O DIA EM QUE EU QUASE MORRI

Nadja Lira – Jornalista • pedagoga • Filósofa

Morrer é, segundo o dicionário, perder a vida; finar-se; fenecer; expirar; desencarnar. De acordo com a sabedoria popular, morrer é esticar as canelas; vestir o pijama de madeira; abotoar o paletó; ir morar na cidade de pés juntos; entregar a alma a Deus ou ao Diabo. Para mim, a morte é apenas a libertação da vida.

Para o filósofo alemão Martin Heidegger, todos os seres vivos nascem e morrem, mas o homem é único ser vivente a ter consciência da sua finitude. Para Michel de Montaigne, “meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade”. Para Epicuro, “Aquele que é plenamente feliz é imortal não tem preocupações, nem perturba os outros”.

Morre-se de muitas maneiras: de acidentes, doenças prolongadas, ou de forma súbita, quando a pessoa nem mesmo tem tempo para tomar algumas providências imediatas como quitar as contas, por exemplo, ou mesmo despedir-se das pessoas queridas. Também se morre de amor e esta é, sem sombra de dúvidas, a pior de todas as formas de morrer, porque embora morta, a pessoa continua a respirar.

Com minha experiência de quase morte, percebi o quanto a morte é cruel. Ela chega de forma sorrateira, silenciosa sem ser convidada e sem qualquer cerimônia se acomoda e não vai embora jamais, sem levar a pessoa a qual veio buscar.

Seja qual for a causa, a morte é algo certo e traumático para todos os seres vivos. Especialmente para os que ficam e sofrem com saudade do ser morto. Minha primeira experiência com a morte deu-se quando perdi o meu avô, após uma doença que o fez sofrer por um longo período. Eu tinha pouco mais de sete anos quando ele partiu, mas lembro-me perfeitamente de que me recusei a ver seu corpo adormecido dentro daquele caixão. Preferi guardar dele, a lembrança viva que me acompanha até hoje.

Percebi, com o passar do tempo, que a morte também é algo assustador e traiçoeiro. Desse modo habituei-me a não olhar o rosto das pessoas mortas. Foi esse o comportamento que adotei quando a minha avó, meu pai e outras pessoas queridas morreram. Não olhei seus mortos. Prefiro conservar das pessoas, a lembrança de seus rostos sorridentes, felizes, cheios de vida.

Foto Ilustrativa

Faz algum tempo que passei por uma experiência bastante traumática, porque sempre acreditei que estava pronta para enfrentar a morte sem medo dela. Imaginava que chegando a minha hora, eu iria com ela sem me fazer de difícil. Contudo, asseguro que não foi nada agradável ver-me frente à frente com a dita cuja.

Tudo aconteceu de maneira muito rápida e apavorante. Eu, que me imaginava morrendo em grande estilo, embora não tenha ideia do que seja morrer em grande estilo, quase perco a vida da forma mais estúpida possível: graças a um insignificante engasgo provocado por um refluxo.

O engasgo fechou minha garganta impedindo-me de respirar por um tempo que me pareceu interminável. Enquanto eu me debatia na vã tentativa de restabelecer minha respiração, vi toda a minha vida passando diante dos meus olhos. Enquanto as cenas da minha vida passavam diante de mim, eu pensava no que havia feito de bom, o que deveria ter feito melhor e, principalmente no que planejava fazer e que não teria mais tempo. Muitos dos meus projetos para o futuro ficariam inacabados e eu sequer podia negociar com a morte um pouco mais de tempo.

Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de soprar o meu nariz. E assim o fez. Soprou nas minhas narinas, um sopro tão fraquinho, mas foi o suficiente. Tal iniciativa foi determinante para que eu voltasse a respirar, quando já estava prestes a desfalecer. Minha mãe deu-me a vida uma segunda vez.

A morte, sem alternativa, também decidiu me dar uma nova chance e eu decidi mudar meu estilo de vida: a primeira providência foi a de tentar viver livre de estresse, mais relaxada. Vou tentar sorrir mais, brincar mais, amar mais, tentar ser uma pessoa melhor, enfim, vou procurar viver com mais intensidade porque no dia que a morte voltar, não sei se terei como escapar outra vez e fatalmente serei obrigada a mudar-me de mala e cuia para fixar residência na cidade de pés juntos.

2 Pessoas comentaram
Marli Frieda Augusta Feeken

Belíssima reflexão sobre o nosso sopro divino, a nossa vida!

Angela

Querendo ou não, não temos escolha. Demorada ou súbita, a morte sempre trás dor e sofrimento. Deveríamos encarar de boa, pois é a única certeza que temos…mas, queremos passar longe

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