocorrido, não teve paciência com os curiosos e foi a Tipografia Galhardo, na Ribeira mandando confeccionar quase um milheiro de um cartão explicando o sinistro para distribuir: como foi? Estava bebendo? Foi casca de banana? Alguém lhe empurrou? E o dito cartão, contava a hora, como foi a escorregada na calçada. Qual foi o médico que o atendeu. Tudo, tim por tim tim, que fazia inveja aos antigos boletins policiais do tempo do delegado Mário Paulino.

E o saudoso amigo poeta Zé Saldanha, me dizia que para espalhar no mundo da inveja e da maldade, só coisas boas. Uma certa vez, o mesmo demorando me dar notícias suas pelo telefone residencial, eu liguei para sua casa, no bairro de Candelária e este veio me contar que ainda estava muito gripado, mas guardasse em segredo:

Foto Ilustrativa

“Amigo Gutenberg, guarde segredo. Doenças não se espalha. Estou muito ruim com um defluxo da mulesta. Já tomei tudo quanto foi cachéte e essa desgraceira não sai de meus couros. Estou aquartelado há muitos dias. A pobre da tipoia já está suja e cansada comigo dentro”.

Quando contei essa história do querido cordelista seridoense, minha filha mais nova na chegada ao mundo, disse-me não ter entendido patavina. Aí lá fui eu traduzir um pouco para a menina que riu muito do palavreado de matuto divertido, que brincava até com as doenças: ‘Defluxo’ é uma gripe pesada. Cachéte é comprimido. Aquartelado é o sujeito preso em casa. E tipóia é a rede…

Já outro amigo e poeta cordelista Luiz Campos, de Mossoró/RN, amigo de muitas histórias vividas e contadas pelo próprio em vida, sempre aos risos e sem reclamações, contou-me um dia em sua calçada, tomando cachaça com caldo de fava:

-“Você sabe que o médico que me condenou à morte dizendo que eu estava com uma cirrose, já morreu faz tempo? E não é que o finado doutor só bebia café e leite, viu, amigo Gutenberg!”

Tenho histórias alegres do saudoso mestre Luiz, as quais dariam para encher um livro bem volumoso. Viveu com pouco, mas muito rico e feliz com seu humor e paciência invejável. Não morreu de infarto fulminante com dinheiro no bolso, como muitos que conheci. Marcou sua vida sem reclamações ranzinzas, que em nada se leva. Preferiu carregar em seu embornal da última viagem, a santa poesia e as amizades boas deixadas.

“Tenho histórias alegres, as quais dariam para encher um livro bem volumoso”. Gutenberg Costa – Foto: TN

E por falar em Mossoró, vou contar-lhes apenas o milagre e não quem era a santa da historinha. Sempre que ia a casa de uma senhora e lhe perguntava como a mesma estava indo, ouvia não menos do que uma hora marcada em relógio de algibeira um grande choro de doenças:

“Pode acreditá meu senhor, por Deus e Santa Luzia, que eu ando feito alma penada sofrida. Muito pior do que aquela personagem do programa da televisão ‘A Praça é Nossa’! Minhas dores começam nos pés, minhas pernas estão inchadas. Me doem os braços e as costas. A cabeça nem se fala…”.

Vocês podem imaginar, que era coisa, para uma junta médica quebrar a cabeça vários meses. A pobre mulher tomava todos os remédios que chegavam nas farmácias. A dita senhora adorava falar em doenças e principalmente as espalhar as visitas. Não havia outro assunto, nem que a vaca tossisse…

A melhor me foi contada por um grande amigo de trabalho, de seu avô, que morava em Nova Cruz, que este, quando adoecia de gripe forte, se trancava em um cômodo separado da casa e ninguém nem em sonho podia espalhar de que o teimoso velho estava doente. Dissessem aos curiosos da vida alheia que o mesmo tinha ido a Recife, comprar novidades para abastecer seu comércio. Quando o dito presepeiro estava curado, tirava a barba, vestia a melhor roupa e haja sorrisos e histórias da capital pernambucana para contar aos amigos e vizinhos. Dizem nas feiras que o diabo só quer saber de nossas desgraças!

Como antigamente, gripe não era ‘gripezinha’ e nem brincadeira, as pessoas doentes, ficavam em redes, tomavam mastruz no leite fervido, antes do primeiro banho. Se agarravam com alho, limão e mel, além de gengibre e lambedor de sereno da cebola branca. Se nada resolvesse o doente mandava comprar conhaque ‘São João da Barra’ e misturava com limão, canela e mel. Como diziam lá na feira do Alecrim: “Se não matar até que engorda! Tempo em que os ricos corriam para as farmácias em busca de xaropes e elixis. E os pobres, se curavam com os ‘doutores raízes’ e iam as santas rezadeiras em busca de curas, contra os maus olhados e doenças…

Ainda sou daqueles que não espalho doenças e apertos financeiros. Vou seguindo as boas histórias de vida ouvidas em minhas peregrinações, ou viagens, como dizem. Sabedoria popular colhidas em feiras, mercados e calçadas. Sou do tempo que não se falavam em morte e doenças, como esse povo de hoje. As calçadas eram reservadas as alegrias e histórias engraçadas. O povo não tinha celular e existiam outros assuntos no baú.

 Hoje, todo dia, recebo de um ou de uma pelo zap, alardes de suas doenças, como se fosse moda e os ditos e ditas, não tivessem outros assuntos prazerosos para espalharem as amizades antigas!

                    Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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