Homilia  proferida pelo padre José Lenilson no encerramento da Festa dos Padroeiros 2022

Homilia  proferida pelo padre José Lenilson de Morais, nesta terça-feira, dia 26 de julho, por ocasião do encerramento da Festa dos Padroeiros de São José de Mipibu, Sant’Ana e São Joaquim/2022.

“Amados irmãos e irmãs,

A Palavra de Deus que nós escutamos nesta Divina Liturgia começa com um convite do livro do Eclesiástico (44, 1.10):

“Vamos fazer o elogio dos homens famosos, nossos antepassados através das gerações. Estes, são homens de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos”.

É neste sentido que se afirma e confirma “século por século” a devoção do Povo Católico à Santa Ana e São Joaquim. Eles se tornaram “pessoas famosas”, de boa fama – a fama da santidade –, não por serem ricos e poderosos aos olhos deste mundo, mas por serem tementes a Deus – pessoas cheias de misericórdia. De fato, os santos são reconhecidos pela sua capacidade de viver a verdade, a justiça e a misericórdia para com os mais pobres e sofredores, por amor ao Senhor.

 

Como todos sabemos, Joaquim e Ana são os avós do Salvador da humanidade: Jesus Cristo. Este casal virtuoso deu a vida à Maria, o ser humano mais santo, a mulher mais perfeita que pisou esta terra: a Imaculada.

Irmãos bem-amados, nossos Excelsos Padroeiros estão na linhagem espiritual e genética dos homens e mulheres de fé, elencados na Carta aos Hebreus, capítulo 11. Nós ouvimos os treze primeiros versículos, mas no capítulo inteiro, por dezessete vezes seguidas, o Autor sagrado usa a expressão: “Foi pela Fé”; e nos exorta que “sem a fé é impossível agradar a Deus”. Mas de que fé a Palavra de Deus está falando? A Escritura fala de uma fé que compromete, uma fé que não é superstição, devoção vazia ou sentimentalismo que não gera vida, não gera mudança… Uma fé que termina no templo ou na praça não pode agradar a Deus e não conduz à salvação.

Hoje em dia, percebemos crescer uma espécie de “fé coaching”, mas a fé com base no “coachismo espiritual” – dissera outo dia o Pe. Matias Soares – “não converte ninguém”. E acrescento que a fé que não converte não salva e se não nos põe no caminho da salvação é apenas “basculho”, que para nada serve a não ser para ser queimado. Outro grande perigo é a fé “vazia de personalidade”: a fé em “Deus” como uma força cósmica, uma energia positiva, uma mente criadora fria e sem identidade. Já dizia Dom Heitor Sales, arcebispo emérito e filho desta terra: “(…) essa não é nossa fé. A nossa fé está no Credo, no Credo professado há dois milênios”. Não é o credo de um célebre teólogo ou de um protestante indignado, revoltado e frustrado, é a Fé dos Apóstolos, a Fé dos Mártires, a Fé vislumbrada pelos Patriarcas e Profetas e Fé desejada ardentemente por Sant’Ana e São Joaquim, durante sua existência mortal.

Jesus, no Evangelho de hoje, nos pede para ouvir e ver. Ouvir a Palavra e ver a realidade que nos cerca, os acontecimentos que envolvem a humanidade. É muito interessante quando Jesus, retomando o profeta Isaías nos diz: “Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos para não ver” (Mt 13,15).

Enquanto “muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram,
desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram” (Mt 3, 7), nós, muitas vezes, ouvimos a Palavra (o Evangelho) de má vontade, distraídos, olhando o celular, fofocando ou preocupados com o que vamos fazer, assim que a Missa terminar. Temos medo de ouvir a Palavra atentamente porque ela é exigente e paradoxal: fere para curar, queima para florescer, destrói para reconstruir, humilha para elevar, provoca o choro para consolar, pois só assim os “filhos de Adão” se convertem de seus pecados e crimes.

