Livro de cartas para Lula na prisão inclui texto de potiguar, aplaudido de pé ao contar sua história em lançamento

Isabela Santos – É jornalista e repórter da agência Saiba Mais

Milhares de brasileiros enviaram mensagens e dividiram suas histórias com o ex-presidente Lula durante os 580 dias em que esteve injustamente preso em Curitiba, entre os anos de 2018 e 2019. Muitos são “filhos da pobreza”, como ele e como Lucas Ribeiro, da comunidade Santa Luzia, em Touros-RN.

O potiguar foi um dos convidados a ler a própria correspondência na terça-feira (31), em São Paulo, em uma noite de homenagens ao destinatário, durante o lançamento de “Querido Lula: cartas a um presidente na prisão”. O livro, editado pela Boitempo, reúne 46 cartas, dentre as cerca de 25 mil recebidas.

O trabalho foi organizado pela historiadora francesa Maud Chirio e publicado antes em seu país de origem. No lançamento de Paris, em março, a carta de Lucas foi lida pelo artista Chico Buarque de Holanda.

Desta vez, as palavras emocionadas foram ditas timidamente, com nervosismo, pelo próprio autor, e aplaudidas de pé por todo o Teatro da Universidade Católica (Tuca) lotado.

No palco, dividiu espaço com Lula e a esposa, Janja; a ex-presidenta Dilma Rousseff, Fernando e Estela Haddad e um grupo com outras pessoas que também tiveram suas cartas escolhidas, mais um time de artistas selecionados para recitar textos de remetentes ausentes. Entre eles, Denise Fraga, Zélia Duncan, Camila Pitanga, Preta Ferreira, Cleo Pires, Celso Frateschi, Débora Duboc e Tulipa Ruiz.

“Foi um momento mágico e único na minha vida. Acho que ainda estou em fase de processamento daquele momento. Fiquei nervoso. Tímido eu já sou no dia a dia, mas a vontade de viver aquele momento foi maior”, contou o potiguar, que ao abraçar o presidente, pode expressar sua gratidão e admiração. “Falei para ele o quanto ele é importante na minha vida, que o admiro desde 89 quando ainda não votava, mas já pedia aos meus pais para votarem nele”.

Lucas disse ainda que foi muito bem recepcionado por todos do Instituto Lula e da edição do livro, que teve colaborações de Ernesto Bohoslavsky, Luciana Heymann, Ana Lagüéns, Angela Moreira, Benito Schmidt e Adrianna Setemy na organização. À tarde, ao chegar no ensaio do evento, que foi dirigido pelo brasileiro Márcio Abreu e o francês Thomas Quillardet, foi recebido por quem tinha lido primeiro sua carta, Maria Luísa.

“Ela fez questão de afirmar que havia selecionado a minha depois de muito chorar. A organizadora Maud Chirio também queria muito me conhecer, o que aconteceu de imediato. Foi quando ela me informou que no lançamento do livro em Paris minha carta havia sido lida por Chico Buarque. Foi uma sequência de surpresas e elogios, inclusive dos outros cinco missivistas que também leram suas cartas”, comemorou.

“Associo o teu cárcere político à sublime ausência de mãe à mesa”.

Batizado como Luiz, ele é chamado de Lucas desde criança e não sabe o porquê, mas é como prefere. De uma família de 19 irmãos, a maioria nascidos pelas mãos de parteiras na casa de taipa onde viviam com os pais, apenas oito estão vivos. Lucas, que já tem mais de 40 anos, lembra que naquela época a mortalidade infantil era alta e geralmente causada por desnutrição infantil – problema que a ONU considerou erradicado durante os governos do Partido dos Trabalhadores.

O texto lido é, na verdade, um resumo da carta, que chegou a oito páginas escritas à mão. Ele segue pela passagem de sua vida em que se mudou para Natal em 1997, com dez reais no bolso, para a Casa do Estudante.

O pai agricultor, Antônio, e a mãe dona de casa, Maria Aleluia, falecidos em 2009 e 2017, respectivamente, estão muito presentes na mensagem de Lucas. Ambos semianalfabetos viram os filhos “melhorarem de vida” e um deles concluir a faculdade, graças às políticas públicas dos governos Lula e Dilma.

Ele recorda dos tempos de escassez, em que a mãe só se alimentava quando sobrava algo depois de dar de comer às crianças. Às vezes, improvisava com um pirão de café e farinha no prato. “Essa lembrança é a que mais me angustia quando lembro toda a privação e renúncia que mãe, sem nada nunca reclamar, fazia por nós. Ela comia aquele pirão como se fosse a iguaria mais cara de um cinco estrelas”.

