O relógio da vida

Mariana RodriguesPsicanalista e Advogada e, nas horas vagas, cronista

O homem tentou colocar, numa caixinha que faz tic-tac, o tempo, e foi se perdendo dos sinais naturais que realmente marcam o compasso da vida. No relógio, o Amor não cabe, porque ele tem o formato certo que só encaixa nas atitudes, e quanto do nossos amor não coube em 365 dias? (calma! 365 dias se somam a mais 366 dias, até o dia em que não existiremos mais).

Quanto tempo dura um momento de agonia? (um instante que parece uma eternidade?) Aquela música que faz conexão com o ouvido e o coração, tem quantos minutos de duração? (já ouviu alguma música hoje?).

E um beijo apaixonado?

Quanto tempo levamos para amar e sermos amados?

Você custa mais a amar ou a odiar?

Quanto tempo levamos pra nos escutar?

Essas são perguntas que só respondemos quando nos percebemos. Será mesmo que a vida toda cabe naqueles segundos que estamos à margem do desespero? Ou só o que realmente importa compõe aquele famoso filme que passa na tela das nossas lembranças? (o que você lembra até hoje?).

Recentemente, eu aprendi que o verbo ‘AMAR’ faz um belo conjunto com a locução conjuntiva ‘APESAR DE’, e como isso mudou a gramática da minha vida. Quanto eu amei e fui amada Apesar de… . Isso me colocou num jogo de qualidade onde a quantidade já não me interessa.

Embrulhei a conveniência na caixinha que faz tic-tac e passei a ouvir o compasso do meu coração. Como dói qualificar o Amor e eliminar os excessos. E quanto dói se posicionar diante da vida pra assumir que ama apesar de…

Hoje eu cresci o suficiente pra poder me agarrar no que realmente me importa, enquanto ainda estou à beira do meu abismo particular. Hoje eu sei que a música que toca minha alma dura 3 minutos e 14 segundos, combinando com o valor de π (pi), e sei que valor é diferente de preço, sei também que os beijos que dou com amor são mais demorados e que abraço só presta apertado, e que eu levo mais tempo pra ler os livros que realmente me interessam.

O tempo não fala, não pensa, não sente, ele só existe, como um véu que nos envolve e nos convoca a sentir cada afeto que nos compõe. Assumir nossos dias nublados, nos permite ensolarar quando é preciso, e aprender que apesar da vida, a escolha é e sempre será amar.

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