Memória do Rio Grande do Norte – Nísia Floresta (1963)Berço da CF no Brasil – Pioneirismo Feminino das Missionárias de Jesus Crucificado – Herança do “Movimento de Natal”

Luís Carlos Freire – Professor e pesquisador

Essa primeira fotografia, icônica, alegre e cheia de espontaneidade, datada de 1963, passaria despercebida se não consistisse num marco sem precedentes na História do Rio Grande do Norte, em especial, ao bucólico município de Nísia Floresta. É o flagrante de um capítulo inédito, marcado por pioneirismos protagonizados pela Igreja Católica há mais de meio século – inclusive no âmbito do feminismo -, mas cuja história ainda é desconhecida por muitos brasileiros.

As “Irmãs Vigárias” chegaram à Papari em 1963 para proporcionar aos nisiaflorestenses duas das experiências mais belas já ocorridas no Brasil:

Foi a primeira paróquia sem padre confiada a religiosas. Trabalho inédito no mundo, e que foi denominado de vigárias de paróquia sem padre, e que as tornariam conhecidas como “Irmãs Vigárias”;

Essas mulheres foram pioneiras, seriam as vergônteas da Campanha da Fraternidade no Brasil, no ano seguinte. Esse pé de manga frondosa visto na fotografia – e que existe até hoje -, testemunhou um projeto que está vivo em todo o Brasil, e é marcante principalmente nas memórias de inúmeros nisiaflorestenses, hoje idosos, que narram a experiência com grande emoção.

Esse flagrante é apenas o tijolo de uma obra monumental. Na verdade, não dá para contar a história das Irmãs Vigárias, nem do surgimento da Campanha da Fraternidade sem destrinchar uma história que veio bem antes. Tentarei resumir o que de mais significativo há nesse contexto.

A ideia germinou nas mentes de renomados sacerdotes católicos, dentre eles Dom Eugênio Sales, inspirado numa experiência um pouco semelhante, vista na Alemanha, onde ele estudou por um curto período, de onde trouxe todo o material da estrutura da “Misereor”.

Dom Eugênio Sales

No bojo do impressionante projeto construído em solo potiguar, denominado “Movimento de Natal”, cuja pedra fundamental foi lançada em 1948, floresceram gradualmente inovações pioneiras em diversas áreas, e seriam responsáveis por avanços que impactariam fortemente a vida dos potiguares – independente de serem católicos ou não. E tudo isso inspiraria projetos nas dioceses de todo o país, tendo em vista que outras dioceses católicas de outros estados trabalhariam essas inovações a partir daquela semente.

Muitas figuras de grande destaque da Igreja católica nem eram padres ainda quando participaram ao lado de religiosos recém ordenados. No caso dos então, já sacerdotes, se destacam monumentos humanos em extinção, como: Eugênio Sales, Expedito Sobral de Medeiros (futuro ‘Apóstolo das águas’), Dom Nivaldo Monte, Dom Alair Vilar e outros padres de grande ilustração.

Determinadas inovações adquiriram repercussão nacional, como por exemplo, as “Irmãs Vigárias”, as quais assumiram as paróquias que não tinham padres ou que os mesmos eram padres domingueiros. Desse modo elas exerciam o mesmo papel dos sacerdotes. Outra iniciativa foi as Escolas Radiofônicas que impulsionaram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na vasta programação da emissora de rádio, incluíam-se aulas ginasiais para formação de adolescentes e jovens.

O Movimento de Natal, na realidade, era muito amplo e abrangia diversos segmentos da sociedade, como também a organização dos trabalhadores em sindicatos rurais, a primeira Federação dos Trabalhadores Rurais do Rio Grande do Norte, jornais impressos que eram aguardados pelo povo como ouro devido à riqueza de conteúdos. Esse trabalho não nasceu do nada, afinal “ex nihilo nihil fit’‘, ou seja, nada vem do nada. Tudo foi fruto de muita luta,  visão, organização e vários cérebros, e no bojo de tudo não há como não voltarmos no tempo e nos reportarmos ao padre João Maria, um visionário. Homem de vasta cultura que, em pleno final do século XIX e início do século XX, realizou obras adiante do tempo, ignoradas por muitos, e me faz entender que, mesmo sem relação alguma com o escopo do Movimento de Natal e da Campanha da Fraternidade, sua face está nessas obras. 

