​O Brasil nos cansa

Cefas Carvalho – Jornalista e escritor

No belo show do amigo cantor e compositor Yrahn Barreto, realizado no Teatro Riachuelo na quinta-feira​ passada,​ em celebração ao gênio Sérgio Sampaio, uma frase dita por Zeca Baleiro, que teve participação ​afetiva e ​especial, me chamou a atenção: “O Brasil é um país maravilhoso. Mas o Brasil nos cansa”, ou algo assim.

Eu havia pensado nesse assunto há alguns dias, quando um amigo comentou que sentia saudades de textos meus mais bem humorados, aquelas crônicas ou reflexões sobre o cotidiano. Refleti que estava com vários textos neste sentido em andamento; análises sobre comportamento masculino, anedotas de bar, mal entendidos, ​contos sobre amor e desamor; ​enfim o leque de temas proporcionado pelo dia a dia e pelos encontros e desencontros. Por que não terminei e​/ou​ publiquei estes textos, portanto?

Justamente porque o Brasil cansa. Mesmo na quinta-feira do show, pouco antes de eu sair de casa rumo ao teatro, li sobre o indulto que o despresidente havia concedido (inclusive publicando em edição extra do Diário Oficial da União, em pleno feriado nacional) ao deputado federal Daniel Silveira, condenado pelo STF a oito anos de prisão​. Silveira, o brucutu que se celebrizou por quebrar a placa com o nome de Marielle Franco, havia ofendido de maneira grave os ministros do Supremo, principalmente Alexandre de Morais. Em clara provocação ao STF e no in

tuito óbvio de proteger a gangue, o despresidente recorreu ao perdão presidencial ao elemento.

No dia seguinte, ainda em estado de graça com o show de Yrahn e Zeca, sou bombardeado com a notícia que Bolsonaro estudava aplicar também o indulto a outros bandidos como Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Roberto Jefferson. O ânimo para escrever sobre a apresentação musical e as histórias curiosas que ouvi durante toda a noite evaporaram. Como disse Zeca Baleiro, o Brasil nos cansa. E esse cansaço compromete a leveza que queremos ter muitas vezes.

O Brasil nos cansa também no cotidiano; o preço abusivo e absurdo da gasolina, que afeta não só a quem tem carro e tem que encher o tanque mas toda a cadeia produtiva e econômica. Cansaço ao entrar numa fila de supermercado com uns pouco itens, uma carne, verduras, frutas, material básico de limpeza e ver que o total deu cem reais. Ver gente querida tão qualificada e produtiva sem trabalho, procurando emprego desesperadamente. Cansaço maior ainda em ver os direitos sendo retirados, um a um, em conta gotas, para que não os sintamos de uma vez e para que parte de nós ainda acredite que é para o nosso bem.

O Brasil cansa. Com sua elite econômica insensível, certamente uma das mais burras e canalhas do mundo, que se refastela nos baixos impostos para compra de iates e aviões particulares enquanto posta nas redes sociais contra Lei Aldir Blanc e Rouanet e despreza Bolsa Família.

É o que temos hoje. Um país maravilhoso de duzentos milhões de almas que após eleger um ex-metalúrgico e uma mulher que lutou contra a ditadura militar para a presidência, caiu no conto da não-política e do “combate à corrupção” e escolheu um miliciano golpista para o cargo máximo do país.

O Brasil nos cansa, mas em ano eleitoral o que não pode nos cansar é a luta para retirar do poder o projeto fascista em curso. Descansemos todos em 2023, pois a hora é de dialogar com os indecisos, estimular que jovens entre 16 e 18 anos tirem o título eleitoral. Entre uma e outra batalha, arriscamos uns textos bem humorados e amenidades do cotidiano, pois faz parte da vida para quem sigamos na luta. Cansados, sim, mas esperançosos de dias melhores.

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