Irmãos e irmãs, nossa Paróquia celebrou 260 anos de sua criação, mas a presença católica nesta “terra eucarística”, supera os 300 anos. Muita coisa mudou e mudará no âmbito religioso, cultural e social. Há 45 anos, porém, algo chocou o povo do Rio Grande do Norte: o furto das sagradas imagens da Matriz, dentre elas as de Sant’Ana e São Joaquim. Os sagrados Vultos foram recuperados, graças as preces do Povo de Deus e o empenho incansável do Mons. Antônio Barros e do Capitão Veiga. No dia 15 de novembro de 1977, o Jornal Diário de Natal registrou o seguinte fato ocorrido no dia 13 de novembro do mesmo ano:

“Às 17h17, um bando de andorinhas sobrevoou as torres da igreja. Imediatamente, um sino repicou e perto de 10 mil pessoas começaram a aplaudir e a agitar lenços e bandeirinhas brancas. O céu encheu-se de papel picado e embaixo as mulheres começaram a chorar, enquanto os homens benziam-se, levantavam as mãos e gritavam. Uma banda de música começou a tocar uma marcha suave, crianças foram levantadas sobre os ombros dos pais, (…) Por uma rua estreita, entravam as imagens de São Joaquim e Sant’Ana, nossa Senhora do Rosário e Conceição, dirigindo-se à igreja”.

Passados 45 anos daquele acontecimento nossa fé se mantém viva graças ao amor deste Povo Santo à Santíssima Eucaristia, à Palavra de Deus e aos seus Padroeiros. Mas, ainda temos tantas situações de exclusão social, de fome e de violência que precisam ser enfrentadas… as drogas destroem a vida dos jovens, idosos e crianças são explorados ou abusados, o extermínio de jovens continua, agentes da segurança pública são arrastados de suas casas ou de seus trabalhos e são assassinados covardemente, a impunidade ainda graceja nossas ruas e praças…, os valores da família – base para uma sociedade mais saudável – são substituídos por projetos que nem sempre visam a dignidade de pessoa humana.

Por outro lado, não é com mais violência e intolerância que devemos pregar ou transmitir os valores de sempre. O cristianismo nunca teve verdadeiro êxito quando usou da “força em nome de Deus”. A mudança acontece somente pelo Evangelho, pela conversão de cada um de nós. O mundo está farto de pregações moralistas, hipócritas e falsas. O Povo de Deus tem faro para perceber quando há sinceridade em nossas palavras. O Papa Francisco não cansa de gritar: “pecadores sim, corruptos não”. A pior corrupção é aquela do coração, da fé e da consciência. Com a consciência corrompida, o político não muda, o padre não converte nem se converte, o professor não educa, o comerciante coloca o lucro acima de tudo, o trabalhador quer ganhar sem se esforçar, o fazendeiro pensa que a sua garantia está na quantidade de terras ou de bois… e assim por diante.

Povo amado, a gente tem fé para quê? Não é para chegar ao céu? Você quer mesmo ir para o céu? A porta está aberta, antes está escancarada por Jesus. Mas tem uma regra de ouro, um segredo a ser seguido. Assim falou o Mestre: “Todas as coisas que querem que os homens façam a vocês, façam também a eles” (Mt 7,12). Como viver isto em nossa vida?

– Se você quer o perdão de Deus, se apresse a perdoar;

– Se você pode gerar emprego, cuide em fazer logo, pois o emprego é que dá dignidade, não a esmola, o sacolão, a bolsa ou o auxílio… são coisas necessárias porque a “fome não espera”, mas é o trabalho que dignifica;

– Se você gosta de ser bem tratado, trate bem todas as pessoas, não apenas os ricos ou seus amigos;

– Você quer entrar na “terra celestial, na terra da promessa”, permita que os agricultores usem um pedacinho de sua fazenda para cultivar o feijão, o milho, a batata e as hortaliças… eles vão ter o pão para matar a fome e você estará juntando “tesouros para o Reino dos Céus”;

– Você matou ou mandou matar alguém, se arrependa logo, se confesse e repare sua falta para não cair no inferno para sempre… lá só haverá “choro e ranger de dentes” e sua vingança ou ódio não servirão para nada;

– Por fim, você quer SER FELIZ? Faça a vida de alguém mais feliz. Não use, não abuse, nem explore as pessoas, não brinque com seus sentimentos. FAÇA SEMPRE O BEM para viver e morrer bem e, assim, viver para sempre na companhia de Jesus e de todos os seus anjos e santos. Amém!

 

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