Naquele tempo (1948) os religiosos potiguares se reuniam com muito mais frequência, desde o bispo aos seminaristas, havia reuniões frequentes para pensar e deliberar sobre os problemas da igreja, as problemáticas sociais e como trabalhá-las. Os seminaristas viviam nos arrabaldes de Natal – e, como fazia o padre João Maria –, eram presenças vivas nas favelas. Calçando chinelas tipo Havaianas, esses jovens que pretendiam ser padres, viviam pisando em ‘cocô’ de menino, atolando o pé na lama, saltando pinguelas, subindo e descendo morros, tomando água de pote em lata de conserva, preocupados unicamente em ensinar o evangelho e outros ensinamentos que engrandeciam os excluídos como pessoas dignas.

Naquele tempo os seminaristas não eram adotados por madames, não se enclausuravam em seminários, entretidos com notebooks, iphones de última geração, perfumes caros, roupas caras, envolvidos num mundo de fausto. Eles aprendiam a ser padres no meio da pobreza, conhecendo de perto as doenças sociais e espirituais, qualificando-se para depois “curá-las” sem que isso lhes diminuíssem. Os seminaristas eram mais aproximados ao que fez o padre João Maria e muitos dos padres envolvidos no Movimento de Natal. Se hoje o “voto de pobreza” se resumiu a uma simples frase – salvas as poucas exceções – naquele tempo era literalmente o que denominavam de ‘chamado/missão’. 

Outra catapulta preciosa desse projeto foi o surgimento do Serviço de Assistência Rural, que estruturava todas as atividades do Movimento de Natal e, com ele, politizava o homem do campo, o pequeno produtor, enfim dava visibilidade ao meio rural, cujo o Sr “Zé Ninguém” também aprendia política e como ser um pequeno produtor sem necessariamente depender apenas do patrão. 

O Movimento de Natal envolvia conscientização de classes, criação de centros sociais, clubes, cursos nas mais diversas áreas, treinamentos de lideranças, educação sistematizada, cooperativas, sindicatos rurais, valorização do artesão, colonização, consciência política e muito mais. Inspirava as pessoas a serem seres sociais, envolvidos, preocupados com suas vilas, suas cidades. A igreja católica provocou um terremoto sem precedentes, e que no futuro inspiraria até os evangélicos e diversas instituições do estado.

Ao longo da vida, li todas as obras escritas sobre o padre João Maria (inclusive escrevi um amplo estudo sobre ele no meu blogue), portanto percebo que mesmo que talvez muitos nem pensem assim – ou pensem -, enxergo no Movimento de Natal a imagem do Padre João Maria. Muitas pessoas estão habituadas a visualizar apenas o aspecto ‘santo’ do padre João Maria, e nessa ideia de um “sacerdote bonzinho e santo”, desconhecem a dimensão gigantesca do homem político, do homem visionário, preocupado com aspectos sociais, educacionais, sanitários etc.

Padre João Maria não foi apenas aquele homem bonzinho e caridoso, que dormia no chão da sacristia da Igreja Velha, que doava a própria comida para quem passasse pedindo. Ele deu testemunho abnegado na tentativa de tornar cada potiguar um ser humano pleno, politizado, são de corpo e mente. Além de verdadeiro São Lázaro, foi um político em extinção (e isso não o diminui – por aparentemente deixá-lo mais parecido com o homem comum -, pelo contrário aumenta a sua grandeza de homem e sacerdote). Se vivo hoje, diante da atual realidade, não sei o que ele seria capaz.

Pois bem, o Movimento de Natal, apesar de ter o seu aspecto religioso – afinal era uma ação nascida na Igreja Católica -, sua dimensão social dilui praticamente o caráter religioso, quando se olha para a sua iniciativa de promover cidadania plena e civilidade para todos. Ela visava o comunitário, independente de religiosidades ou da falta delas. Seu objetivo era construir homens e mulheres com saúde física e mental, e bem educados e politizados. Tudo o que os políticos atuais não querem proporcionar ao povo.

E tudo isso encontrou amparo nos documentos do Concílio Vaticano II, que enquanto para alguns religiosos – daquele tempo e até mesmo atuais – salvas as devidas exceções -, foi um passo deplorável da Igreja Católica, para outros foi uma escada para o Céu. Se bem que o Céu começa aqui.

É interessante ressaltar que o Movimento de Natal e as atividades inspiradas nele se deram ao longo de três décadas, cuja pedra fundamental ocorreu no final da década de 40, adentrando no início dos anos 70. Inclusive muitas iniciativas inspiraram a CNBB a levá-las para outras regiões brasileiras. Alguns estados eram tão carentes daquelas iniciativas que o Movimento de Natal tornou-se inspiração para eles. Outros lugares o receberam, mas Nísia Floresta foi pioneira principalmente nos dois grandes marcos citados acima.

