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maio 12, 2024

MEU TIO

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor Minha filha mais nova, de Brasília, envia-me um zap.


Nilo Emerenciano - Arquiteto e escritor


Minha filha mais nova, de Brasília, envia-me um zap. - Pai, escreva sobre seu tio Biu! Ri da lembrança. Tio Biu realmente era um tipo diferente. Fazia medo e provocava risos, dependendo da ocasião. Recordo o tipo baixo, atarracado, peito largo, musculoso, sólido. Óculos fundo de garrafa, dentes trincados – hoje imagino que era para sustentar a prótese.

Morava no bairro de Beberibe, no Recife/PE. A casa tinha um grande quintal que acabava as margens do rio. Sua esposa era uma portuguesa de quem lembro pouco ou quase nada.

Todos os anos ele vinha a Natal para a Festa de Reis. Sabíamos da sua chegada ao ouvir um assobio característico ao longe. Mamãe se afligia: - É Biu! Tinha razão de se afligir pois iam ser dias de preocupações. Eu, garoto, não partilhava os medos. Tal como José Lins do Rego conta em Menino de Engenho que brincava e fazia festa enquanto a cheia causava estragos à sua volta, eu me divertia com as histórias e peripécias do tio.

Sentava-me com ele à mesa da cozinha enquanto comia feijão gelado e contava aventuras. Verdade, mentira? Falava da Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932, como lutou pelos rebeldes. Dessa luta carregava uma cicatriz mal fechada no ombro esquerdo. Estilhaços de metralha, afirmava. Aliás, trazia outras cicatrizes, uma delas de um golpe de faca recebido em uma das muitas brigas. “-Fura, que o doutor cura”, teria dito, insolente, frente ao desafeto. Depois tomou a faca e deu uma surra no agressor. Era assim. Tinha um jeito peculiar de contar as coisas. E concluía rangendo os dentes e afirmando: - Sou o Dantinhas!

Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932

Papai gostava de contar que estava junto com Biu e o tio Zé na fila dos barcos de Luís Romão, no pós-guerra, esperando para embarcar para a Redinha. Tio Zé comentou, apontando um navio ancorado no Potengi, como algo tão grande era derrubado por uma bombinha. Um desses nacionalistas exaltados ouviu a conversa, cresceu e interpelou – E o senhor se vangloria disso? Nossos navios, nossos heróis, lutando pela pátria… E foi por aí, ameaçador.

Tio Biu que se achava no fim da fila se aproximou. - O que está havendo por aqui? Morreu galego? O valente alardeou: - Esse traidor féla da puta está dizendo que uma bombinha põe a pique nossos navios.
Tio Biu rangeu os dentes e encarou o homem: - Ah, foi isso? Escute aqui: esse traidor é meu irmão o que faz de mim filho da puta também pois a mãe é a mesma. Pois agora eu, entendeu, eu sou a bombinha. Fui lá, fiuuu, pronto, bum, explodi o navio. Foi-se. Afundou. Era uma vez navio. E agora, a madrinha aí vai fazer o quê?

Papai se preocupava. Biu em Natal era uma fonte de confusões. Uma ocasião brigou com a tribo de índios carnavalesca em pleno Grande Ponto, em Natal. Meu pai fazia a barba no Salão Dois Amigos, ali na atual Praça Kennedy quando alguém avisou: - Corra, Amaury, que os índios vão matar seu irmão! Pois então? Biu se achou incomodado com o batuque dos índios, foi lá, tomou a lança do pajé e quebrou sem mais aquela. Evidentemente os índios saltaram sobre aquele bwana intrometido e entre penas e cocares, arcos e tacapes, socos e pontapés, quase sacrificavam meu tio no caldeirão do pajé.

Foto Ilustrativa

Havia uma rotina. Em meio a manhã, tio Biu colocava uma toalha sobre o ombro para esconder a cicatriz, e vestido só com essa toalha e um calção tomava a direção da praia. Voltava de tardezinha, machucado, bêbado, deitava-se no quintal e dormia até acordar. - Sou o Dantinhas, grunhia entre dentes.

De vez em quando se dava mal. Lembro de seu rosto machucado, óculos quebrados, e não entendia bem como aquilo podia acontecer. Provocava todos. Bastava achar que alguém o olhava para perguntar: - O que foi? Tá vendo o quê? A mãezinha mandou recado? Tá com dor de barriga? E ria com os dentes cerrados.

Outra ocasião arranjou uma confusão ali no Canto do Mangue. Cercado por aquela gente boa, peixeiras em riste, correu em direção à rua Chile e se refugiou em uma câmara frigorífica. Escapou dos agressores, mas quase morre, pois foi achado tiritando de frio e semi congelado. A catinga de peixe foi mais dura de largar.

Antiga Rodoviária de Natal /RN, no bairro da Ribeira

Papai tinha que colocá-lo no ônibus para o Recife meio que na marra, ali na rodoviária da Ribeira. O tio descia tão logo o ônibus partia para a surpresa de papai ao vê-lo de volta tão cedo, quando todos ainda suspiravam aliviados. Papai passou a gratificar os motoristas para que não permitissem sua descida precoce.

E a vida voltava ao normal, pelo menos até a próxima Festa de Reis, quando o assobio fiuuu soar mais uma vez e tudo começar de novo…


PS: Te amo, minha mãe. Sinto muitas saudades, mas sinto também a sua presença junto a mim. Qualquer dia a gente se encontra, não tenho dúvidas disso. Beijos.

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