Natal foi palco de uma série de festivais no final da década de 60 e início dos anos 1970

Ivanildo Cortez (falecido dia 29/09/2021) era um dos líderes da ala
mais jovem formada basicamente por estudantes

Texto de Fred  Rossiter – Publicado na Tribuna do Norte

Na segunda metade dos anos 60, os adolescentes de Natal não se identificavam com os vozeirões da tradicional MPB como Vicente Celestino, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto. A Beatlemania e a Jovem Guarda surgiam como um estilo musical dirigido para o público jovem. Essa onda explodiu e alcançou entusiasticamente a juventude.

Em tempos de “Milagre Econômico” no Brasil, com taxa anual de crescimento chegando a superar 11% e inflação abaixo das médias anteriores, ocorreu forte crescimento da produção e do consumo de bens culturais. Nesse período, os conglomerados da comunicação de massa se consolidam e os jovens passam a consumir discos como nunca havia ocorrido no mercado fonográfico. 


O bom programa musical “O Fino da Bossa” na TV Record, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, desde 1965 começa a perder audiência para a turma da Jovem Guarda, era a “Invasão do iê iê iê”. Em 1967 o “Fino” é retirado do ar, provocando forte irritação na Pimentinha. Estava declarada “guerra às guitarras”.


Em clima de ebulição política e estimulados pelas emissoras de TV, numa maquiavélica estratégia de marketing, surge então um movimento de forte oposição “à invasão da música estrangeira”. A chamada “Frente Ampla” organizou uma passeata de protesto contra a influência anglo-americana no cenário da tradicional MPB.


Caetano Veloso foi convencido pelos argumentos de Nara Leão para não se impressionar com a retórica dos colegas e não aderir à passeata nacionalista que foi conduzida por Elis, Vandré, Edu Lobo e outros. Chico Buarque e Gilberto Gil, mesmo constrangidos, apareceram para marcar presença no evento.


Nesse clima polêmico, os jovens baianos sinalizam simpatia por Roberto Carlos, líder maior da Jovem Guarda e inimigo número um do segmento da esquerda musicalmente conservadora e nacionalista. Mas, não era só a esquerda que combatia a JG, o apresentador Flávio Cavalcanti, por exemplo, bradava; “não consigo entender como a mocidade de hoje prefere ouvir as Wanderléas que surgem por aí…”. Ao assumir a defesa do iê iê iê, Caetano, Gil e Betânia iniciam o chamado movimento Tropicalista.
Todo esse clima repercutiu nos Festivais da Canção, realizados no eixo Rio-São Paulo, especialmente entre 65 e 1972, no auditório da TV Record e assistidos no único canal de TV captado em Natal.


 Os Festivais da Canção em Natal, Anos 60/70

Na mesma linha da “guerra” existente no Sudeste, em Natal o jornalista e radialista Rubens Lemos comandava seu programa nacionalista radical de rádio com samba e MPB da velha guarda “autêntica e das raízes, sem influências do imperialismo anglo-americano” como dizia.  Pixinguinha era o astro principal que envolvia também Noel Rosa, Ciro Monteiro, Ataulfo Alves e outros.  


Outra frente musical natalense surgiu na forma de vanguarda no programa da Rádio Rural denominado “Sui Gêneris” comandado por Dailor Varela e Rejane Cardoso. O Tropicalismo era a linha mestra do programa. Músicas como “Panis et Circences” eram rodadas e comentadas didaticamente. Exposições de poemas processo, lançamentos de livros e reuniões culturais de vanguarda eram divulgadas. 


Os nossos festivais eram realizados no Palácio dos Esportes, no Ginásio do SESC, no Teatro Alberto Maranhão e até no Forte dos Reis Magos. O 1º Festival da Canção organizado pela Prefeitura de Natal (gestão Agnelo Alves) ocorreu em 1967, as quatro músicas melhor classificadas nesse evento foram gravadas em um compacto duplo: “Rosa Inteira num Pedaço de Noite” (Nadja Maria) (1º lugar), “Festa de Padroeiro” (Mirabô Dantas) (2º), “O Botão e a Rosa” (Arnaud Barros) (3º) e “Canção das Cantigas da minha Terra” (Roberto Lima) (4º).

Conjunto The Funtus, era uma banda formada por meninos
vanguardistas da classe média, entre eles, o saudoso Ivanildo Cortez


Boa parte dos compositores e músicos participantes era formada por jovens estudantes secundaristas e universitários, daí a presença maciça dos colegas em barulhentas torcidas organizadas. 


