NÓS, OS PERUS

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Nada de peru com termômetro-apito que avisa quando tá pronto. Nem chester ou outro tipo de ave inventado para o jantar de Natal. Os perus nos tempos de antigamente – pelo menos na minha casa – eram aves de verdade, trazidas do interior pelo meu avô logo no mês de agosto. Essa antecedência era pra que houvesse tempo de engordar os bichos que em dezembro deveriam estar tinindo de gordos. Enquanto isso iam ficando no quintal, amarrados por uma perna a uma goiabeira como condenados.

A gente sem o que fazer ia mexer com o nosso futuro jantar, assobiando para ouvir a mesma resposta dezenas de vezes: glu, glu, glu.  E o diabo era que os bichinhos não colaboravam, fazendo greve de fome, mal comendo o xerém que lhes era destinado.

Aí entrava em cena minha tia Dora, com a delicadeza que lhe era peculiar. Puxava um banco e chamava: – Venha cá, bexiga lixa! Trazia na mão vasilhas com água e comida. Pra começar, imobilizava a ave pisando sobre os dois pés, forçava o bico da pobre com o cabo da colher e empurrava bolos de comida pela goela abaixo. Depois despejava água pelo mesmo caminho e chacoalhava a cabeça e o pescoço em um só movimento. Essa operação se repetia até o papo estar lotado. – Esse maluco da moringa vai engordar por bem ou na marra, ora se vai. E isso era feito até a véspera do Natal, quando o peru era executado e preparado para a ceia.

Como esquecer essas coisas?  A cara de desespero do peru? Os olhos medrosos como os de Fábio Wajngarten na CPI, as patas agitadas, o glu, glu, glu aflito, as tentativas de se libertar daquele jugo?

Porque lembro os perus de Natal agora, quando estamos longe de dezembro? Acho que é porque tenho visto, mais do que o normal (?), nas ruas e esquinas, nas calçadas, nos canteiros das avenidas, nos semáforos, famílias inteiras a estender a mão pedindo alguma ajuda. Uns fazem o gesto de levar comida à boca. Alguns levam cartazes com apelos pungentes. Outros pedem para baixar o vidro do carro e contam, de forma tocante, a sua dificuldade. Um homem me fez um apelo desesperado, e seus olhos, meu Deus, me lembraram dos perus amarrados no quintal.

Agora, enquanto escrevo, a TV noticia a morte de uma criança de três anos de idade, motivada por agressões da própria mãe, na capital paulista. Há dias, uma menina no interior de Minas Gerais foi assassinada pela mãe e a companheira, além de ter sofrido torturas e maus tratos. O garoto Henry, de quatro anos, em plena zona sul do Rio de Janeiro sofreu também maus tratos e foi morto a pancadas. Em uma cidade pequena de Santa Catarina de lindo nome – Saudade, um jovem matou três crianças e duas professoras a golpes de facão. Há que se pensar sobre tudo isso.

Diariamente os telejornais entrevistam idosas que relatam já terem ido três ou quatro vezes ao posto de vacinação para voltar sem vacina, sem esclarecimentos, sem esperanças, depois de horas em uma fila onde não há sequer cadeiras que as ampare.

Pode ser também que a minha lembrança tenha sido provocada pela morte de vinte e oito pessoas em uma operação “bem sucedida” da polícia do Rio de Janeiro. Essas vítimas foram executadas sem julgamento, sem direito a advogado, sem chance de contraditório. Como perus.  

Há catorze milhões de desempregados. E – horror dos horrores – quatrocentos e vinte mil mortos em um desastre que poderia ter sido pelo menos minorado não fosse a incompetência criminosa do gestor maior. Ah, e quando esse gestor afirma não ter nada a ver com a pandemia, passeia de moto pelas avenidas de Brasília, nos chama de maricas, tenta nos empurrar goela abaixo a cloroquina, estimula, com palavras e atitudes, uma sociedade violenta, parabeniza a polícia pelo massacre de Jacarezinho, aí não tenho mais dúvidas e até evito olhar o espelho para não ver a minha própria cara.

Tenho medo de ver que estamos ficando cada vez mais parecidos com os perus de natal.  Amarrados, olhos assustados, aguardando ser abatidos lenta, dolorosa e impiedosamente. Foi nisso que nos transformamos ao que parece. Em perus. Uma nação de perus.

NATAL/RN

3 Pessoas comentaram
Santiago Nunes Dos Santos Filho

Nossa que texto ! Parabéns e desse jeito que devemos nos sentir. Como os perus de natal, realmente a realidade desses dias que estamos ainda vivendo.

Joaquim Tomé Ribeiro

Parabéns pelo belo texto.Tambem me reportou a minha infância,quando no natal tinha também essa prática. O que parabenizo o escritor dando uma maior ênfase,e o compativo bem sucedido entre o Peru e o social no qual estamos vendo essa triste realidade.Muitos perus indo para o abatimento sem chance de defesa.Mais sensacional ainda achei a referência feita a um presidente sem capacidade alguma de estar a frente do comando da nossa nação,se tornando de fato um grande genocida ao afirmar seu negacionismo a uma doença tão letal. Parabéns de verdade por esse lindo texto!

Angela

Belo texto. Nunca tinha pensado nesse paradoxo. Uma ave símbolo de um momento tão especial e festivo, pudesse se transformar em prisioneiros de um sistema cruel e sem respeito ao ser humano.

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