PELADEIROS

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

O meio-campista Didi, campeão nas Copas de 58 e 62, genial nos passes longos e criador da folha-seca, dizia que treino era treino e jogo era jogo. Essa obviedade era dita quando reclamavam que ele não havia feito um bom treino. De minha parte, jogador de futebol frustrado como a maioria dos brasileiros, afirmo: jogo é jogo, pelada é pelada.

A boa, autêntica e democrática pelada deixou de existir. Era jogada em qualquer lugar, a qualquer hora e com número indefinido de participantes. Às vezes os times eram obrigados a jogar com um atleta a menos enquanto não aparecia mais um para equilibrar. A formação das equipes era um exercício de democracia. O sistema mais usual era os jogadores formarem uma fila para serem distribuídos, um a um, à esquerda e a direita. Ao final dessa triagem as eventuais distorções eram corrigidas e jogadores eram trocados de lado para não haver um time muito mais forte que o outro.

O equipamento era mínimo. Dois tijolos, ou pedras, cocos, ou até as sandálias japonesas serviam de balizas e estas tinham tamanho variável de acordo com a disposição dos peladeiros. A bola também nunca foi problema. Podia ser até de meia (quem nunca jogou com bola de meia não foi moleque de verdade). Para os que não sabem, ensino, pois fui exímio fabricante de bolas-de-meia: tomava-se uma meia velha das tias ou da mãe (eram as melhores), enchia-se de pedaços de pano velho e depois a boca era amarrada. Mas claro, as bolas de borracha e depois as de plástico eram as mais comuns. A bola Pelé foi a mais conhecida. Algumas não aguentavam uma partida até o fim, murchando durante o jogo. Problema nenhum, a pelada continuava mesmo com a bola murcha, como se nada tivesse acontecido.

Bola de meia

Horário e duração dos jogos? Nada estabelecido. Jogava-se de manhã, de tarde e até de noite, se houvesse iluminação suficiente ou  fosse noite de lua. O final era determinado normalmente pelos pais que gritavam de longe: – Acabem com esse jogo e vem pra casa! Claro que era necessário repetir o chamado três ou quatro vezes até que o peladeiro obedecesse, resmungando e reclamando contra a mãe: “- Agora que o jogo estava no melhor”… Meu pai, nos sábados à tarde, voltava do trabalho e de longe, ao passar, assobiava e fazia um gesto. Era o suficiente. Eu e meu irmão abandonávamos a brincadeira. Mas havia sábados em que ele devia ter tomado algumas cervejas aí, entrava em casa e logo voltava de calção para participar do jogo com a meninada. Era a glória!

Arbitragem era algo fora de questão. Resolvíamos (ou não) ali mesmo as nossas questões. Ao invés do VAR usávamos o grito: “-Saiu, não saiu, entrou, não entrou! Foi gol! O cacete que foi!” Quanto às faltas havia uma regra assustadoramente liberal: do pescoço pra baixo é canela. Dá pra imaginar que em um campo de dimensões virtuais, sem linhas de demarcação nem nada parecido, mais das vezes a coisa descambava no que Zé Ary chamava de entrevero: briga generalizada. Nada que impedisse que no dia seguinte a gente estivesse de volta.

Havia também as interrupções causadas por motivos diferentes. Às vezes a bola passava sobre o muro do que chamávamos sítio dos padres. Quem tinha coragem de entrar? A moradora era dona Joana, com o pé torto e perna curta, o que a fazia andar adernando para o lado direito. Era braba e ninguém se metia com ela. Precisava ser assim, pois tinha que afastar a molecada das atrativas mangueiras. Ou então passava de alguma forma pela grade da oficina de automóveis. Aí entrava em ação o trabalho dos mais ágeis, que escalavam a grade e passavam pela fresta entre a laje do teto e a grade.

E – bem mais divertido – quando adentrava as quatro metafóricas linhas, vindo dos altos do grande ponto, o Barba-Azul. Conduzia uma cesta em uma das mãos e na outra um porrete. Não sei até hoje de onde surgem essas coisas, qual o princípio. Mas a verdade é que a pelada era interrompida espontaneamente e os jogadores irmanados na maldade passavam a gritar com o velho. “- Barba-Azul! Vou casar com a tua neta!” O mais eram variações do mesmo tema. Vou pegar a tua netinha! E aos poucos a gente ia detalhando e enriquecendo a transa imaginária com a neta que nem sei se existia de verdade. Barba Azul estancava, tremia como vara verde, brandia o porrete e despejava um imenso repertório de palavrões, envolvendo nossas mães e a nossa virilidade.

Pois então? Que acham? Se vocês preferem o futebol society, com uniformes, chuteiras e campos alugados com grama sintética, fazer o que? Os terrenos baldios escasseiam e o pessoal passou a bater bola dentro dos condomínios. Talvez por isso a nossa seleção não ganhe mais coisa alguma, e a cada dia torna-se impossível o surgimento de um novo Pelé ou mais remoto ainda, algo que lembre pelo menos de perto, Mané Garrincha. De minha parte, prefiro uma bola velha, uma turma amiga, e um plano de saúde para as contusões da segunda-feira.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é image-40.png

NATAL/RN

Compartilhar em:

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.