Não quis ser juíza

Mariana Rodrigues – Psicanalista e Advogada e, nas horas vagas, cronista

Minha mãe achava lindo uma filha juíza. Eu fiz Direito, mesmo fazendo errado. Julgar sempre me pareceu um verbo danado. Juízo, nunca tive um que se adequasse ao que socialmente era esperado de mim. Convenci minha mãe de que a maternidade é sobre saber conviver com escolhas que não namoram com nossa esperança e não se casam com nossas expectativas.

Achei melhor conjugar o verbo advogar ao verbo julgar; e foi aí que resolvi advogar pelo desejo que não merece ser julgado. Lia religiosamente Filosofia e sempre filosofei

Dava conselhos sobre o que ainda não tinha vivido e vivia o que não coincidia com a cronologia da minha existência. Adorava brincar de fazer o tempo esperar, mas não esperava o tal momento certo de viver as coisas (será que existe certeza no tempo? Ou o tempo se encarrega de criar dúvidas?).

Curiosa, percebi bem cedo que dá pra aprender com todos os sentimentos que um ser humano é capaz de sentir. Sofri por falta de ignorância, mas sempre soube que só se muda o que se conhece. Mas com o tempo, aquele que brincava comigo de esperar, entendi que algumas coisas simplesmente não precisam ser mudadas.

A perspectiva virou a melhor amiga das minhas certezas. E eu, que tirava 8,0 em Geometria, me apaixonei pelos diversos ângulos que compõem uma mesma cena. Não vou ser hipócrita em afirmar que nada sei, mas quanto mais aprendo, menos me sinto encorajada em bater martelos; lembram?

Eu não quis ser juíza. Se o vazio faz parte, deve ser porque o pequeno príncipe virou gigante quando percebeu que o essencial é invisível. E às vezes, eu preciso compartilhar os fatos que me movimentam, porque o sentido se faz quando o que nos toca também faz o outro sentir.

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