O “voto secreto” que pode decidir a eleição

Cefas Carvalho- Jornalista e escritor

Bolhas sociais são necessárias para mantermos a sanidade mental nos dias atuais, de retrocessos e horrores. Mas, viver em bolhas nos afasta da realidade, com todas as nuances, grandezas e baixezas que ela pode ter. Em termos de análise e compreensão política, ficar na bolha é pecado quase mortal. Só é possível ter uma dimensão do que realmente está acontecendo quando afastamos o olhar, seja das nossas bolhas, seja do que vemos microscopicamente.

Digo isso para comentar a ilusão vivida por quem faz parte de bolhas sociais, culturais ou ainda de internet e redes sociais. É certo que o universo digital pode ajudar a eleger candidatos, como aconteceu com Bolsonaro e Trump, mas isso pela compreensão do marketing deles justamente de como furar as bolhas, ainda que com as ferramentas digitais, e em circunstâncias atípicas (Bolsonaro venceu porque Lula estava preso com um processo sujo, Trump venceu porque Hillary Clinton era odiada nos EUA, e ainda assim teve mais votos que ele).

Saindo da teoria e indo para a prática: quem milita nas redes sociais geralmente pensa que o mundo está lá. O influencer faz uma enquete sobre a eleição presidencial e como Bolsonaro ganha com 2 mil votos dos fãs dele, pensa que as pesquisas estão erradas e que o “mito” é quem tem mais votos. Em compensação, o militante de esquerda posta uma foto do casamento de Lula e Janja que tem 3 mil curtidas e, pronto, declara em voz alta que o amor vai vencer essa campanha.

Redes sociais são um termômetro, sim. Têm poder real de mudar estratégias políticas e empresariais e de definir caminhos. Mas, existe todo um chamado “Brasil profundo” cujo voto é “secreto” e não alardeado em redes sociais.

São milhões de pessoas que estão ocupadas em ganhar algum dinheiro no fim do mês para pagar a conta de energia, comprar gás de cozinha e ter comida na mesa, tarefas cada vez mais difíceis. Elas votam, mas não postam sobre política nas redes sociais, nem estão preocupadas se Lula criticou Zelensky ou se Bolsonaro idolatra o torturador Ustra. Estão preocupadas em como comprar arroz e feijão e ainda sobrar um trocado para uma cerveja no fim de semana.

Esse voto “secreto” elegeu Lula por duas vezes, depois Dilma e também elegeu Bolsonaro, inclusive com milhões de pessoas que votaram tanto no petista como no miliciano. Não votaram por razões ideológicas, como já escrevi aqui, mas por feeling, por empatia, pela onda do momento. E essas pessoas não alardeiam seus votos. Muitas vezes sequer votam com a empolgação que a militância o faz. Não importa.

Porém, o voto “secreto” para além das bolhas é que causa surpresas em quem vive preso nelas. Como na vez em que num bar cultural uma roda de seis bons amigos debatia ardentemente que Lula venceria no primeiro turno e que “o povo” estava cansado de Bolsonaro. Despedi-me deles e antes de chegar em casa parei numa distribuidora para beber minha saideira. Ali nas três mesas que reuniam de sete a oito homens, o assunto era como “Bolsonaro era macho de verdade” e que “o ladrão do Lula tem que ser preso de novo”. Para essa bolha, as pesquisas estão erradas e o “mito” será reeleito.

Tenho muito apreço pelas redes sociais, nelas faço amizades, exponho o que penso e divulgo o que faço e escrevo. Mas, sei que elas são feitas com os algoritmos e com nossas bolhas. As redes não refletem o que está acontecendo. Para saber o que se passa é necessário justamente “sair às ruas” como pede parte da militância: tomar café da manhã em um mercado público, entrar em um bar, conversar em uma fila de lotérica.

Fiquemos atentos. Fazer estardalhaço em Facebook e Twitter pode ser bacana mas não necessariamente garante voto. E lembrando que WhatsApp não é rede social, é ferramenta de comunicação. Que o bolsonarismo soube e saber usar e a esquerda, não.

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