Outras do Capitão…

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Há alguns dias escrevi aqui nesse blog sobre o Capitão, grande figura que conheci nos meus tempos de Clube de Xadrez. Expliquei que a patente de “Capitão” foi dada por mim, frente ao que eu achava seus exageros, tipo dobrar barra de ferro ou um canário belga que fugiu com gaiola e tudo.

Leitores enviaram mensagens pedindo que eu contasse mais coisas dessa nossa amizade. É interessante, o Capitão tem carisma até quando terceirizado em relatos. Mas é merecido. Fazia um tipo divertido e meio misterioso, pois nunca esclarecia, quando alguém reunia coragem para perguntar, se o que contava era ou não verdadeiro, nos deixando a voar nos ares da incerteza. Apenas ria, enigmático, e dizia seu bordão:

É fogo, velhinho…

Uma tarde o grupo conversava sobre motocicletas: vantagens, economia, potência, riscos. O Capitão, apesar de parecer concentrado no jogo, não deixava escapar nada e meteu a colher.

– É verdade. Moto é um troço muito arriscado, eu que o diga. A coisa é fogo.

Cheirei história no ar e perguntei ligeiro para não perder o momento se ele havia usado motos. – Claro que usei, companheirinho, mas hoje não quero ver nem pintada.

Acho que ele fazia aquilo de propósito porque estava claramente em desvantagem no jogo. Eu havia tomado seu bispo e ameaçava um xeque mate em três lances. Mas nem liguei e indaguei o que tinha havido. Tiro e queda. O Capitão começou:

– Eu ainda estava no Grupamento de Fuzileiros e era só um jovem empolgado ganhando meus primeiros soldos. Assim que pude comprei uma moto quase nova. Naquela noite de sexta-feira eu voltava para casa. Havia tomado umas e morria de cansaço e sono. Acho que por isso e pelo escuro não vi o caminhão embiocar na minha frente. Foi fogo, companheiros. Bati na lateral do bicho e com a pancada fui jogado no alto da carroceria. Não sei se dormi do sono ou se desmaiei, mas só dei por mim no dia seguinte à tardinha. E apenas porque uns meninos que jogavam uma pelada ali perto chutaram a bola em cima da carroceria. Um garoto subiu pra pegar e ao me ver gritou, assustado: Tem um homem aqui em cima!

O Capitão fazia umas pausas, estudava o tabuleiro e continuava.

– Pois então? O caminhão estava nas Quintas, próximo da Guarita, estacionado. Nem sinal da moto. Foi aí que tive muita raiva da polícia, meus amigos. Até hoje não engulo esses meganhas. Não é que eles tinham achado a motocicleta e a minha carteira que havia caído no choque? Lá estavam meu RG e endereço. Algum sargentinho novo querendo mostrar serviço foi até a minha casa e quase matou minha mãe de susto dizendo que eu devia ter morrido. Só faltava acharem o corpo. E aí ela tomou outro susto muito maior mais tarde quando entrei porta adentro todo amarfanhado. Acho que estava com a maior cara de fantasma. Pobre mamãe. Deu um piripaque na hora. Quase morreu.

O Capitão olhou ao redor e completou:

– É fogo! Quero mais moto de jeito nenhum nem negócio com polícia.

Nesse momento fez um lance inesperado com a rainha e anunciou:

– Xeque mate!

A turma havia feito do bar do Português uma espécie de filial do Clube de Xadrez. Certa noite, Dedé chegou feliz da vida porque a mulher havia parido. Pagou cerveja pra todos e anunciou como faz todo pai:

É a minha cara escrito!

O Capitão adorou a interrupção porque mais uma vez seu rei estava ameaçado.

– Camaradinha, essa coisa de semelhança me lembra de uma vez que eu estava em Salvador disputando uma regional de Xadrez, começou ele, o que me fez olhar desanimado para o tabuleiro à minha frente. – A hospedagem era nos alojamentos da Fonte Nova. Beliches, água fria, você imagina só, aquele grupo de marmanjos juntos. Fui ao banheiro de manhã fazer a minha assepsia bucal (ele às vezes falava assim, cheio de nove horas) e ao olhar no espelho me assustei. Lá estava uma cara igual a minha. Cagada e cuspida. Um clone. Pisquei um olho, a imagem piscou também. Levei a mão à orelha esquerda, o reflexo fez a mesma coisa. Cocei o queixo e a imagem também coçou. Voltei-me para o sujeito e perguntei se ele estava pensando a mesma coisa que eu. Camaradinha me acredite, até essa cicatriz que eu tenho aqui – e apontou para uma marquinha perto do nariz – a minha cópia ele tinha, também. Não é fogo?

Dizer o quê? O Capitão era o mais velho do grupo, uma espécie de guru. Além do mais ele já havia levantado e fazendo um aceno com a mão havia me despachado:

A gente termina essa no próximo sábado, camaradinha, não pense que ganhou. Estou no jogo.

E saiu com toda a dignidade porta afora.

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