Nati Cortez: A pioneira natalense do cordel impresso

Maria Natividade Cortez Gomes no banco do jardim de sua residência na rua Felipe Camarão, 453, Cidade Alta/Natal, em 1980. Foto: Historianatividade

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Quem escreve sabe que é demasiadamente cobrado pelos seus leitores.  Você nunca mais tocou naquele assunto? Confesso que faz tempo que não toco neste tema, só de vez em quando eu troco algumas informações com o sério pesquisador de temas populares e grande amigo Kydelmir Dantas. Hoje, residente em seu chão nascedouro, Nova Floresta/PB, que rastreia o cordel nordestino há décadas. O referido escritor, como todo pesquisador, é irrequieto e sempre viaja, visita sebos e aonde quer que haja informações a respeito de suas pesquisas. Não conto suas visitas aos meus arquivos. E nem precisa dizer-lhes, que foi o dito o instigador que me deu o mote deste domingo. Como diz o sábio povo interiorano: ‘cutucou onça com vara curta’. E como dizem, não dê assunto a velho e pedra a menino, pois a desgraça vem ligeiro, como dizem.

Longe de querer ser crítico, mas atualmente percebe-se pouca seriedade, inovação e criatividade no âmbito das pesquisas do nosso antiguíssimo folheto de feira, como conheci na casa do primeiro grande vendedor e distribuidor desses, o saudoso casal seu ‘Antônio Emídio’ e dona ‘Maria Amélia de Jesus’, na Avenida Coronel Estevam, 325, no meu bairro do Alecrim.

Casa simples e desnivelada do calçamento da rua e frequentada por poetas, violeiros, folhetistas vendedores e colecionadores. Ponto de venda de folhinhas do Coração de Jesus, almanaques, livros de orações e os procurados folhetos e romances. Nos meados dos anos 70, eu chegava lá para comprar meus primeiros exemplares: – Dona Amélia, o que a senhora tem aí de novidades em folhetos? A palavra Cordel não era usada ainda nas feiras e mercados. Eram mesmo, os folhetos ou romances. Quando procurei um fotógrafo para registrar o local, seu Emídio já havia partido e foi ao lado de dona Amélia que ‘batemos uma chapa’. Ela ainda em luto fechado, como se vestiria o resto de sua vida, até sua partida desta, nos anos 80. A referida dona Amélia, foi a primeira mulher a comercializar a nossa literatura de Cordel, em Natal. Comércio, antes reservado só aos homens.

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E quando eu chegava em sua casa, logo me intrigava ao não ver folhetos com autorias femininas. Só os homens publicavam as fantásticas e belas histórias de reis, rainhas, valentões, tragédias e cangaceiros. Se as mulheres publicavam seus folhetos usavam pseudônimos. As mais corajosas andavam com suas violas debaixo do braço, mas não iam para as ditas ‘bancadas’ escreverem suas histórias em forma de literatura de Cordel. Os renomados pesquisadores anteriores a mim, como Câmara Cascudo, Veríssimo de Melo, Gumercindo Saraiva e Umberto Peregrino, em seus trabalhos sobre a temática, não nos deixaram rastro algum dessa presença feminina em Natal, antes dos anos 70.

A nossa poesia popular rimada e metrificada escrita do RN, já tinha sido acusada na pesquisa de viagem do genial Mário de Andrade, quando aqui esteve em 1928 e levou consigo para São Paulo/SP, vários folhetos do romanceiro sobre Lampião, principalmente contando a sua trágica derrota em 1927, em Mossoró. Só homens, como seus autores. Nada de surgimento das mulheres, as quais pareciam preferir escrever e publicar outros gêneros literários há tempos.

Quando publiquei minha longa pesquisa na área, intitulada ‘Dicionário de Poetas Cordelistas do Rio Grande do Norte’, 360 páginas, editora Queima Bucha, Mossoró/RN, de 2004, reuni mais de uma centena de poetas, entre eles homens e mulheres. Na referida obra (atualmente esgotada), página 187, está o nome da nossa pioneira natalense na publicação de folhetos em Cordel: a escritora, teatróloga e ufóloga Nati Cortez. Irrequieta dona de casa e mãe de uma dezena de filhos. Maria Natividade Cortez Gomes, nasceu em Natal/RN, no bairro da Ribeira, em 8 de setembro de 1914. Filha de Manoel Marcolino e Maria Gomes da Silva. Casada com o comerciante Manoel Genésio. Encantada em sua terra berço, em 02 de maio de 1989.

