AINDA DE CARNAVAL:  Um certo Carnaval em Mipibu

Lúcia Amaral – Escritora e professora aposentada (Texto publicado no Jornal O Alerta – Edição nº 450 – Fevereiro de 2015).

A década de 80 foi muito produtiva para o Carnaval mipibuense. Foi a época da proliferação de agremiações carnavalescas, quando surgiram no cenário momesco, As Fofoletes, O Fuxico, O Skulaxo, Os Kassakus, Os Apaches, Os Yunkars, A Gabriela, Os Foliões do Samba, O Bloco dos Bichos, As Nêgas Baianas e outros que me fogem à memória.

Nas fotos: Bloco de elite, Skulacho – Reinaldo Cruz,  Souza, João Evangelista, Adriana Amaral,  Cláudia Cruz, Shirley, Zoraide Almeida e outros

Os Malandros do Samba já estavam no cenário carnavalesco da cidade, desde 1959, se bem que com denominações diferentes como Corsários do Amor, depois Corsários do Samba, até ficar com nome definitivo de Malandros do Samba, até hoje.

Foi a época das orquestras de metais, e muitas vezes o nosso Carnaval foi feito com a própria Banda de Música Municipal que era bem estruturada, levando o povão ao delírio com os grandes frevos pernambucano.

As ruas de São José não eram “ornamentadas” como hoje. Em compensação a frente da Matriz (naquela época não havia nenhuma objeção em se ocupar aquele espaço) se tornava o “território sagrado de Momo”, nos quatro dias de folia, enfeitado e iluminado, congregando a massa humana que para lá se deslocava, tal era a magia dos frevos e a cadência do samba executados.

 No palco armado em frente à Igreja no sábado do Zé Pereira, acontecia a abertura oficial dos festejos, feita pelo Prefeito Municipal, que entregava as chaves da cidade ao mandatário da alegria nos quatro dias de Carnaval – o Rei Momo – escolhido por votação ou indicado, por ser o mais gordo.

Premiação dos melhores do Carnaval – Palco armado na “Praça do Coreto” (assim era chamada a Praça Aurélio Pinheiro – hoje, Praça Desembargador Celso Sales). Vemos o então prefeito Janilson Ferreira, Agenor Xavier, Tamires Peixoto, Leide Peixoto, Carlos Cruz, Severino Coutinho, Eliene Amaral, Norma Ferreira, Eurídice Pithon,  professora Maria do Ó Moura,  Carmezinda de Lulu, entre outros.

Nos dias seguintes (domingo, segunda e terça-feira), a rua se transformava no espaço livre e democrático da imaginação humana, com seus Papangus – às vezes não tão engraçados pela irreverência – alegres com seus trejeitos que levava o público à gargalhadas, mexendo ora com uns, ora com outros!

De repente, surgiam as tribos de índios Tupis Guaranis com o Mestre Graciano e sua família, Os Apaches com o saudoso José Estevão também com a sua família, todos com a sua coreografia característica, culminando com os Tupis Guaranis realizando a tão conhecida “morte do caçador” na terça-feira, produzindo ainda um êxtase no público que assistia, sem se importar de já ter presenciado o mesmo fato em carnavais anteriores.

Tribo de índios Os Apaches de José Estevão
Pajé da TriboTupis Guaranis, Graciano
Índios Tupis Guaranis aprisionando o caçador

Subitamente todos olhavam para o mesmo lugar de onde “ela vinha” majestosa e elegante nos seus mais de dois metros de altura – A Gabriela, obra do laborioso José Corsino – (in memoriam) trazendo consigo uma legião de seguidores e admiradores do Carnaval.

Seguidores da Gabriela, de José Corcino

Era uma época em que ainda se vestia fantasias – lindas por sinal – evocando as civilizações antigas como a Grécia e Roma, além dos mascarados arlequins, pierrôs e colombina. Época dos “corsos” (hoje carreatas) e da “lança perfume”, das batalhas de confetes e serpentinas, do Bloco dos Bichos, de Seu Manoel Gomes  (responsável em transportar água da caixa d’água para as residências e só tinha um braço) que ficou depois com ‘Seu’ Jaime do PA; das Nêgas Baianas, de ‘Seu’ Manoel Carneiro e sua irmã Dona Maria Carneiro, e outras agremiações que não lembro.

Era a glória!!! O Carnaval de São José era famoso e conhecido nos meios “radiofônicos” e jornalísticos do Estado, como um dos melhores Carnavais do interior.

Escola de Samba ‘Foliões do Samba’ de Laranjeiras dos Cosmes, entre eles, Manoelzinho da Credi Móveis

Atentem para o detalhe: essa foi a época do final de uma administração política que, mesmo o seu representante gostando de Carnaval (certa ocasião ele juntamente com mais dois amigos compareceram a um baile na Associação Esportiva Mipibuense, fantasiados dos três Reis Magos), não era muito generoso nas “doações” da Prefeitura para ajudar os blocos carnavalescos do município e os motivos dessa atitude, preferimos omitir, pois não vem ao caso.

Ao assumir, seu sucessor não gostava de Carnaval, mas credenciou uma equipe para fazer frente à organização do evento. Foram criados mecanismos como a COC -Comissão Organizadora do Carnaval. Oficializou-se o apoio financeiro às agremiações, a ornamentação do centro da cidade era imprescindível e assim, fluíam mais blocos de rua e a participação do povo era bem maior. Na quarta-feira de cinzas, havia a premiação dos blocos vencedores com uma “nova noite carnavalesca” para o povo.

Assim podemos concluir que por incrível que pareça, esse Carnaval que relato, aconteceu na cidade de São José de Mipibu nas décadas de 70/80.

Éramos simples, felizes e inocentes mortais carnavalescos contagiados pela magia da festa, e despreocupados em receber (ou não) a doação da Prefeitura para brincar, pois o nosso Carnaval era mais profundo, pois vinha da alma.

NOTA:

  1. Eu posso falar isso de cátedra, pois – na época – era a Secretária de Educação do Município, (não havia Secretaria de Cultura) – e coordenei pessoalmente o evento.
  2. Todas as fotos são do arquivo particular de Maria Lúcia Amaral

         Obs.:  Maiores detalhes do assunto  no  livro ‘No Rastro dos Moppebus (Inédito) e no www.pelastrilhasdahistoria2blospot.com

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1 comentário

  • Didi Avelino disse:

    Feliz é a cidade que tem entre os seus filhos ilustres uma professora, escritora e historiadora, dedicada a registrar fatos marcantes, histórias e memórias. Parabéns à querida Lúcia Amaral pela obra e amor à São José de Mipibu.

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