No Festival do Guriatã organizado pelo Diário de Natal, The Funthos ganharam os dois primeiros lugares com “Homo Sapiens” de Napoleão Veras e “Missa Biológica” de Carlos Gurgel e Luiz Neto. Na sequência de classificação: “Aruanda” de Iaperí Araújo, “Tecê Criança” de Rubens Góis e “Festa da Apresentação” de Roberto Lima e Heitor Varela. Mirabeau Dantas, bem ao estilo protesto da época, leu um manifesto e retirou sua música “Tô é Muito da Neurótica”.


Adrimaria foi escolhida a melhor intérprete do Festival

Também ocorriam festivais restritos às bandas de Rock, igualmente com grande participação. Se destacavam os conjuntos: Impacto Cinco, The Jetsons, Os Vândalos, The Funthus, Os Infernais e o “Sempre Alerta” de Macau. Em 1969, ocorreu o “II Festival dos Festivais” no Palácio dos Esportes e o Impacto Cinco obteve o primeiro lugar.


Os festivais daqui ocorriam normalmente em três dias seguidos. Luísa Maria Dantas e Gumercindo Saraiva eram presenças seguidamente convidadas para compor a Comissão Julgadora. É nesse contexto de efervescência cultural, que, dentre inúmeras boas revelações, se destacam três compositores importantes no cenário musical natalense.


Roberto Lima

Foto: Canindé Soares

Suas composições nos festivais buscavam a raiz das cantigas e danças populares nordestinas, representavam traços do folclore potiguar. Além de compositor, interpretava todas as suas canções, quase sempre acompanhado por suas irmãs e irmão, além do amigo Etelvino Caldas.
Dentre inúmeros sucessos de Roberto Lima, destaques para “Cavaco Chinês”, “Caixa de Fósforos” uma homenagem ao cantor Ciro Monteiro e “A Semana”.Foi disputado por gravadoras e participou de diversos LPs: “Canção para Natal”, “Reencontro” (patrocinado pelo governo Cortez Pereira e capa com foto da Praia de Areia Preta), “Cancioneiro Potiguar”, “Floração” (capa desenhada por Dorian Gray Caldas), “Bambelô” e “Cantos do Mar”.  


Incansável, enveredou também pela música sacra com incentivo de Ariano Suassuna, da UFPE e da CNBB. Dom Nivaldo Monte gostou do ritmo “Novos Baianos” implementado por Roberto e permitiu que o Impacto 5 o acompanhasse com guitarras nas missas da antiga catedral. Os fiéis, especialmente os jovens, aprovaram a ideia, em especial a adaptação musical feita para um poema de Palmira Wanderley. Em tempos de CD, Lima gravou uma música em homenagem ao sanfoneiro Zé Menininho.


Além do enorme sucesso nos festivais locais, Roberto foi laureado diversas vezes em regionais, nacionais e até internacionais, com destaque para o 1° lugar do Norte e Nordeste (Recife) no I Festival Nacional da Música Popular Brasileira “O Brasil Canta no Rio”, e 5° lugar na Finalíssima Nacional (TV Excelsior, Rio de Janeiro); 1° lugar no II Festival Natalense da Canção Popular Natal; 2° Lugar IV Festival Internacional da Canção (fase Norte/Nordeste) e Finalista do IV FIC – TV Globo, Rio de Janeiro; 2º lugar no Concurso Nacional de Música da ANDES para Professores Universitários; 3º e 2º lugar, respectivamente, no I e II Forraço.


Ivanildo Cortez

Foto: Blog Território Livre

Era um dos líderes da ala mais jovem formada basicamente por estudantes, aos 16 anos foi autor da letra de “Lágrimas de Alegria nos Olhos Tristes do meu Amor” e já conquistava o primeiro lugar em evento no Teatro Alberto Maranhão. 


Petit das Virgens, jornalista e participante do agito pop dos anos 1960-1970, resume bem a importância de Cortez no contexto musical natalense: “Ivanildo foi o maior compositor potiguar dessa época. Fazia parte do conjunto The Funtus. Era uma banda formada por meninos vanguardistas da classe média. Ele tinha uma maneira inusitada de compor suas músicas. Como não tocava qualquer instrumento musical, não sabia nenhuma nota musical, sentava-se no vaso sanitário e fazia o acompanhamento rítmico com as mãos espalmadas batendo nas pernas como se fosse um instrumento de percussão. Dali sempre saiam composições lindas, criativas e inteligentes. Ganhava todos os festivais”.


