Pai, Filho e Espírito Santo

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Arrumando os meus livros deparei com um artigo do Mestre Cascudo em uma revista Planeta, de outubro de 1972, intitulado O Catimbó ou a feitiçaria. Nele, o estudioso afirma haver estudado o Catimbó durante 21 anos e haver publicado um livro chamado Meleagro, em 1951. Relendo Cascudo lembrei de uma experiência vivida nos anos 1970, aqui mesmo, em Natal.

A casa era no conjunto residencial Potilândia e nada a distinguia das demais. Muro alto, um portão largo para entrada de carros e um portão estreito para as pessoas. Uma mocinha nos recebia com uma moringa d’água nas mãos. Cabia ao visitante derramar um pouco de água para a esquerda, um pouco para a direita, e recitar algumas palavras cabalísticas que jamais consegui distinguir. Na minha vez eu balbuciava qualquer coisa me fingindo de entendido. À esquerda, no chão, havia uma pequena casinha que depois aprendi ser abrigo de Exu, lugar onde ele recebia a devida homenagem. Sem isso não havia trabalho possível.

A construção ficava nos fundos. Era simples, retangular. A única divisão era feita por uma cortina fina que separava o espaço onde as pessoas sentavam em bancos e cadeiras, do altar (peji) repleto de imagens (ou vultos) de santos de toda ordem, desde um belo Jesus ocupando o ponto central e mais alto, passando por são Sebastião, são Jorge, os irmãos santos Cosme e Damião. Além de Caboclos, Pretos Velhos, a escrava Anastácia e até o padre Cícero do Juazeiro. Um exemplo perfeito de sincretismo religioso, onde há lugar e culto para todos. Flores e velas iluminavam e embelezavam tudo aquilo.  

A mulher vestia larga saia branca. Cumprimentava a todos e começava a percorrer o salão conduzindo um braseiro que exalava uma fumaça aromática. Cantava, enquanto benzia o lugar e as pessoas: “Essa casa tem quatro cantos/ cada canto tem um santo/ Pai, Filho e Espirito Santo”. E quando se dirigia às pessoas: “Nossa Senhora defumou seu bento filho/para ele/para ele cheirar/ eu defumo esses filhos/para Jesus nos abençoar”. Era o prelúdio do que ia se passar e eu ardia de curiosidade.

Após “limpar” o ambiente e os visitantes, a mulher sentava em um banco e começava a entoar pontos muito bonitos. “Quem vem, quem vem lá de tão longe/são nossos guias que vem trabalhar/Oh, dai-me forças pelo amor de Deus, meu Pai/Oh, dai-me forças pros trabalhos seus”. E emendava: “Abre a porta gente/que aí vem Jesus/ele vem cansado/com o peso da cruz/vem de porta em porta/vem de rua em rua/vem salvar as almas/ sem culpar nenhuma/Oh, meu Senhor do Bonfim/valei-me meu protetor/oh, dai-me forças, meu Pai/nos trabalhos do Senhor”.

Ao fim desses pontos a mulher dava sinais de já estar possuída, e quando falou já não era sua voz nem seus termos, e sim um indígena que saudava a todos e a Oxalá, fazendo a seguir uma bela e edificante pregação. Tratava cada um como se filhos fossem, com carinho, interesse e delicadeza firme e às vezes uma pitada de humor. Na sequência o caboclo dava lugar a uma Preta Velha, símbolo de humildade. As pessoas entoavam em louvor: “Aninha, Aninha, Aninha do Ajeló/ seu lençol tem quatro pontas/cada ponta tem um nó”. A Preta Velha consultava a todos, recomendando remédios e tratamentos, além de exortar à prática da boa moral. Uma vozona. Os pontos de pretos se sucediam: “Pai Joaquim, ê-ê, Pai Joaquim, e-á /Pai Joaquim que veio de Angola / Pai Joaquim de Angola angolá…”

A visita seguinte era de uma entidade chamada Mestre Zé, ou Zé Pelintra. Botava um chapéu, uma bengala robusta, e passava a fazer graça com todos, usando de alguma verve maliciosa com as mulheres. Pedia um charuto enorme (que ele chamava consolo de viúva) e fazia insinuações. Todos riam. E assim a noite transcorria…

Saí dali confuso e maravilhado. O que era aquilo? Que tipo de ritual era aquele? Não era, nem de longe, Espiritismo. Tampouco Umbanda, já que não tinha batuques nem danças ou filhos e filhas de santo. Ao perguntar foi-me informado que era uma Mesa de Senhores Mestres, mas como, se nem mesa havia?

Só muito tempo depois, ao ler Meleagro (1951), de Câmara Cascudo, obra em que o mestre registra a prática do catimbó na Natal do começo do século XX, pude perceber: o que aquela senhora fazia era um tipo remanescente de catimbó, sendo ela própria, embora não soubesse, herdeira dos catimbozeiros extintos à força de perseguição policial. Quais seriam os indícios? A ação de caráter individual, sem colaboradores ou vínculo com instituições. A consulta e o receituário. Os instrumentos. Os patuás.

A solução dos problemas de toda ordem, desemprego, traição do cônjuge, impotência, filhos complicados ou negócios em crise. A presença dos mestres juremeiros e de entes do fabulário nacional, como sereias ou caipora. Uma vez me foi dado conversar com uma caipora (as sereias não falam) chamada Adelina. Recitava: “Sou Adelina caipora/enrolada numa cobra”. E se descrevia como uma garota de 7 anos, criada na mata, nua e com grandes cabelos cobrindo seu corpo. Dava longos assobios e fazia tranças em qualquer cabeleira que estivesse à mão.

Ah, as artes do povo. Hoje tenho a certeza que tive o privilégio de ver, talvez, uma das últimas catimbozeiras em ação, sincretizada é verdade, mas herdeira direta dos mestres de outrora, perseguidos, obrigados a fazer trabalhos dentro das delegacias de polícia para satisfazer a sanha policial. Artes de pobres pretos ou brancos pretos de tão pobres, remanescem sempre heroicamente.

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