O morcego

GILBERTO COSTA – Escritor, Poeta e servidor do INSS

Quando criança, dada minha origem rurícola, fui educado em tenra idade para o enfrentamento das adversidades. Conviver com animais peçonhentos como gias chocas, aranhas, lacraias e cobras cascavéis constavam das lições ministradas na cultura campesina. Guaxinins, gatos maracajás, papafigo, lobisomem, burrinhas de padre e assombrações não me assustavam. Amansar touros e jumentos brabos constava de meu ofício.

Não havia medo do escuro, posto que as ditas trevas noturnas me eram familiar. A lamparina não podia ficar acesa por muito tempo. A lua, nas noites em que estava cheia, era a única luz gratuita disponível. Contava com as estrelas quando a empanada das nuvens permitia. Na maioria das vezes, a escuridão era minha claridade.

As notícias escutadas no rádio de oito elementos (pilhas), dando conta de mortes por acidentes com carros me soavam como invenção. No campo não havia congestionamentos de automóveis. O trânsito não carecia de semáforos. 

Mas, havia um animal que me causava medo. Não tinha explicações plausíveis para o temor que ele provocava em mim. O fato de se propagar que ele era resultado de uma transformação do rato não se constituía em motivo. As histórias associando sua imagem a de um vampiro sugador de sangue de inocentes, principalmente crianças indefesas no sono, também não se constituía em causa. Sentia medo dele e pronto. A presença do morcego me fazia fraquejar. Minha coragem se exauria. Nada me impelia adentrar nas cavernas ou no armazém onde se depositava a ração do gado. Cresci sem saber do porquê de o morcego me assustar tanto. 

Hoje, logo cedinho, acordo com um barulho de asas no quarto onde estou hospedado. Acendo a luz e me deparo com um morcego tentando sair. Não sei como entrou. Um pavor se apodera de mim. Transformo-me na criança assustada do passado. Em frações de segundos, uma retrospectiva é feita. Meus instintos primitivos me armam contra a ameaça presente.

Descubro quase meio século depois, porque temia tanto morcegos.

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