O homem que tinha caderneta para anotar gente ruim…

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Desconfio muito de folclorista, jornalista ou pesquisador sem uma caderneta para suas anotações de viagens. Conheci um ‘pesquisador’ dos tempos modernos, o qual nem uma caneta tinha no bolso, quanto mais papel para anotações. Gravador a tira colo e máquina fotográfica, como eu, nem pensar. Ele me dizia se desculpando, que tudo estava anotado em sua cachola, parecia até um HD de computador de última geração. Um dia, ele precisou escrever sobre uma tal viagem, e logo me pediu emprestadas minhas anotações e, diante de minha negativa, morreu meu inimigo.

Papai dizia-me desde pequenininho para eu ser muito prevenido e não pedir emprestado nada a ninguém: “Só pegue na rodilha, se puder com o peso do pote!”. São essas anotações antigas em cadernetas, cadernos e agendas que vem me dando munição para muitas histórias daqui até o final de minha vida. Tenho uma ótima memória, segundo meus médicos, mas como matuto desconfiado ainda anoto em papel os pormenores de onde vou. O diabo é quem confia em computador…

E com o sertanejo nordestino, ele, o tal capeta, não quer prosa alguma. Sabe-se que a batalha do bem contra o mal é muito árdua e exige muita criatividade. É preciso ser um preá muito esperto para não cair facilmente em quixó bem preparado para nós pelos ditos desafetos. Quando se fala em porta de bodega sobre gente ruim, vem logo a comparação com o coitado do diabo: “É o diabo em carne e osso… são o diabo em figura de gente… para ser o diabo só falta o rabo…”. Um saudoso amigo de trabalho gostava de contar a história de que Dom Helder Câmara havia um dia defendido o diabo quando estava sendo comparado a uma pessoa muito má lá em Recife/PE: “Pelo amor de Deus, não compare essa pessoa com o pobre do satanás, que esse não é tão ruim assim!”.

Todo esse ‘cerca Lourenço’, como se dizia na minha feira do Alecrim em Natal ou ‘um intencional arrodeio’, falado no mercado em Macau, é só para me referir a dois nomes: João de Aquino, de Macau e Pedro Antas, de Pedro Avelino. Cada um com suas proezas e mil e uma histórias para afugentar gente ruim de seus convívios diários. Conheci o velho museólogo macauense ‘seu’ João de Aquino, levado pelo amigo Floriano Bezerra, o qual, no caminho do museu, foi logo me alertando para não dar risadas e nem muito menos duvidar das histórias e explicações dadas pelo referido dono do local. Era um tipo magro, negro e ranzinza. Depois de saber de qual família eu pertencia, a conversa foi imediata: “Tenho peças aqui que pertenceram aos seus ancestrais!”. Relíquias quase sem placas indicativas, mas ele sabia de cada peça, do tempo e a quem tinha pertencido. E não aceitava, sob hipótese alguma, ajuda para organizá-las ou limpá-las: “A última ajuda que me fizeram aqui, quebraram e me roubaram muitas coisas antigas!”.

Museólogo macauense João de Aquino da Silva – Foto: Alfredo Ramos Neves

Quando observei e questionei uma lista de nomes de pessoas em uma placa escrita no alto da parede da entrada do citado museu, com proibição expressa para não entrar no seu recinto, ‘seu’ João, esbravejou em minha cara: “Tem gente aí que já morreu, mas não sai da lista nem a pedido do Papa. Nem a alma deles aqui nesse museu entram. São nomes de gente ruim que me desrespeitaram e me pediram emprestado coisas daqui e não me devolveram”. Saí naquela manhã de sol forte, da presença do saudoso João de Aquino, imaginando se na entrada de nossas casas tivessem uma lista dos desafetos e gente ruins, proibidas de conversas em nosso paraíso domiciliar…

Já o Pedro Antas, conheci através do amigo historiador e folclorista Severino Vicente, em visita a cidade de Pedro Avelino. Nascedouro dos dois citados. Velho demasiadamente sincero e apreciador de objetos antigos de sua cidade. Irmão do saudoso e querido padre Antas. Na ocasião, o que mais me chamou a atenção foi sua maneira de se livrar de seus desafetos bem declarados e escritos em uma antiga cadernetinha de arame nas bordas, para anotações gerais. Uma caneta bic azul para novas inclusões de nomes. Uma raiva e o nome ia sendo escrito. Devido a quantidade sempre crescente, ‘seu’ Pedro ia dando uma vista nos nomes anotados antes mesmo de dar um bom dia as pessoas avistadas em seu caminho. Caso alguém estivesse fichado em seu ‘SPC’, o velho ranzinza e verdadeiro, não lhe dava a mínima atenção. Já diziam no Sertão, que não gastassem saliva com gente ruim e nem vela com defunto que não prestasse… era o código do viver sertanejamente, o qual não foi anotado na caderneta de campo de Euclides da Cunha. Este, vendo somente a sua fortaleza e a sua crendice mística!

Historiador e folclorista Severino Vicente – Foto: Canindé Soares

E recentemente, conversando com Severino Vicente, esse me deu boas e más notícias do bravo quixotesco Pedro Antas, seu querido conterrâneo. A boa é que o velho está vivo, como nós. Escapou a variadas doenças e vírus e consequentemente a quase todos desafetos, pois muitos já se foram desta para o mundo do além. Viagem sem volta, como dizem muitos descrentes. Já a má notícia é que o mesmo anda esquecido, quase não reconhecendo os verdadeiros amigos dos tempos antigos. O pior é que a sua famosa caderneta, a qual deveria ser patrimônio histórico e cultural do Estado do RN, já foi rasgada por uma de suas filhas…

Defendo aqui e agora, que certas pessoas, urgentemente, tenham seus nomes escritos com louvor e justiça nos livros que se ocupam dos patrimônios históricos de cada cidade. Que não demorem com burocracias e desculpas amarelas. Nomes históricos de alta relevância. Antes mesmo que a desgraceira dos plantonistas dos diabos, queimem, nossa história em papel e memória de vez!

E que as nossas crianças do futuro, não digam, que era uma vez as anotações das velhas cadernetas das pequenas comunidades. Aonde estão as receitas da vovó? Os conselhos e máximas do vovô? As orações das santas rezadeiras? As receitas caseiras para curar as doenças do “doutor Raiz”? E que ninguém fique sem contar as belíssimas histórias de trancoso, valentias e assombrações, que tanto eu ouvia em Pendências, na calçada, antes da luz do motor ser desligada.

Aonde estão as receitas da vovó?

Só penso nas crianças agarradas e tristes na internet, por falta de assuntos, que estavam anotados e foram maldosamente rasgados pelo futurismo da globalização midiática diabólica: “Era coisa de velhos, sem serventia alguma!”.

                                  Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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4 Comentários

  • Mané Beradeiro disse:

    Excelente! Nossas memórias, nossas histórias..Parabéns

  • Terezinha Tomaz disse:

    Leitura maravilhosa pra um dia de domingo!

  • Didi Avelino disse:

    Gutenberg Costa, de quem me tornei leitor e admirador, antes de tudo é um maravilhoso contador de histórias.
    Ler um texto seu equivale a comer um pudim pelas bordas, com pena de acabar. Uma delícia, as suas histórias e reminiscências.
    Que São Saruê lhe conserva a saúde plena, o bom humor, e essa verve magnífica de nos contar histórias, cada uma melhor que a outra.

  • Risalva+Brazão disse:

    Santas cadernetas! Quem não tem uma?
    Ainda fico com a garantia dos registros físicos que confiar unicamente nos virtuais.

    Adorei a crônica!👏👏👏👏

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