E Elza ganhou a Copa

Alex Medeiros -Jornalista ( [email protected] )

No dia 11 de maio de 1962, os potiguares acordaram lendo e ouvindo três notícias que se destacavam nas pautas dos jornais e das rádios. A primeira era que o RN passava a ter novas três cidades: Santana do Seridó, desmembrada de Jardim do Seridó; Timbaúba dos Batistas, apartada de Caicó; e Felipe Guerra, desligada de Apodi. A segunda notícia era a surpresa do vigoroso zagueiro Piaba, estreando pelo Atlético Potiguar contra seu ex-clube, o ABC.

E a terceira notícia era uma manchete do Diário de Natal e que durante uma semana foi repetida na programação da Rádio Poti. “Elza Soares, a Bossa Negra, sexta-feira na Rádio Poti”. No sutiã da matéria, “Dois grandes espetáculos realizará a grande intérprete da nossa música popular – exibição também no ABC”. Ou seja, além de cantar na rádio, iria também na sede do clube alvinegro, obviamente acalmando a dor de cotovelo por causa de Piaba.

No ano anterior, 1961, Elza tinha sido considerada pela mídia a maior revelação do samba e ganhara o apelido de Bossa Negra por cantar também o gênero de João Gilberto, influenciada pelo marido e baterista Milton Banana.


Ela explodiu em escala nacional em 1960 quando Aloysio de Oliveira, marido da cantora Sylvinha Telles e diretor da gravadora Odeon, a levou para gravar dois LPs naquele mesmo ano: Se Acaso Você Chegasse e A Bossa Negra.


Chegou em Natal no embalo do terceiro disco, O Samba é Elza Soares, e exatamente naquele 1962 foi o único ano em que não gravou nenhum disco num espaço de uma década (1960-1970). Mas foi o ano do seu grande amor.


Conheceu Garrincha em 1961 quando foi convocada para usar sua popularidade em favor do craque do Botafogo, que disputava o título de “melhor do Rio” contra o vascaíno Bellini numa promoção do Jornal dos Sports.


A presença de Elza pedindo votos e torcedores comprando edições em quantidade fizeram Garrincha superar na reta final uma vantagem de mais de 20 mil votos do zagueiro do Vasco e capitão da seleção na Copa de 1958.


A vitória eleitoral nos cupons do jornal deu a ele um Sinca Chambord 0km e Bellini ficou com um terreno. Para recompensar Elza, passou a levar para a casa dela sacos de feijão e outros nutrientes, já que havia desabastecimento.


Aquele maio de 1962 em que ela cantou em Natal foi o início da paixão por Garrincha. Ao visitar a concentração da seleção brasileira, antes do embarque para o Chile, os dois trocaram um beijo de boca antes de Elza voltar ao Rio.


Próximo da Copa, a saudade bateu no anjo das pernas tortas e de Pau Grande. O jornalista Mário Filho e o poeta Thiago de Mello testemunharam e sugeriram a Nilton Santos pedir aos dirigentes que chamassem Elza Soares.


Ela estava cantando num balneário de Valparaíso, perto de Viña del Mar onde ficava o time. Aí foi um pulo. O Garrincha borocoxô das duas primeiras partidas acordou vulcânico, e prometeu num beijo: “eu vou ganhar essa Copa pra você”.


A variedade de jogadas que ele fez, os gols espetaculares de cabeça, de falta fora da área, petardos com efeito, estão há 60 anos repassando nos olhos da nação. Carregou a seleção nos pés e nas costas por ele e por Pelé, ausente.


A ideia fundamental de trazer Elza Soares para perto dele e liberar uns tragos de álcool antes do almoço no hotel turbinou um jogador que já era mágico por natureza, posto que só mesmo a natureza para fazê-lo craque naquele corpo.


Elza e Garrincha viveram juntos 17 anos numa relação apaixonada, controversa e até violenta. Tiveram no universo do futebol e do samba a versão tropical de Romeu e Julieta, com todos os elementos amorosos e dramáticos.


Na quinta-feira, pouco tempo antes de apagar, ela disse aos familiares: “eu vou morrer, vieram me buscar”. E fechou os olhos na mesma data da morte do grande amor, 39 anos depois. Não duvidem, eles já estão juntos de novo.

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