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Maria Natividade Cortez Gomes foi a pioneira na literatura e teatro infantil no Estado do Rio Grande do Norte.Foto escaneada e recuperada por Henriette Cortez.

Desde os anos 60 que Nati Cortez vinha publicando seus trabalhos literários e sabe-se que também chegou a publicar outros títulos em Cordel, entre eles: – ‘Brasil – Tri campeão do Mundo’, 8 páginas, 1970; ‘Os Discos Voadores’, 16 páginas; ‘A Vitória do Candidato Agenor Maria ao Senado do RN’, 8 páginas, 1974 e em 1976, ‘O Mistério dos Discos Voadores’, em formato de plaquete, com 51 páginas, através da antiga CERN. Quando procurei através de seu filho e meu amigo jornalista, pesquisador e escritor Luiz Gonzaga Cortez, (1949-2019), este me disse que parte dos escritos de sua mãe foram perdidos, pelo tempo e a traça. Com muita paciência e faro de pesquisador, eu ainda consegui pelos sebos de Natal, dois de seus folhetos em Cordel.

Também cheguei a vê-la pessoalmente algumas vezes entre 1983 e 1988, mesmo com os cumprimentos formais de visitante em sua casa de terreno espaçoso. Sempre recebido com café e poucas conversas, levado pelo seu filho Gonzaga, o jornalista. A referida casa, hoje demolida é espaço para estacionamento, esta ficava na Rua Felipe Camarão, 453, Cidade Alta. Eu a conheci ainda bem jovem, mas já nas pesquisas cordelísticas. Um de seus filhos, o Miguel Cortez, era assíduo frequentador do finado ‘Café São Luiz’, da Rua Princesa Isabel e me tinha muita estima, sempre antecipadamente pagando a ficha do meu cafezinho assim que me via chegar naquela saudosa universidade popular natalense. Além das amizades que tive com outros de seus filhos.

Nati é referendada também no meu livro ‘A Presença Feminina na Literatura de Cordel do RN’, páginas 163 e 164, Editora 8/Queima Bucha, 2015. É patrona das Academias feminina e da Literatura de Cordel do RN (ANLIC). É citada nos trabalhos sobre Trovas, de Gumercindo Saraíva e Aparício Fernandes. Também é nome relacionado no excelente livro bibliográfico do confrade escritor do IHGRN, Francisco Fernandes Marinho (2010), entre outros livros e revistas.

Aqui está hoje, meus caros leitores e leitoras, apenas um pouco dessa brava poetisa que enveredou com seu nome nas capas de folhetos da nossa literatura de Cordel, com pioneirismo natalense. Foi também pioneira nos escritos do teatro infantil, segundo a pesquisadora e escritora Sônia Othon, bem como presença feminina marcante nos estudos da ufologia.

Nati Cortez escreveu peças teatrais para crianças e adultos, enfocando temas relacionados a ufologia e a vida de Natal nos anos 20/30/40 do século passado. Reprodução de foto (sem data) enviada por João Maria Cortez G. de Melo . Extraída da Historianatividade

E como estou velho de saber que a minha Natal não tem muita memória para o seu passado, difícil de lembrar de seus filhos e filhas ilustres, sendo natalense do bairro do Alecrim, digo com justiça e reconhecimento que a quixotesca escritora e cordelista Nati Cortez é nome que não deve ficar no esquecimento, principalmente pelos seus relevantes feitos e pioneirismos. Só não sei se já foi lembrada e homenageada denominando praça ou rua, pois se não o foi, certamente deveria, senhores e senhoras, vereadores da minha cidade do Natal. Cidade, segundo o mestre Câmara Cascudo, que nem consagra e muito menos desconsagra, os seus! E eu completo: só esquece, infelizmente!

             Outubro, Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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