DIA DO RISO

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Eu nem sabia que existia um Dia Internacional do Riso. Soube através do meu amigo Gutenberg Costa que me enviou o registro. Ele usa daquelas folhinhas antigas do Sagrado Coração de Jesus, com efemérides, santos do dia, fases da lua e assim sabe tudo o ano inteiro, tipo o Lunário Perpétuo que minha mãe consultava. Assim, fiquei sabendo. Dia 18 de janeiro. Dia de dar risadas de qualquer coisa, inclusive – e muito importante – de nós mesmos.

Umberto Eco escreveu O Nome da Rosa, romance ambientado na Idade Média em uma abadia que guarda uma rica biblioteca. A trama é em torno de um suposto livro perdido de Aristóteles que falava do riso e do bom humor. Para ocultá-lo e condenar o riso algum monge mal-humorado comete assassinatos em série. A revista Seleções do Reader’s Digest que eu lia em criança trazia uma página chamada Rir é o Melhor Remédio com algumas piadas bobas, mas divertidas. Os palhaços, antigos como a civilização, mantêm viva a tradição de fazer rir adultos e crianças. Os bobos da corte tinham a difícil missão de fazer permanente o bom humor do rei. E ai deles se o monarca não entendesse a piada. Triboulet (século XV) foi um bobo famoso. Uma ocasião, condenado a morte, o rei ordenou que escolhesse a forma de morrer. Triboulet não titubeou: – Escolho morrer de velhice.

No cinema, grandes bufões. Vi todos durante a minha infância. Os Três Patetas faziam rir trocando sopapos. Cantinflas era um ator mexicano que usava a calça caindo pela bunda e um proto-bigodinho nas laterais dos lábios. Jerry Lewis me fez chorar de rir nas matinês do Cine Poti. Acusado do desaparecimento de um cruzador, abriu os braços e gritou em meio aos oficiais: – Podem me revistar…! Genial. Chaplin é hors concours. O maior de todos, com seu chapéu coco e bengalinha. E ainda se dava ao luxo de fazer crítica social como em Tempos Modernos e o Grande Ditador. Por falar em tempos modernos, Jim Carrey é meio que herdeiro de Jerry Lewis nos trejeitos, nas caretas e no talento.

No Brasil havia uma porção de ótimos comediantes. Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Mazzaropi, Dercy Gonçalves, cada um em seu estilo. De todos, fui fã de Oscarito. Os mais idosos devem lembrar as filas que se formavam para ver as ditas chanchadas da Atlântida, que apresentavam, inclusive, os cantores-galãs de uma época sem televisão.

A TV absorveu toda essa gente. Ronald Golias e Jô Soares fizeram a família Trapo. Vindo do nordeste, Luís Jacinto criou o ótimo personagem Coronel Ludugero. Do nordeste também, o gênio de Chico Anísio criou Chico City, com uma infinidade de personagens que seu talento dava vida. Coronel Limoeiro, Azambuja, Canavieira, Coalhada, Alberto Roberto… Além disso, com A Escolinha do professor Raimundo deu oportunidade a artistas novos e veteranos. Antes de se dedicar a entrevistas Jô Soares tinha um programa, o Viva o Gordo, também com alguns personagens marcantes. Raul Gil, poucos lembram, começou a carreira contando piadas nos programas de auditório. Renato Aragão e os Trapalhões durante anos foram donos das tardes de domingo, com um humor simples e engraçado.

Lembro-me das sessões do Cinema Rex. Antes do inicio dos filmes havia um jornal, acho que Canal 100. Nele passavam os atos oficiais, desfiles e inaugurações. Um gaiato que havia assistido à sessão anterior marcou o momento em que Juscelino Kubitschek subia as escadas do avião e parava no alto, se voltando para os seguidores. Não fez por menos. Quando o presidente atingiu o alto da escada ele gritou: – Juscelino! Juscelino voltou-se. O gaiato então liberou: – Nada não, nada não. E Juscelino, enfim, entrou no avião para o delírio da plateia do cinema. A Condor Filmes abria as sessões com o enorme pássaro que erguia voo e batia asas até sumir no horizonte. Batata: era sempre enxotado aos gritos pela plateia. Havia um homem engraçado que usava chapéu e nessa hora erguia-se e espantava o condor aos gritos de xô, e agitando furiosamente o chapéu. Tem mais. Ao fim dos trailers alguém sempre gritava: – Eu venho! Alguns respondiam: – Eu também! Mas a coisa evoluiu e passaram a acrescentar: – Traga sua mãe! Até que um espirituoso acrescentou, atalhando o xingamento e acabando aquela brincadeira: – Eu venho e trago minha mãe! Parece besta, mas era divertido, acreditem.

O jornal O Pasquim, durante os anos da ditadura, reuniu um grupo de humoristas e fez do humor uma peça de resistência. Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Henfil, Millôr. Millôr que havia sido dono de uma seção da revista O Cruzeiro chamada Pif-Paf, profetizou (errado) no primeiro número: “- Se essa revista for independente não dura três meses, se durar três meses não é independente.” E avisou:  “- Nós, humoristas, temos bastante importância  para ser presos e nenhuma pra ser soltos.” Algum tempo depois a turma toda foi presa pelos agentes do regime.

É isso. Acho que humor é sempre contra o estabelecido. Humor a favor não tem graça nenhuma. Humor subsidiado, oficial, chapa branca? Já observaram que líderes autoritários são sempre mal-humorados, casmurros, truculentos? E esquecemos o ataque cruel à revista francesa Charlie Hebdo? Talvez por isso eu não consiga rir com nada que a TV me apresenta hoje. O último bom programa foi Casseta & Planeta. Ou talvez porque o país esteja também mal-humorado, sem graça, triste, macambúzio. Difícil rir com as figuras que estão aí, rir da miséria, do desemprego, dos absurdos, da ignorância institucionalizada. Não há como rir do vírus.

Mas a gente insiste em manter o bom humor e buscar motivos pra boas risadas, seja em uma conversa com amigos, partilhando boas lembranças, na esperança de qualquer dia desses podermos rir de verdade, ou, como diziam antigamente, a bandeiras despregadas. Parodiando o poeta amazonense Thiago de Mello que nos deixou no dia 14 deste mês: Faz escuro, mas eu rio.

O autor dessa crônica, Nilo Emerenciano e sua família (a foto postada é de total responsabilidade do editor do blog)

NATAL/RN

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