NA CASA DO MEU AVÔ

Roberto Patriota – Jornalista e escritor

Poderia afirmar sem pensar muito que ele foi um dos homens mais civilizados que conheci em toda a minha vida. Sentava-se a mesa com elegância e comia como um lorde inglês. Falava manso e era bastante cordial com todos. Morava em um amplo casarão cheio de janelas e pé direito altíssimo no centro de Nova Cruz, bem próximo a via férrea.

A antiga estação, já desativada, não estava mais abandonada em 2015. Adquirida pela Prefeitura Municipal, foi doada ao Governo do Estado do Rio Grande do Norte, que a transformou na Casa da Cultura Lauro Arruda Câmara. Ela fora totalmente recuperada por técnicos da Fundação José Augusto, com orientação do Patrimônio Histórico, preservando-se suas linhas arquitetônicas. É um monumento da história do transporte ferroviário de passageiros do nordeste, infelizmente desativado. Nova Cruz, por muitos anos, foi o elo de ligação entre Natal e o Recife

De temperamento ameno, estava sempre muito bem vestido e barbeado, costumava ser impecável com o trato pessoal. Foi ele, quem me deu as primeiras dicas de como me portar socialmente. Por mais de trinta anos ele foi um autêntico líder político do Agreste Potiguar e ao lado de amigos, como, Celso Lisboa e Lula Moreira entre outros, fundou a UDN – União Democrática Nacional após a redemocratização do país em 1946. Na época eram expoentes do partido a níveis, regional, sendo Dinarte Mariz e Carlos Lacerda respectivamente, representantes estadual e nacional. Respirava política todo o dia, por isso sua casa vivia cheia de gente na busca por favores ou para uma simples conversa sobre o trivial de Nova Cruz.

Das memórias da infância, lembro de como era atencioso com os que o procuravam em busca de ajuda. O sofrimento dos que passavam por momentos de aflição, trazia-lhe lágrimas aos olhos. Era um homem que sentia compaixão facilmente. Este homem probo, honesto, sério e ameno era Adauto José de Carvalho, mais conhecido por Adauto Carvalho, meu avô materno. Ele chegou à Nova Cruz em 1916, vindo da Serra da Raiz, localizado no vizinho Estado da Paraíba.

Quando chegou no Agreste potiguar com apenas 17 anos de vida, foi logo iniciando sua trajetória comercial vendendo vários produtos da região, inclusive o algodão na sua fase áurea e se consolidando comercialmente. Já rapaz feito e com a vida econômica organizada, se casou com Alice Pereira. Ela era filha de dona Joaninha, figura bastante estimada e conhecida na cidade porque explorava o ramo de hotelaria, e pela sua pousada passavam viajantes da Paraíba e de todo o Rio Grande do Norte. Quando se instalou comercialmente em Nova Cruz nos anos 30, fundou uma indústria de couro, tornou-se proprietário rural e em consequência um dos maiores criadores de gado da região por longos anos.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Nova Cruz ( foto atual)

Visando consolida-se e ampliar os negócios ele entrou em uma empreitada empresarial considerada ousada para a época: uniu-se no inicio da década de 60 – a Boanerges Barbalho e ao Dr. Gilberto Tinoco, dentista e seu amigo e correligionário. Essa união propiciou a aquisição do acervo da firma João Câmara & irmãos S.A; que posteriormente veio a transformar-se no Consórcio Algodoeiro de Nova Cruz S/A.

Ele era um homem simples, ligado as coisas do interior, mas constantemente fazia incursões por Natal para participar de reuniões políticas e rodadas de pif-paf no Natal Clube, ao lado de amigos como o deputado Djalma Marinho, José Brilhante, Major Teodorico Bezerra, Elói de Sousa, Gilberto Tinoco e tantos outros. Quando criança costumava brincar com meu irmão Ricardo, rolando nas montanhas de algodão do seu Consórcio Algodoeiro. O Consórcio ocupava um grande prédio as margens da linha férrea, havia sempre muita movimentação por lá, além de uma grande quantidade de trabalhadores e era secretariado por Celeste Paiva, novacruzense que anos mais tarde viria a se casar com o tourense Miguel Neri.

Nas férias em Nova Cruz costumava passear pelas ruas na companhia do meu avô. Nessas ocasiões, ele era quase sempre abordado por eleitores, muitos se aproximavam dele simplesmente para cumprimentá-lo, outros para pedir um conselho ou buscar alguma ajuda. Foi um homem respeitado e um político bastante querido pelo povo de Nova Cruz durante toda sua vida.

Politicamente ele foi sempre ligado a Totô Jacinto, Lula Moreira, Antônio e Lauro Arruda, mas após a redemocratização do país em 1946 houve um rompimento, considerado bastante traumático. Da cisão ficaram Lauro e Totô no PSD – Partido Social Democrático, já meu avô e Lula Moreira entraram na UDN – União Democrática Nacional.

A partir daí a política de Nova Cruz entrou na fase do radicalismo. Havia insultos e inimizades pessoais entre os líderes. Os partidários brigavam nos bares e esquinas defendendo suas cores com exagero e até confusões com tiro para o alto aconteceu. Mesmo sendo detentor de uma grande liderança por muito tempo, ele não buscou voos mais altos na política novacruzense, contentava-se em ser o chefe político do seu grupo partidário, o “líder”.

Recusou diversos convites para se candidatar a cargos eletivos. Mesmo assim, foi eleito vice-prefeito numa composição que teve Totô Jacinto como cabeça de chapa, aceitou candidatar-se para fortalecer a legenda e viabilizar a eleição do amigo. Ele se elegeu e Totô Jacinto perdeu a eleição.

Depois de 1962, a par da nova tendência político-partidária ele foi aos poucos se afastando da política sem se afastar de Nova Cruz. Era um homem determinado e tinha muita confiança em si, e gosto pelo comércio. A partir dessa fase passou a dedicar-se mais a atividade empresarial. Sabia como navegar em suas águas e, nesse campo, usando de suas habilidades políticas aderiu ao movimento sindical patronal, passando a estreitar seus laços com os empresários da capital.

Em 1948, participou das comitivas empresariais pelo Estado e engajou-se na luta pela criação da Federação do Comércio do Rio Grande do Norte, tornando-se um de seus fundadores. Era um homem do interior com maestria de homem da cidade grande. Durante quase toda a sua vida, mesmo morando em Nova Cruz passava alguns dias da semana em Natal. Ficava hospedado na casa dos meus pais na Cidade Alta, antigo centro da cidade. Ia para resolver negócios, mas também para ver os amigos, curtir a filha única e os netos.

Dessa época tenho as melhores lembranças da minha infância. Faleceu em 1985, aos 84 anos. Foi um exemplo como homem, pai, avô, empresário e político.

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