Foto da cartilha ‘Educar para Construir’ – Escolas Radiofônicas – SAR

A partir de 1945 o projeto deu origem às escolas de Serviço Social. Alguns bairros de Natal viviam em situação precária. Desse modo a Igreja Católica passou a montar ali políticas públicas e iniciativas mais intensas de evangelização, inclusive em presídios, local de apoio e assistência às mães solteiras, cursos técnicos de administração, criação de escolas-ambulatórios, centros sociais que eram polos de reuniões, surgimento de maternidades em alguns municípios, cursos e todo tipo de atividades cidadãs, cooperativas, inclusive o Patronato de Ponta Negra que era uma verdadeira universidade que fluía o que de melhor se podia no sentido de melhorar a qualidade de vida do homem urbano e rural. O escambau! Observe que algumas políticas do governo federal se inspiraram nessas práticas criadas pela Igreja Católica. É público e notório.

Surgiu a Casa do Bom Pastor, atuante até hoje, com um serviço imensurável do saudoso padre belga Thiago Theisen (falecido recentemente), lembrando que por pouco ele faria parte do grupo de sacerdotes pioneiros acima mencionado, tendo em vista que chegou a Natal pouco tempo depois, em 1968. Lembrando que ele é o criador do artesanato feito em palha de coqueiro, que é o carro-chefe no distrito de Timbó, em Nísia Floresta. Isso, ouvi num depoimento que ele me deu em 2014, na casa paroquial do Bom Pastor (escrevi um texto sobre isso no meu blogue).

Muitas iniciativas decorrentes do Movimento de Natal firmaram compromisso com o poder público. É o caso do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que no ano de 1957 deu toda a assistência para que funcionasse em Pium, em Nísia Floresta, a sua primeira experiência de colonização daquele vale totalmente inabitado e que recebeu uma colônia de agricultores vinda do Japão. Observem como Nísia Floresta foi palco de ações excepcionais.

Os japoneses se instalaram ali para trabalhar com a agricultura, especialidade que dominavam com maestria. Depois vieram famílias potiguares de diversas localidades. O Vale do Pium tornou-se referência em agricultura familiar, fornecendo hortifrutigranjeiros para todos os municípios vizinhos. Em 1992, entrevistei uma porção de idosos dali. Eles contaram, emocionados, que semanalmente saiam frotas de caminhões carregados com hortifrutigranjeiros de Nísia Floresta (isso também está num texto no meu blogue).

No bairro das Quintas, em Natal, surgiu um serviço de atendimento ao menor delinquente, proporcionando-lhe alfabetização e iniciação profissional. No final da década de 1950 criaram a famosa Emissora de Educação Rural e depois as Escolas Radiofônicas. O Movimento de Natal – esse colosso de Rodes -, desencadeou muitas reuniões, simpósios, conferências, seminários pelo Nordeste e em algumas partes do Brasil. Foi um período de grande entusiasmo e transformações. O projeto era um farol.

Foto ilustrativa

Em 1961, a Presidência da República e a CNBB, em parceria, criaram o Movimento de Educação de Base, cujo trabalho foi estendido para diversas regiões do Brasil. Depois surgiu o Setor de Migrações, o qual dava assistência para distribuir os migrantes fugidos da seca. 

O sindicalismo no Rio Grande do Norte perpassou pelo Movimento de Natal. Em 1947 (observem o ano!), Dom Eugênio Sales fez uma histórica e impactante pregação sobre a “Reforma Agrária”, tema polêmico, que fez com que alguns poderosos se distanciassem temporariamente da igreja, preocupadíssimos com os seus latifúndios.

Em 1963 ocorreu a primeira grande campanha para coleta em favor das obras sociais e apostólicas das três dioceses existentes no Rio Grande do Norte. Essa ação concreta seria chamada de “Campanha da Fraternidade”, e teve o seu primeiro gesto concreto justamente em Nísia Floresta, no distrito de Timbó, sob a responsabilidade das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, e esse acontecimento evidencia fortemente uma das faces do feminismo no Brasil.

Essa data foi marcante para o município de Nísia Floresta, e para o feminismo potiguar, inclusive o Brasil inteiro esteve em Nísia Floresta, na comemoração dos cinquenta anos da Campanha da Fraternidade, inclusive representantes do Vaticano. 

Comemorações dos 50 anos da Campanha da Fraternidade. Nesse evento estavam presente inúmeras autoridades de diversos países, inclusive, do Vaticano, a governadora Rosalba Ciarlini, o arcebispo Dom Jaime Vieira. A celebração foi presidida pelo bispo  de  Guarabira (PB), Dom Francisco Lucena, coordenador da Campanha da Fraternidade na Regional Nordeste II.Foto: Fernanda Zauli

Já imaginou num universo cem por cento masculino surgir as “irmãs vigárias”, freiras que administravam paróquias? Vejam que inovação! O projeto se estenderia também aos municípios de Taipu e São Gonçalo do Amarante, mas Nísia Floresta foi pioneira na experiência.  

