JOSÉ CLEMENTINO, BABALAÔ

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Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Conheci o pai de santo José Clementino há muitos anos, na sede da Federação Espirita de Umbanda do RN. Havia ido até lá um pouco por curiosidade e para prestar um favor a uma pessoa amiga. Essa pessoa era uma das filhas de santo do terreiro Pai Joaquim de Angola, que por algum tipo de problemas de relacionamento estava se afastando e tentando abrir um culto em seu próprio endereço. Para isso ela precisava de registro na federação. Foi aí que entrei, pois ela não desejava se deparar com os antigos companheiros de fé.

Assim, sem ter nada a ver com o peixe e nem entender coisa alguma dessas artes, me vi conversando e respondendo às perguntas daquela figura agradável, séria e inteligente. Foi discreto. Perguntou detalhes sobre a prática que ia ser realizada, horários, toques, e acho que não fui de muita ajuda. Ao final fez apenas um comentário como para si mesmo: – Quem não é boa filha de santo não vai ser boa mãe…

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José Clementino recebendo o título de Cidadão Natalense – Foto: Verônica Macêdo

Paguei um ano adiantado e saí dali com a carteira de umbandista que guardei até um dia desses, com foto e tudo mais. E um amigo novo de quem eu muito passei a me orgulhar.

Mas a minha curiosidade havia sido aguçada e fui mais tarde, a convite, visitar o terreiro do mestre. Meu conhecimento da matéria até então era através dos livros de Jorge Amado e de Roger Bastide. Jorge Amado, como a maioria dos artistas e intelectuais que se dizem simpáticos às práticas afros, tinha, na verdade, o olhar de uma classe superior e isso fica evidente no livro Tenda dos Milagres, em que Pedro Arcanjo, seu alter ego, revela suas convicções – a visão  condescendente sobre o aspecto folclórico das manifestações populares. Dessa forma fica bem visitar terreiros, tirar fotos ao lado de Olga de Alaketo, Mãe Menininha de Gantoá ou Mãe Stela de Oxóssi e gravar pontos como Maria Betânia ou Clara Nunes (e lucrar com isso, claro). Umberto Eco, intelectual italiano, em O Pêndulo de Foucault, narra em um episódio, ficcional, acredito, as reações de uma jovem italiana que apesar da postura cética, se sente possuída durante uma sessão de Candomblé em Salvador.

Nunca participei de uma Gira, ou sessão de culto, da Umbanda. Apenas em festas de Pretos Velhos, Caboclos, Mestres Juremeiros. Vi em Salvador um festejo de Candomblé, que desconfio fosse feito para turistas. Vi também em Itaparica, por acaso, um desses trabalhos, esse mais espontâneo e belo.

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Certa vez paguei um mico. Participando de um curso de religiões comparadas, levei a turma ao terreiro de Zé Clementino a título de estudo. Era uma noite de festa dos Pretos Velhos, ocasião de muitas e deliciosas comidas. Lá pras tantas todos, filhos e filhas de santo, se recolheram às camarinhas. De repente uma das jovens veio até onde eu estava, na assistência, e disse que Zé Clementino me chamava lá dentro. Fiquei surpreso e mais ainda quando soube que deveria ir à frente do cortejo, ou seja, na frente das filhas de santo, com um alguidar na cabeça, colocar as oferendas aos pés do Peji sagrado. Poderia dizer não a uma honraria dessas? Desculpei-me mentalmente com Kardec e segui muito sem jeito, improvisando passos de dança à frente das belas yaôs. Sorte que ainda não havia celulares nem redes sociais.

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O terreiro de Zé Clementino, a Cabana Umbandista Pai Joaquim de Angola, ficava na Rua Campos Pinto, hoje Rua Mestre Lucarino, em frente à sede da Escola de Samba Balanço do Morro, nas Rocas. Ele era um homem sério em suas convicções, e não fazia concessões quanto à prática de algum tipo de magia negra. Vi mais de uma vez quando ele refugava propostas nesse sentido. Fugia de qualquer estereótipo atribuído aos babalaôs, sem posar de especial ou possuidor de poderes mágicos. Anúncios como este colhido ao acaso: *Casamentos fracassados *namoro ou noivado desfeito *amor não correspondido.*relacionamento fora do casamento. *relacionamento homossexual. *pessoas que não tem sorte no amor.*afastamento de amante ou rival.*desfaço qualquer magia”, nunca fez parte da sua prática religiosa.

Talvez por isso mesmo nos últimos anos o seu terreiro não apresentasse a mesma exuberância de antes. Não tenho dados para avaliar se o mesmo se dá com as outras casas, mas vi entristecido o número de frequentadores ir aos poucos diminuindo.

Zé Clementino se encantou – mestres umbandistas não morrem – no dia 21 de setembro passado, aos 90 anos. Planejávamos, Gutenberg Costa e eu, visitá-lo para uma boa conversa, mas a Covid-19 atrapalhou esse e outros planos. Deixo meu registro e meus respeitos, como a todos que são firmes nas suas convicções e representam heroicamente um pedaço da cultura popular. Vá com Deus, meu irmão querido, ou com Oxalá. E que todos os outros Orixás o abençoem. 

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1 comentário

  • JOSIAS Góis disse:

    Excelente nota, artigo, sobre meu vizinho de rua e conterrâneo José Clementino.
    Que a espiritualidade o tenha recebido nas condição de serviço prestado com respeito a conexão que ele teve seriamente com a espiritualidade.
    Parabéns Nemereciano pelo artigo.

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