“Lula, associo o teu cárcere político à sublime ausência de mãe à mesa, porque sinto tua paciência e tua sabedoria em aceitar sem odiar os teus algozes, da mesma forma que mãe renunciava o direito de se alimentar, sem desespero ou revolta”, arremata potiguar, que terminou o Ensino Médio, fez cursos profissionalizantes de Hotelaria e Turismo e atualmente é recepcionista de um hotel em Ponta Negra.

“Eu, aquele zé-ninguém, o famoso zé-ruela lá do interior tive oportunidade de comprar um apartamento pelo ‘Minha Casa, Minha Vida’. Pior, pra desespero da burguesia, ainda comprei um Celta, vermelho em homenagem ao PT”, brincou.

“Obrigado, Lula, por existir e provar que um torneiro mecânico e uma mulher, Dilma Rousseff, podem sim chegar lá e fazerem diferente. Isso nos motiva a lutar. As sementes plantadas por vocês são como ramas de batata ao solo, uma vez plantadas, nunca mais conseguiremos eliminá-las. Elas sempre renascem”. E parafraseou Carolina Maria de Jesus: “Nosso povo quer emprego, comida no prato, casa de alvenaria e nenhum quarto de despejo”.

Carta foi despretensiosa e autor chegou a perder contato com organizadores após roubarem seu celular

Por pouco, os organizadores do livro não ficaram sem a carta do Rio Grande do Norte. Lucas Ribeiro a postou nos Correios em 8 de janeiro de 2019, mas não tinha muita fé que seria lida:

“Mandei por mandar. Não imaginava que chegasse ao destinatário final, o Lula. Acho que uns quatro meses depois, estava como agora no trabalho e o celular tocou. DDD de SP; atendi; a pessoa se identificou como Calinka [Lacort], do Instituto Lula; disse que receberam minha carta, que se emocionaram e que seria enviada para Curitiba, para o Lula”, lembra. “Nossa, fiquei tão feliz, mas achei que seria só aquilo”.

Cerca de três meses depois, Calinka entrou em contato novamente pedindo autorização para expor o texto na França. O Comitê Lula Livre em Paris faria uma exposição com parte das cartas que o presidente recebia.

Depois disso, em dezembro de 2019, o celular de Lucas foi furtado e ele ficou em torno de um mês sem aparelho, chegando a ter problemas para resgatar o número de telefone que usava.

“Não consegui resgatar. Tive que adquirir um novo número. Pior: o e-mail que eu havia deixado na carta tinha sofrido tentativa de hackeamento e foi bloqueado. E quando eu tentava desbloquear eles enviavam SMS para o número de celular que eu já não tinha acesso. Tive de criar um novo e-mail e perdi o contato com o pessoal do Instituto Lula”, lamentou.

Nesse período, a equipe tentava contato. No final de 2021, quando um dos irmãos estava de férias na casa de Lucas, recebeu alguém da equipe da governadora Fátima Bezerra.

“Foram até o meu endereço que estava na carta para tentar me localizar. Disseram que o pessoal do Instituto queria muito falar comigo. Meu irmão passou meu novo número e Calinka entrou em contato informando sobre a realização do livro e que precisavam da minha autorização. Agilizei tudo o mais rápido possível”, disse aliviado, mostrando que também queria contribuir para a mensagem do petista.

Dessa forma, Lucas se somou às vozes que denunciaram o processo fraudulento que levou o presidente à prisão, com palavras de esperança e desejo de um Brasil melhor.

A fundadora e diretora da Boitempo, Ivana Jinkings, ao apresentar o livro, anunciou tratar-se de depoimentos carregados de emoção “porque expressam não apenas a solidariedade de um povo com seu líder, mas expressam principalmente a esperança com o futuro”.

A organizadora Maud Chirio trata as cartas como “patrimônio do povo brasileiro”, além de um documento muito importante para historiadores e grande expressão de carinho a Lula. Para ela, as milhares de histórias pessoais, contadas em primeira pessoa, contam uma história coletiva: de vidas revolucionadas pelas políticas sociais de inclusão implementadas durante os mandatos do PT.

“Essa história começou por um pacto estabelecido em abril de 2018 em frente ao sindicato dos metalúrgicos. Nesse dia, Lula pediu pra multidão não deixar que a injustiça interrompesse a luta, pediu pra ser representado fora da cadeia por milhões de Lulas. O envio de cartas foi a prova de que o seu pedido tinha sido ouvido”, disse Maud.

Muito emocionado, Lula disse que “virou chorão demais” e que ao ler cada um daqueles escritos na prisão, recebia uma “injeção de ânimo”. Com gratidão, completou ainda que vive agora um momento sui generis.

“Um país que tem um povo com sentimento de solidariedade de vocês, a gente não pode ter medo de nada. Vamos juntos derrotar o fascismo e recuperar a democracia”, conclamou.

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