Importante destacar que no bojo das inúmeras ações do Movimento de Natal, surgiu o Setor de Politização com a função de promover Educação Política nas populações rurais, visando combater o “voto de cabresto”, os “currais eleitorais”, “o “voto de carbono” e a exploração de políticos que fazem a “indústria da seca”, combatendo os chamados “currais” eleitorais. A igreja, a meu ver, se aproximou muito de Jesus nessa época e quase o tocou. O conhecimento do Evangelho, que busca a essência cristã e uma vida de santificação humana, também precisava construir com os fiéis o conhecimento sobre política, afinal quem condenou Jesus? Creio que Jesus foi o maior político (em sua essência) que já pisou na Terra.

Pois bem, o dito Movimento de Natal não parou em 1963. Permaneceu vivo e atuante até o início de 1970, inovando, criando escolas, pastorais diversas, inclusive de saúde e da criança (lembrando que o Padre João Maria fazia praticamente isso 100 anos antes, mesmo com toda precariedade|). Vejam como ele não era apenas o santo! Depois vieram parcerias com o MEC e surgiu a Rádio-TV Educativa permitindo a adolescentes e adultos cursarem através de aulas radiofônicas o ensino ginasial.

Acredito que o Movimento de Natal foi a experiência pastoral mais importante na história da Igreja Católica do estado, pela substancialidade, inovação e referências. Foi uma ação visionária que hoje, se encabeçada plenamente por políticos, melhoraria muito a face do Brasil. É certo que, para aquele momento, tudo consistiu em novidade. Eram tempos de maiores precariedades, mas esse ‘insight’ da Igreja Católica realmente foi providencial.

Os atores religiosos e leigos daquele tempo atacaram problemas sérios com uma mentalidade visionária. Tudo o que foi feito era exatamente o que se necessitava. Era um remédio curando feridas sociais abertas e que sangravam há séculos (e que os políticos não estavam nem aí, salvas raríssimas exceções).

O projeto foi tão importante que se tornou notícia em vários países, cujo Rio Grande do Norte provinciano nem parecia um lugar pacato e parado no tempo. E isso – a meu ver – diga-se de passagem -, é importante porque comprova o valor da sabedoria humana (aparentemente tão  acanhada atualmente, inclusive dentro das próprias igrejas católica e evangélicas -, salvas as exceções). O próprio nome “Movimento de Natal” foi inspirado numa notícia internacional que assim denominou o fenômeno que acontecia em Natal. 

O acanhado e bucólico povoado de Timbó, distrito de Nísia Floresta, acabou entrando para a história como berço do primeiro gesto concreto da Campanha da Fraternidade, coordenado pelas Irmãs Missionárias da Congregação de Jesus Crucificado. A comunidade, em peso, percorreu todos os bairros e lugarejos, arrecadando prendas e outras doações que seriam destinadas a quem realmente tinha fome. Como isso faz falta hoje! 

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“Campanha da Fraternidade”, teve o seu lançamento em Nísia Floresta, no distrito de Timbó

Não há nisiaflorestense – testemunha daquele tempo – que não fale dessa experiência com amor e saudade. Alguns choram! É impressionante! As irmãs fizeram a diferença porque tinham comprometimento contínuo com os pobres. Não eram religiosas preocupadas com coisas supérfluas, nem viviam atreladas aos poderosos nem aos políticos.

Junto aos nisiaflorestenses, essas freiras comiam “voador” (tipo de peixe seco) com macaxeira, batata-doce com arenque, camarão com fruta-pão (o crustáceo existia em abundância à época), enfim se integravam aos pobres, aos oprimidos e com quem encontrassem na velha Nísia Floresta. Sem teatro! com verdade pura e simples. Preocupadas em exorcizar os demônios da miséria, da falta de amor e do desconhecimento do Evangelho.

As “Missionárias de Jesus Crucificado” integram uma ordem religiosa criada em Campinas, São Paulo, em 1929, por Dom Carlos Barreto. Elas não eram simples por teatralidade. Eram simples porque praticavam Jesus. Não eram atrizes que se sentam com os que comem feijão verde com farinha, mas preferem a casa onde bebem vinho do Porto e caviar. Suas vidas até hoje se pautam no comportamento de viver com dignidade, mas longe de luxo e faustos. Há nessa ordem religiosa uma aproximação com Jesus.

