Neste mesmo dia no próximo mês, no mesmo local

Cefas Carvalho – Jornalista e escritor

O quarto do hotel branco, moderno, frio. Ela odiava quartos brancos. E modernos. E frios. Mas, amava a cama imensa cheia de travesseiros. E as cortinas em tons de terra. E a banheira. O Uber falando sem parar. Sobre o governo, sobre o tempo, a partida de futebol. Ele odiava conversar com desconhecidos. Odiava táxis, veículos de aplicativos. Amava os prédios passando por pelos seus olhos, como se os edifícios estivessem em movimento, não ele próprio a bordo do veículo.

]Ela amava lingeries. De todos os tipos. Dos mais comportados e insinuantes aos mais provocantes. Odiava a cor vermelha. Não sabia por que comprara um conjunto desta cor. Usaria o preto. Ele odiava recepcionistas de hotel. Odiava a educação polida e mecânica. Mas amava elevadores. Amava a sensação de infinitude e ascensão que eles lhe proporcionavam. Quarto 701. Ele odiava números ímpares. Ela amava andares altos. Ele amava carpetes. Ela odiava paredes com pintura fosca.

Tocou a campainha. Odiava quando ela demorava a abrir a porta. Ela amava demorar alguns segundos até andar lentamente rumo à porta. A sensação de angústia e expectativa dele no corredor (deserto?) a excitava. Ele amava encontrá-la de lingerie. Naquele dia era um espartilho preto e cinta-liga. Ela amava vê-lo de paletó e gravata. Sabia que ele odiava paletó e só o usava quando ia encontrá-la. Cama King size, que ambos amavam. Ela amava que ele começasse as preliminares pelos pés dela. Ele amava quando ela o puxava para cima do corpo dela. Ela odiava unhas compridas, que podiam machucá-la justamente nas coisas que a apeteciam. Ele sabia disso, e passou a amar um cortador de unhas que comprou na Itália. Ele odiava a sensação da língua em seu ouvido. Ela o sabia e amava experimentar suas línguas em outras regiões do corpo dele. Ele amava quando ela murmurava palavrões, termos chulos. Ela amava quando ele ordenava que ela se virasse. Ela aprendera a amar quando ele derramava o gozo dele em seu rosto. E ele amava quando ela, após tanto amor, deitava a cabeça em seu peito. Ele odiava cigarro e amava que ela havia desistido de fumar, pelo menos quando estava com ele. Por sua vez, ela odiava perfumes fortes e ele passou a amar perfumes discretos. Ambos amavam ver a cama desarrumada. E amavam quando os corpos pediam mais.

Também ambos odiavam o relógio dele. E o despertador do celular dela apitando a hora de ir. Ele não odiava o marido dela. Odiava não ter coragem de pedir que ela se separasse dele. Ela odiava a si mesma, por várias razões. Pelo marido, nem amor nem ódio. Indiferença. E odiava que o homem à sua frente não tomasse decisões. Eu amo você, disse ele bastante sério. E eu odeio você, disse ela, sorrindo. Ele riu. Mas, odiava aquele tipo de brincadeira (ou jogo). Ela amava quando ele ficava inseguro. Ele odiava quando desciam juntos e o momento de acompanhá-la ao táxi. Ela amava essa gentileza dele, mesmo com a tristeza da partida. Ele odiava o momento de dizer sempre a mesma frase: Daqui a um mês, neste mesmo local? Ela amava lembrar que em trinta dias passariam por aquilo tudo novamente. Sim, neste mesmo dia no próximo mês, neste local. Gosto daqui. Eu gosto é de você, pensou, sem abrir a boca. Odiava quando queria dizer algo e as palavras não saíam. Odiava o beijo derradeiro, discreto, quase mecânico, de despedida, em público. No táxi, ela odiava a música romântica melosa no som do veículo. Mas amava o silêncio tranquilo do motorista, um senhor grisalho com cara de avô.

Neste mesmo dia no próximo mês, naquele mesmo local, pensou ela. Odiou a sensação de ter de voltar para casa. Ele não pegou o Uber e entrou em um bar próximo ao hotel para uma cerveja. Odiava cerveja, mas não queria drinques naquele momento. Um mês passa rápido, disse a si mesmo, odiando a resiliência conformada que mais que prejudicava do que ajudava.

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