Os peixes no aquário estão todos mortos


Cefas Carvalho – Jornalista e escritor

Leonora demorou a abrir a porta de casa, pois a chave estava jogada no fundo da bolsa, perdida entre cartões de crédito, moedas, papéis e produtos de beleza. Odiava perder tempo procurando algo na bolsa, mas, nunca conseguia organizá-la. Luís a havia abandonado. Era estranho para ela alguém terminar o relacionamento. Sempre era ela quem colocava fim aos romances, fossem sérios ou banais.

Não tinha tempo para sofrer. E sabia que o sofrimento por amor não combinava com ela, nem com a imagem que fazia dela mesma e muito menos com a imagem que fazia dela. Sofrer só no palco, costumava dizer.

Abriu a casa e viu o caos. Um cheiro desagradável se fazia sentir. O lixo acumulado estava, em sacos, na cozinha, junto ao bujão de gás. A pia, cheia de louças sujas. Lembrou-se que, desde que Luís fora embora, ficara dez dias pelo menos sem pisar em casa, entre noites chorando (ou rindo)  na casa de amigas, em hotéis – em turnê com a peça em municípios vizinhos – e pelo menos duas noites sem dormir, de bar em bar, restaurantes, boates. Uma vez acordou na cama de alguém que não conhecia, mas isso não vinha ao caso.

Foi quando olhou para o aquário que Luís havia comprado a seu pedido, e percebeu os dois peixes beta boiando, imensos, disformes. Havia jogado na água comida para eles, antes de viajar. Talvez tivesse exagerado na dose. Tristão e Isolda seus nomes.

Listou mentalmente os itens do caos e o que teria de resolver: Jogar o lixo fora, pintar as paredes, rasgar as fotos que Luís tiver deixado, pagar o condomínio. E tenho que mandar ajeitar o forro de gesso. E os peixes do aquário estão todos mortos.

Colocou a bolsa no ombro, abriu um sorriso vencedor – com tintas de Blanche DuBois, é verdade –  nos lábios e saiu para o teatro, batendo a porta ruidosamente.

Compartilhar em:

Entre na discussão!

Fique tranquilo, seu email está seguro.