Instituto Dom Barreto, onde residem as Missionárias de Jesus Crucificado’

O trabalho das Irmãs Vigárias foi autorizado pelo Vaticano, tendo em vista que antes disso, as freiras apenas evangelizavam o povo fora da Igreja Matriz. Dentro da igreja elas apenas auxiliavam acanhadamente os sacerdotes nas poucas vezes que era possível a presença de um. Mas não pensem que o aparecimento das Irmãs Vigárias se deu de forma natural. Em História Oral (1992), alguns nisiaflorestenses católicos – idosos –, me contaram que certos nativos, embora acolheram bem as Irmãs Vigárias, participavam eventualmente de missas em São José de Mipibu. Preferiam um padre no altar, certamente desconfortáveis com a presença da mulher naquele espaço que até então era exclusivamente masculino. A ideia do vicariato na mulher sofria resistência de alguns.

Certamente era estranho, como seria hoje assistirmos a uma missa em Latim. Na realidade, o preconceito de alguns nativos merecia perdão diante da educação, da formação de cada um, e da própria história das mulheres – que não foi fácil. Mas o tempo se encarregou de lapidar as mentalidades. Logo as Irmãs Vigárias se tornaram respeitadíssimas pelo extraordinário trabalho que fizeram. E, coincidentemente, elas pisavam o solo onde nasceu a primeira feminista da América Latina.

Analisando bem, embora não fosse a intenção – mas uma consequência – não se pode negar que a história das Irmãs Vigárias consistiu num marco do empoderamento feminino brasileiro, e que se casava bem com o que a intelectual Nísia Floresta apregoou mais de 100 anos antes. (Vale lembrar que Nísia, apesar de ser católica, criticava as freiras que se enclausuram, pois no entendimento dela, qualquer religioso deveria estar em ação nas ruas, como a Irmã Dulce dos Pobres, e não trancafiadas).

Nísia Floresta reivindicava que as mulheres tivessem os mesmos direitos legalmente dados aos homens, inclusive o direito à educação e a qualquer profissão, inclusive governar o país e comandar exércitos. Dá para imaginar o que isso deve ter causado naquela época (1832). Embora ela não se referisse à mulher no papel praticamente de um padre – até porque o sacerdócio não é uma profissão – suas palavras se coadunam com o surgimento das Irmãs Vigárias.

Ao longo de minha convivência com os nisiaflorestenses, observei a nostalgia quando tratavam do assunto. As Irmãs deixaram lembranças marcantes. Elas tinham um Jeep antigo e viviam nos povoados, muitas vezes transportavam nativos de um lugar para o outro. Por onde passavam recebiam os frutos da terra. A “Casa das Freiras”, ou “Casa das Irmãs Vigárias”, como até hoje é chamada (onde foi feita essa fotografia), era palco de momentos felizes, onde as crianças e jovens sempre tiveram um ponto de apoio em diversos sentidos. Era lugar de socialização, aprendizado, acolhimento e oração. Há unanimidade nos depoimentos dos idosos sobre esse local que ficou santificado e ressurgiu das cinzas em 2013, sendo totalmente restaurado pelo padre João Batista Chaves da Rocha, justamente para as comemorações dos 50 anos da Campanha da Fraternidade.

Casa das Irmãs Vigárias, em Nísia Floresta, recentemente restaurada, que é um Memorial das Irmãs Vigárias

As Irmãs Vigárias que estiveram em Nísia Floresta eram muito animadas e davam vida a outros eventos religiosos, inclusive as Festas da Padroeira. Gostavam de Folclore e incentivavam a Cultura Popular. Muitas senhoras e senhores nisiaflorestenses – atualmente com idades acima de 65 adiante -, contam suas experiências com elas, sempre com peculiaridades interessantes, inclusive vários fatos pitorescos, como contou-me, sorrindo, a senhora Maria do Carmo, esposa do Sr. Bambão: “Certa vez, elas precisaram trazer uma leitoa de Alcaçuz, doada por uma senhora católica que não aceitou um não como resposta”, dentre inúmeras histórias curiosas,  marcadas por nostalgia. E não podia ser diferente, afinal, num lugar tão bucólico, elas roubaram a cena e marcaram a vida de muitos.

Fica essa lembrança histórica e encantadora, cuja essência deve estar viva em todos aqueles que são chamados para essa missão. E de igual modo para todos, pois elas foram exemplos de mulheres que se comprometeram a viver o Evangelho plenamente, bem como o amor pelo ser humano. Que pena que isso não seja tão comum nos dias atuais, marcados por interesses diferentes daquele tempo.

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