O Tigre e o Capitão

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Conheci o Capitão no P4BR, um clube de Xadrez ali na Cidade Alta, em Natal. Aliás, ele não era capitão de verdade, mas foi assim que passei a chamá-lo tão logo travamos amizade já que ele contava haver sido da gloriosa Marinha Brasileira. Era boa praça, papo fácil, bem humorado, se achava o melhor jogador de Xadrez da paróquia e contava algumas histórias que me cheiravam a pabulagem. Por isso a patente alta que lhe atribuí, numa ironia que não sei se ele percebeu, e se percebeu nunca reclamou. Depois descobri que morávamos no mesmo bairro e as caronas se tornaram corriqueiras.

O Capitão havia sido punido pelos militares após o golpe de 1964, ocasião em que alguns marinheiros insubordinados haviam sido castigados com prisão e perda de direitos, e às vezes até coisa pior. Para não ser preso ele fugiu para o Uruguai, onde já estavam alguns exilados ilustres, tipo Leonel Brizola, Jango e principalmente Djalma Maranhão, ex-prefeito de Natal. Naquele tempo era assim: fugia-se primeiro e perguntava-se depois.

Brasileiros exilados no Uruguai, entre eles, o ex-presidente João Goulart (3) – Foto: EBC

Nas nossas conversas o Capitão relatava haver sido lutador de luta livre nos tempos de Bernadão, Aderbal e Touro Novo, quando essas lutas causavam furor em Natal. Fazia sentido, já que via de regra esses pioneiros do vale-tudo vinham dos grupamentos de marinheiros e fuzileiros navais.

E relatava algumas dessas lutas. Contava até ter lutado com Ivan Gomes, atleta famoso de Recife. As histórias do Capitão repercutiam em mim, pois quando garoto meu pai, jornalista esportivo, contava desses embates, da rivalidade das lutas travadas no velho Ginásio Silvio Pedrosa. Meu pai falava da primeira luta realizada sobre um ringue improvisado e que cedeu no calor da refrega, o que não impediu que os lutadores continuassem a troca de golpes. O locutor anunciava bolsa ao vencedor, mas meu pai falava que era treta, que os lutadores dividiam a “bolsa” e depois se refugiavam na praia da Redinha – na época um lugar ermo – para fugir dos apostadores enfurecidos. Conheci Aderbal e Bernadão através de papai. Bernadão todos conheceram, pois ficou muitos anos trabalhando de segurança na portaria da sede social do América FC.

Luta entre Aderbal e Bernardão – Folha Patuense

Pois bem, uma noite, entre cervejas, o Capitão me contou, com reservas, haver passado dificuldades em Montevidéu. E que quando finalmente foi absolvido nos processos que corriam no Brasil não tinha como retornar por absoluta falta de dinheiro. Estava na penúria, sofrendo fome de verdade. Na necessidade recorreu a Djalma Maranhão, que, aliás, havia também praticado um pouco de vale-tudo nos tempos de prefeito da cidade.

Prefeito do Natal, Djalma Maranhão (in memoriam) Foto: História e Genealogia

Tristeza. Djalma se desculpou, mas disse também estar com dificuldades para se manter ele próprio na capital uruguaia. – É camaradinha, (o Capitão sempre me chamava assim), a situação era fogo…!

Mas aí a ideia:

Já sei, disse Djalma.  Arranjo uma luta pra você. A gente lhe anuncia como um grande campeão brasileiro, eu pego uma parte de comissão e você ganha seu dinheiro. Resolvemos o meu e o seu problema. E aí volta pra Natal.

Só isso? O Capitão perguntou feliz, já se sentindo diante de um grosso bife de chorizo e pisando no saudoso Aeroporto Augusto Severo.

– Fácil assim?

Só tem um porém (sempre tem um porém), disse Djalma. Aqui é bolsa ao vencedor no duro. Portanto você tem que ganhar a luta sem choro nem vela! Senão, nada feito. Nada de plata.  

Fazer o quê, camaradinha? Eu topava tudo. Assinei o contrato meio receoso quando vi o nome do oponente: Tigre Uruguaio. Imaginei, estou frito. Com a fome que vinha enfrentando nos últimos dias encarar de cara um tigre… Mas como disse, fazer o que? Tinha que agarrar a chance.

O Capitão sabia contar uma história. Tomava um gole de cerveja, olhava ao redor, e repetia seu bordão: – É fogo!

Camaradinha, na noite da luta eu meio que tiritava. Não sabia se de frio, de fome ou de medo. Olhei para o outro lado do ringue e vi um daqueles uruguaios feitos de puro músculo e cara de poucos amigos. Senti a grana e o aeroporto a cada momento mais distantes das minhas mãos.

Outra pausa. Eu estava impaciente.

– E então, Capitão?

Não tinha muito que fazer. Lembrei-me do que diziam sobre a força do pensamento e da vontade. Lembrei Davi e Golias. Pensei em padre Cícero, em Lampião, misturei tudo com os poderes do padre João Maria. Olhei para o Tigre e pensei: que tigre que nada, é um frango, um galeto assado. E na imaginação não é que eu via um galeto assado com fritas? Acho que até senti o cheiro.

– Deu certo? – Se deu? Não estou aqui contando a história? Triturei o Tigre Uruguaio e até hoje ele se pergunta a placa do caminhão que passou por cima dele. Ganhei o prêmio, rachei com Djalma e fiz carreira pro Brasil. Foi fogo, camaradinha!

– E nunca mais lutou, Capitão? – Nem pensar. Hoje, só Xadrez. E mesmo assim com ressalvas. Não gosto nada dessa história de cavalo comer dama, bispo comer rei… É muita violência, parece coisa de comunista!

Deixei o Capitão em casa e tentei tirar alguma moral dessa história, mas infelizmente não consegui achar nenhuma. Talvez vocês consigam, quem sabe?

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