NÓS E A TECNOLOGIA

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Fala-se em 5G, multiverso, carros elétricos e voadores, edifícios inteligentes, inteligências artificiais e tantas outras coisas que imaginamos já viver no planeta Mongo, aquele do Flash Gordon. Aliás, quem tem grana já pode dar uma voltinha, só por diversão, ali na estratosfera e mandar selfs pros amigos. E pobre daquele que não se adequa a um mundo onde tudo (ou quase tudo) é feito via digital – CNH, inscrições em concursos, exames, contas bancárias, pagamentos – ou não tenha um Pix ou cod. Arrisca-se a ouvir dos netos: “- Pobre vovô, é um dinossauro…” Os namoros modernos também são por essa via. “Onde você conheceu fulana? – Foi em um site de encontros…”.

Tenho uma relação de atração e medo com esse mundo novo. Gosto dos confortos, da praticidade e das facilidades que os avanços trazem. Dia desses assustei-me ao  ver uma mulher conversar com o próprio punho. Será que despirocou? Descobri depois que ela se dirigia ao relógio, pois era com ele que atendia ao telefone. Quem diria. Coisa de 007.

O controle remoto, sem dúvida, é uma bênção. Desligar a TV na cara do Datena é um prazer sem preço. Ver o futebol sem correr riscos de ser atingido por uma lata de cerveja; ter um cinema em casa (sonho dos garotos da minha geração) sem correr risco de sentar em cima de chicletes; correspondência, biblioteca virtual, além de uma possível gráfica (scanner, impressora, etc.), tudo isso era impensável anos atrás. O celular faz tudo, até telefona. Sou arquiteto. O programa AutoCad revolucionou os escritórios de arquitetura. Desenha, calcula, faz perspectivas e tudo o que se possa querer. Adeus normógrafos!

Meu filho mora na China. Ligo o celular e faço uma chamada de vídeo. Aí converso com ele como se estivéssemos juntos. Só quem passou pela fila das telefônicas dos anos passados para conseguir uma ligação de má qualidade para falar com a mãe distante sabe o que isso significa.  

Claro que algumas coisas são insubstituíveis. Cinema na telona é uma delas. O prazer de uma boa conversa ao vivo, bebendo café e comendo uma tapioca, também. Teatro. A visita aos sebos para conversar com Jácio ou Verinha e garimpar raridades. Uma caminhada pelo centro histórico de qualquer cidade. Visitar uma igreja antiga. Ver uma apresentação de um artista da predileção ou descobrir novos talentos.

Igreja São Francisco de Paula: Luzes a partir de 11h

Às vezes essas coisas modernas conspiram contra nós e nossa ignorância. O celular chamando o dia todo sem fim, chamadas fraudulentas e aborrecidas. Vocês já descobriram como bloquear? Eu não.

Quis ver, como todo mundo, Marighella. Afinal li o livro de Mário Magalhães e passei a ver o personagem por um novo prisma, humanizado e despido do mito criado em torno dele. Acessei o site do cinema e vi o horário. Armei-me de paciência (o filme tem mais de duas horas e meia de duração) e parti para o Natal Shopping só para descobrir que o horário no Google estava errado e eu havia perdido a sessão. Perdi o filme, mas não a fé no mundo digital.

No dia seguinte teria que ir à Receita Federal resolver uma pendenga. Uma encomenda via postal havia ficado retida e nos Correios de forma educada informaram que só no escritório da Receita Federal conseguiria resolver. E aí mais uma vez fui ao Google descobrir que em Parnamirim havia um posto, e maravilha das maravilhas, o site informava até a distância da minha casa: 8 km, mais próximo que a Ribeira, outro extremo da cidade.  Parti feliz, no caminho abençoando todos os rapazes do Vale do Silício, pois me haviam economizado tempo e gasolina. A alegria durou até descobrir que o posto não existe há tempos. O moço muito educadamente informou que todos os dias aparecem incautos desinformados como eu. Ainda bem que na internet eu havia aprendido o conceito de resiliência, mantendo assim a serenidade. Respirei fundo e voltei sobre os meus passos em direção da Ribeira, sede da Receita. Lá, descobri, através de uma educada funcionária, que era a Receita Aduaneira a responsável pelo imbróglio. Menos mal que é ali próximo, na margem do rio Potengi, em frente às ruínas da Rua Chile. Fui muito bem atendido pelos funcionários educados que me informaram que só havia uma forma de resolver aquilo e essa forma era no site dos correios, exatamente onde eu havia começado tudo. Farto de tantos “nãos” educados e obviamente esbarrando em uma estrutura instransponível, mandei tudo – educadamente, claro – para aqueles lugares menos felizes da teologia católica. A tecnologia é de ponta, mas os carinhas que operam são do século passado na incompetência e descaso pelo cidadão.

Mais grave: um homem morreu enfartado, apesar de haver procurado o hospital e ter sido despachado para algum lugar que não aquele, em um evidente jogo de empurra. O tal do sistema foi apontado como culpado. O responsável da saúde deu declarações pífias falando em “portas de entrada”. Em outras palavras, o homem havia batido na porta errada, a porta de um hospital.  Quem falou isso nem foi exonerado como deveria. E responsabilizado. Criminalmente. Acho que depois do Covid-19 estão, quem sabe, banalizando a vida humana.  

Felizmente me resta o otimismo do Cândido de Voltaire e continuo a acreditar no mundo moderno. Afinal, as multas chegam pontualmente. As contas de luz, água, Cabo, condomínio, IPVA, IPTU, plano de saúde e tudo mais, não falham jamais. Isso é muita eficiência, é preciso reconhecer. Os postos de gasolina atualizam os preços (para cima) com uma presteza que dá gosto.

O presidente diz uma das suas besteiras e imediatamente o dólar sobe e a bolsa cai. E já paira no horizonte o fantasma daqueles eficientes funcionários de supermercados sempre à nossa frente remarcando os preços dos tempos da inflação, lembram? Deve ser isso o tal do admirável mundo novo. Esconjuro, mangalô três vezes, assim mesmo, à moda antiga. Afinal, só o sangue de Jesus tem poder!

NATAL /RN

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