Paulo Diniz, grandioso

Alex Medeiros ([email protected])

“Vou me embora, vou me embora, vou buscar a sorte caminhos que me levam, não tem sul nem norte mas meu andar é firme, e meu anseio é forte ou eu encanto a vida, ou desencanto a morte”.

Os principais jornais do País, principalmente, alguns de Pernambuco, não deram a real dimensão artística do cantor e compositor Paulo Diniz, que partiu na quarta-feira aos 82 anos deixando uma vasta obra e uma história de sobrevivência e também de sucesso. A grande imprensa com seu jornalismo “prêt-à-porter” distribuiu na rede de transcrições o texto-padrão tratando o artista como o “autor de Pingos de Amor”. E ele foi uma enxurrada de êxitos.

O começo da vida de Paulo Diniz foi uma história comum como a de tantos nordestinos pobres. Teve uma infância marcada por privações, carência alimentar, insegurança e incertezas, agravada logo nos três primeiros anos quando ficou órfão de pai. Foi a força e resiliência da mãe que o encaminhou para os estudos, despertando nele interesse pela música que tocava no autofalante da pracinha de Pesqueira, cidadezinha do agreste pernambucano.

Como em qualquer pequeno município do Nordeste, as praças de antigamente eram portais para o mundo civilizado. Ali, ele ouvia Luiz Gonzaga, Tito Madi, Lucio Alves e uns jovens com uma batida estranha chamada de Bossa Nova. 

No auge do seu sucesso, nas décadas de 1960 e 1970, ele dizia que toda sua inspiração e produção tinham os alicerces fundados naquelas memórias e que foram essenciais para o início da batalha quando chegou em Recife, em 1959.

O primeiro emprego já foi uma relação com o microfone, plantado nas calçadas chamando clientes para as ofertas do patrão. Passou a cantar em botecos e cabarés, e logo virou locutor da Rádio Jornal do Comércio, até o ano de 1963.

Da “veneza brasileira” foi para a “noiva do sol” operar equipamentos de TV e ser contrarregra nas novelas cearenses, se tornando algumas vezes figurante e contracenando com um tal de Renato Aragão. E logo conheceu popularidade.

Durante uma cena de velório em que encarnava o morto, resolveu levantar a cabeça pra reclamar do calor, estirando a língua. Só que a novela era ao vivo e a cena assustadoramente hilária foi comentada por dias, num verdadeiro viral.  

De Fortaleza para o Rio de Janeiro, foi ser locutor e disc-jóquei na Rádio Tupi até receber convite da Rádio Globo e abrir caminho no mercado discográfico, com o primeiro disco, um compacto, estourando em 1966 a canção “Chorão”.

O País respirava os ares da Jovem Guarda e ele foi engrossar o cordão do bloco dos súditos de Roberto Carlos, sendo presença constante nos programas de auditório e nas paradas radiofônicas, tratado como campeão de vendas.

Na TV Rio, o point da música era o Rio Hit Parade, apresentado por Murilo Neri e Adalgisa Colombo, a miss Brasil de 1958. E Paulo estava sempre no Top Five ao lado de Roberto, Elza Soares, Altemar Dutra, Simonal, The Fevers…

Em 1970, a Discoteca do Chacrinha foi palanque da sua canção em homenagem a Caetano Veloso, exilado em Londres. Lançou “I Want to go Back to Bahia” que se espalhou pelos rádios, lares, bares e lojas de discos do País.

No ano seguinte, Flavio Cavalcanti, a maior audiência da TV, anunciou uma estratégia para manter os índices do Ibope. No dia marcado, avisou ao Brasil que assinou exclusividade com Roberto Carlos, Ronnie Von e Paulo Diniz.

Então veio 1972 e o cantor da voz rouca e vibratória virou o campeão de vendas da poderosa Oden. O LP em que se destacava “Pingos de Amor” vendeu fácil e a canção levou sua voz a todos os recantos e cantos do Brasil.

A cena é mais clara e nítida na memória do meu irmão Graco, mas não esqueço a gente no ônibus saindo das Quintas e pegando outro na Avenida 2 em direção à Lagoa Nova para ver Portugal e Equador na Minicopa 1972.

O nome “lotação” sendo legitimado na galera espremida com destino ao Castelão, eu querendo ver Eusébio. Aí o povão acompanha o rádio: “A vida passa, telefono e você já não me atende mais…”. Arrepiante como um gol.

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