Ô saudade da gota (VII)

Pastoril – a disputa entre o encarnado e o azul

Rosemilton Silva – Jornalista e Escritor, natural de Santa Cruz/RN)

Ano chegando ao fim, festejos natalinos já sendo preparados e aí vem com força uma saudade dos velhos tempos no mercado, ali na banca de Matias, de Pedro Aleixo ou de Chicó Fulô já vendo o sapato novo para as festas do fim de ano enquanto a gente ouve as cantigas do pastoril sendo ensaiadas para a disputa entre o azul e encarnado, coisas do padre da cidade e que acaba mesmo em política, juntando no mesmo balaio situação e oposição que dão uma demonstração de como vai ser o ano eleitoral.

Nos armazéns de tecidos, a chegada de cores e tecidos novos, mas sempre tendo para todos os gostos de bolsos. Descendo das prateleiras peças de fustão, cambraia, gabardina, brim, linho, chita, caqui, mescla, tergal inglês, organdi, alpaca, organza, piquê, renda, tafetá… Em ano bom de inverno, todo mundo compra uma pareia de roupa pra vir pra Missa do Galo que é celebrada logo cedo para poder a festa entrar noite à dentro, com pessoas por todos os lados e o motor da luz tendo que aguentar até altas horas iluminando as ruas mesmo que tenuemente – vixi!!! Lá vem esses nomes difíceis – as casas e o mercado.

Homi, ai vem uma lembrança daquele monte de revistas com moldes de vestidos – não tem nada pra homem porque é sempre o mesmo: calça e camisa e, aqui e acolá um palitó – nas casas de alfaiates e costureiras se misturando aos metros de tecidos que vão sendo amontoados até que o modelo seja escolhido e devidamente separado para não ficar igual ao de ninguém. Isso mesmo: não pode ter um vestido igual porque aí o desgosto é grande.

Apois veja você que depois de tudo isso aí é preciso encomendar os botões, que podem ser cobertos pelos donos de armarinhos ou por uma ou duas costureiras que tem aquela maquininha de cobrir os ditos cujos, claro com o mesmo tecido que se fará o vestido para poder combinar direitinho. E aí fica aquela de vontade de ver os vestidos bem bordados com suas rendas, seus bicos, seus babados. Saias plissadas, godê. Decotes as vezes generosos dependendo do marido, noivo ou namorado e dos pais ou de quem quer mostrar a beleza do colo, evidente.

Ah, dá até saudade do condenado que vai nos pés fazendo calo a ponto de não dá nem pra chegar em casa. Pois bem, os mais prevenidos já passam vela no couro naquela parte onde fica o calcanhar pra amolecer e não deixar o cabra na mão ou melhor, no pé com aquela bolha d´água que incomoda a ponto de quando estoura nem alivia, pelo contrário dói mais ainda.

E ainda está faltando comprar um rouge, um baton, uma base ou blush, uma sombra, um pó e quase tudo isso da Royal Briar, da Coty, L´Oreal Paris, Cashmere Bouquet, Francis, Nivea. Um frasco de Chanel Nº 5, Toque de Amor, Romance, Fleur de Rocaille, Azzaro, Eau Sauvage, Lancome e mais popular Cabochard vindos, na sua grande maioria, das casas Slopers que não só vendia cosméticos como joias, bijuterias e acessórios femininos. E aí a gente lembra de que havia aquelas moças que também se utilizavam de óleo de coco no cabelo, dependendo do calor dá para imaginar o resultado.

E tome saudade de uma banca no mercado que também vendia coisas pra homens. Uma brilhantina Glostora ou Gessy e os mais abonados a Dry Creem.  Ah, não pode faltar um pente Flamengo acompanhado de um espelho redondo com o escudo do time do coração, um cinto de couro com fivela dourada, um trancelim,  um perfume Lancaster, Seiva de Alfazema masculino, Topaze…

Ah que saudade da gota do aperreio de fazer as compras todas e ainda esperar o presente na noite do Natal. Homi, e ainda vem essa saudade boa da espera pelo dia deixando o desejo que chegue logo pra vestir a roupa nova, se enfatiotar todo e sair flanando – pronto, agora deu a gota com “flanar”. Aqui pra nós: faz tempo que eu nem leio essa palavra – faceiro parecendo ser o mais belo de todos ou a “mais linda criatura que meus olhos já viram” como diz a canção. Apois me dê uma licencinha que eu vou matar a saudade da máquina de costura de dona Rosa trabalhando horas e horas, as vezes entrando madrugada a dentro sob a luz da lamparina, e deixando as nossas roupas por último porque as freguesas sempre tem a preferência até porque elas ajudam a botar comida nossa mesa.

2 Pessoas comentaram
Grace Kelly

Eitha….”Fustão” estava adormecido na memória ao ler este memorial recordei a fala de minha mãe: é de fustao… tem coisa melhor em saber que nossas memórias são tão valorosas!

Aécio Medeiros

O tempo se vai mas para o nosso consolo as lembranças são imunes ao tempo.

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