Os sons dos pingos das chuvas

Gilberto Costa – Poeta e rascunhador de sentimentos

Estou na minha leitura noturna quando me deparo com uma frase de Heráclito aduzindo que “olhos são testemunhas melhores do que ouvidos”. Ato contínuo, relâmpagos e trovões anunciam uma chuva. O cômodo onde me encontro não é revestido com laje, seu telhado é coberto por telhas. Os pingos começam a produzir sons que até então não tivera a curiosidade de escutá-los. Guardo o livro. Fecho os olhos. Tentarei testemunhar como são os sons dos pingos contrariando o filósofo de Éfeso.

Apuro os ouvidos. Ora os sons são crescentes ora são minguantes. Valho-me dos meus botões e pergunto: “seriam os pingos lágrimas da lua”? Eles se eximem de quaisquer respostas. Deixam-me livre em minhas indagações.Tento descrever os sons dos pingos além de uma onomatopeia. Os sons em suas fases, desde quando as nuvens se desfazem até pingarem no telhado e em posterior na terra carente.

Quando penso que cheguei a um ponto de interseção, eis que pingos me despertam do transe e banham minha tez. Não abro os olhos para identificar a goteira. Os sons agora são outros, diferem do outrora som amortecido pelas telhas.Tateio na semi escuridão do quarto e encontro um balde. Afasto-me um pouco e faço com que os pingos caiam no recipiente. Outros sons são produzidos. Tento relacionar os sons dos pingos aos ritmos musicais conhecidos. Há algo diferente. Os sons dos pingos das chuvas são próprios e não se fazem acompanhar de quaisquer instrumentos.

A chuva diminui sua intensidade. Os pingos soam mais tímidos. Um som parecendo um canto de mãe invade meus ouvidos. Sinto sono. Inicio uma desaceleração. Os pingos ficam quase inaudíveis. Entrego ao sossego a responsabilidade pela definição daqueles sons. Durmo. Devo ter sonhado.

No dia seguinte encontro um riacho hidratado no sertão. Olho suas águas. Ele parece ser igual a todos os demais regatos. Olho-o até promover cochilos. Valho-me novamente dos ouvidos. Tento recordar os sons dos pingos da noite anterior. Escuto o líquido passeando pelos lajedos. As águas que escorrem guardam todos os sons dos pingos que promoveram enlevo em mim.No repouso dos pingos preparo minha partitura.Gilberto Costa

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