Patrimônio cultural: Justa homenagem aos brincantes do Boi Calemba e Congos de Combate de São Gonçalo do Amarante

Por Rogério Marques

“O patrimônio é uma identidade”, diz o professor Luciano Capistrano. As tradições que os grupos folclóricos preservam em memória à sua ancestralidade traduzem o patrimônio cultural imaterial da cidade.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), “Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas)”.
Tradicionais grupos folclóricos de São Gonçalo do Amarante/RN, o Boi Calemba Pintadinho, do Mestre Dedé Veríssimo, e o Congos de Combate do Mestre Gláucio Teixeira, foram reconhecidos como patrimônio cultural imaterial pelo município depois de tantas e tantas histórias contadas e cantadas. Como bem disse o mestre Gláucio Teixeira, “a gente conta cantando e dançando”.
Após a aprovação na Câmara Municipal, as leis 1.959 e 1.960 foram sancionadas pelo prefeito Paulo Emídio e publicadas no Jornal Oficial do Município (JOM) na quarta-feira (10/11). Para o escritor e folclorista Gutenberg Costa, presidente da Comissão Norte-rio-grandense de Folclore, essas homenagens em papel e com diploma são muito bonitas para se colocar na parede das casas humildes dos mestres, mas deveriam vir com uma contrapartida dos municípios. “Eu pergunto, a homenagem é só no papel ou vem com algum benefício, como isenção de taxas municipais? Porque o grupo tem despesas com água, luz, IPTU, entre infinitas contas a pagar. Então, acho que além da homenagem a prefeitura deveria fazer a contrapartida com algum benefício que venha ajudar a situação precaríssima que os grupos folclóricos enfrentam em nosso Estado. Infelizmente, na terra de Câmara Cascudo, o maior folclorista do mundo, esses grupos ainda não são valorizados”.
Ele afirma que para ter esse reconhecimento é preciso uma política cultural séria em cada município. “Quando eu viajo e entro em contato com os mestres escuto que há anos não são convidados para apresentações dos grupos folclóricos, uma total falta de respeito”.
Gutenberg conta que achou as homenagens justas, embora tardiamente, porque seria um papel primordial dessas prefeituras darem esse título de patrimônio e tradição a todos os grupos folclóricos e seus mestres, que representam verdadeiramente a cultura do povo. “São as verdadeiras riquezas das cidades interioranas do Brasil. O Rio Grande do Norte tem muitos grupos folclóricos que estão desvalorizados, esquecidos, relegados pelo poder público municipal e estadual”.
O fotógrafo e produtor cultural Lenilton Lima conta que antigamente os grupos folclóricos se sustentavam através das suas andanças e um dos auges dessas andanças foi justamente a cultura do algodão. “Os personagens que faziam o Boi de Reis, o Pastoril, o Congos, viviam da agricultura. Eles trabalhavam durante o dia e à noite faziam as suas apresentações. Tinha os festejos de São Benedito, São Sebastião, São João, Festa de Reis e os grupos culturais eram bastante requisitados, era daí que tiravam a sua sobrevivência. Hoje esses grupos estão muito frágeis”.
O pesquisador fala que vê essas homenagens como uma coisa positiva, mas também sente a necessidade de uma política que possibilite apresentações desses grupos para que assim possam usufruírem esses títulos. “De que adianta jogar a cultura popular lá pra cima e não ter uma receita para que esses grupos folclóricos possam sobreviver? Por que a gente vê muitos brincantes extraordinários de cultura popular morrer à míngua e não usufruir do conhecimento de toda uma vida”.
Ele diz que esse apoio necessariamente não tem que ser financeiro. “Uma casa de cultura onde os grupos pudessem se apresentar, guardar seus figurinos, realizar exposições, seria um apoio fundamental para manter vivas as tradições populares”.
Lenilton esclarece que em São Gonçalo do Amarante, segundo o Mestre Dedé Veríssimo, o atual “Boi Calemba” era Boi de Reis Pintadinho Surubim. O produtor cultural aponta que o Ponto de Cultura BoiVivo, do qual faz parte, chegou a levar o Boi Calemba Pintadinho para o Baile Enfeitado, em Porto Alegre (RS), no festival da Copa do Mundo em 2014. “O cachê foi divido igualmente entre o grupo, que passou a se destacar no cenário cultural potiguar e nacional”.
Lembra, também, quando o Mestre Sérvulo Teixeira, antes de falecer, coroou o sobrinho Gláucio Teixeira, que recebeu a missão de manter a tradição do Congos de Combate de São Gonçalo do Amarante. Para Lenilton, fotografar a cerimônia ocorrida em 2010 durante a missa de sétimo dia do Mestre Lucas, avô de Gláucio, foi um dos registros mais emocionantes, além de contribuir para eternizar a cultura popular.
Foto: Lenilson Lima
Durante um papo com o Coletivo Foque, o mestre Gláucio Teixeira relatou que os congos remetem a uma origem africana porque conta uma história e narra uma sequência de atos de reis, rainhas e brincantes. “Da forma como nós realizamos o Congo aqui no Rio Grande do Norte não há nada parecido com a forma como faz na África. Os reis e rainhas que representamos vieram escravizados para o nosso país no período do Brasil Colônia e Império. Submetidos ao trabalho escravo nas zonas de café, algodão e cana-de-açúcar e nas senzalas, em determinadas épocas do ano, nas festividades religiosas, as igrejas permitiam que essa população negra saísse brincar naquelas festas”, onde faziam uma exaltação às suas memórias, às suas histórias.
Viva a cultura popular e seus extraordinários brincantes.

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