“Homo Sapiens” foi uma composição fora dos padrões tradicionais da MPB e inspirada no filme “2001 Odisseia no Espaço”. Em “Mística”, temos inversões musicais criativas baseadas no candomblé, evoluindo para um ritmo frenético num misto de música caribenha com tambores, atabaques e o belo solo na guitarra de Joca no estilo Carlos Santana. 


“Quero Talvez uma Nêga” (parceria com Napoleão), além de ganhar o festival local de 1972, arrasou no festival Nordestino de Música Popular em Recife, onde obteve a nota máxima. Cortez produziu algumas composições voltadas para o RN, como: Redinha Lenheira e Ribeira do Desamor. Em 1999 homenageou os 400 anos da cidade com “Natal Querida”. É também autor do Hino de Touros.


Outras composições importantes: “Procurando Alice”, “Safra de Fole e Viola”, “Pulo do Gato”, “Dar nome aos Bois (protesto contra a prisão política e a tortura de ditaduras de Direita e Esquerda, gravada pela banda Flor de Cactus em 1981 e em 2012 por Babal e Ivanildo, com novos arranjos) ,  Pássaro Novo, Pitanga Doce e a belíssima valsa “Sofia”. 


Em 2012 foi lançado o song-book “Pássaro Novo”, que resgata em texto o ambiente dos anos 60/70 na cidade e inclui 15 músicas produzidas pelo médico Ivanildo, boa parte com coautoria de Napoleão de Paiva. Participação de Isaac Galvão, Galvão Filho, Sílvia Sol, Tânia Soares e Pedrinho Mendes, grandes intérpretes locais, produção e participação especial de Babal. Uma obra que merece ser lida e ouvida.
Vídeos com diversos sucessos de Ivanildo estão disponibilizados em canal do You Tube: https://www.youtube.com/channel/UC1kB5sEbYy6bBFMKzctqU4Q ,

PS. Ivanildo Cortez nos deixou, na ensolarada quinta-feira dia 29 de setembro de 2021, partindo para a Eternidade e deixando uma grande saudade.


Mirabô Dantas

Foto: Costa Branca News

Foi dos compositores mais marcantes e produtivos desses festivais, era muito ligado a estrelas da MPB e parceiro musical de Raimundo Fagner e Capinam. Juntamente com Odaíres eram figuras carismáticas. 


Quando “Festa do Padroeiro” (parceria com Jônio de Freitas) foi anunciada como 2ª colocada no Festival de 1967, a torcida fiel explodiu numa grande vaia de protesto, a maioria da plateia considerava essa a melhor música do ano.


Talvez por ter ligações com músicos do sudeste, parecia haver uma preocupação especial da Censura em monitorar as letras de Mirabô. Nesse contexto, ocorriam episódios hilários como a situação em que ele e Marcos Silva foram “convidados” a comparecer à sede da PF para dar explicações sobre uma música inscrita para Festival do SESC. Os autores foram obrigados a tirar a palavra “Brasil” da letra da música, mas conseguiram convencer os censores a substituir pela palavra “país”. Dessa forma, o trecho da letra ficou “Eu vivo fluorescente / perigosamente/formidavelmente/na cidade espacial do país” (achou diferença?). Na hora de cantar, Mirabô não se conteve com o entusiasmo do público e gritou mesmo a palavra censurada “Brasil”, conquistando   Festival. 


Foram vetadas pela censura da PF canções como: “Pão e Circo” (não aplauda o circo se não houver pão/ não se faça de mico para o seu patrão…) e “Se” (se você quiser crescer- tem bola/ se você quiser brindar – tem brahma/ se você quiser morrer – não cola/ se você quiser amar -tem cama/ […] / mas se der pode ficar- na sua …).


Nascido em Areia Branca, Mirabô após o sucesso inicial nos festivais natalenses, teve mais de 30 músicas gravadas, algumas por intérpretes de renome como Quinteto Violado, Maria Odete, Maurício Tapajós e Elba Ramalho. 

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1 comentário

  • Didi Avelino disse:

    Tive a satisfação de participar de um desses Festivais, em parceria com o amigo e compositor mipibuense Dedé Amaro, com a música “Nordestino”, de sua autoria.
    Uma das curiosidades desse festival foi o fato dos produtores do mesmo haverem importado um júri com personalidades consagradas, à época, do ambiente televisivo como Márcia de Windsor, José Fernandes, entre outros.
    Tempos de ebolição cultural e artística, em contraste com o ambiente repressor da censura imposta pela ditadura.

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